Em novo episódio do Prato do Dia, Sérgio Rodrigues destaca o êxito do futebol como ferramenta de soft power na Copa de 2026

Entrevista ao podcast traz reflexões sobre o papel simbólico do Mundial de futebol como ‘assembleia de nações’. Escritor, jornalista e roteirista também avalia momento da seleção brasileira e critica guinada do jornalismo esportivo rumo ao entretenimento.

A Copa do Mundo de 2026 encerrou a sua mais recente edição, em 19 de julho, reafirmando o futebol como um fenômeno que extrapola os limites do esporte. Disputado em um contexto marcado por tensões geopolíticas, mudanças no formato da competição e debates sobre a crescente comercialização do torneio, o Mundial masculino de futebol, que está prestes a completar o seu centenário, voltou a mobilizar milhões de pessoas e a suscitar reflexões sobre política, cultura, comunicação e identidade nacional. Mais do que analisar os resultados em campo, a nova edição do podcast Prato do Dia propõe um balanço das principais reflexões deixadas pela competição e lança a pergunta: “que Copa do Mundo foi essa?”

Convidado a esta reflexão, o jornalista, escritor e roteirista Sérgio Rodrigues destacou o sucesso desta edição do torneio nas disputas dentro de campo e também na dimensão do futebol como ferramenta de soft power, ou seja, de abrir caminhos para influenciar culturalmente dezenas ou centenas de milhões de pessoas mundo afora sem lançar mão de meios coercitivos. Embora conflitos geopolíticos acompanhem cada edição do torneio, até gerando incidentes diplomáticos como ocorreu nesta edição liderada pelos Estados Unidos, o início dos jogos foi capaz de alterar temporariamente o foco das atenções, deixando embates da realpolitik em suspensão e reafirmando o futebol como um espaço de encontro entre diferentes nações.

“Todas as questões políticas, geopolíticas, que são sérias, vão para o segundo plano e às vezes até para o terceiro ou quarto plano, uma vez que começa a rolar a bola. Isso é impressionante, é a força desse esporte. No mundo de hoje, que está vendo as regras de convivência do pós-segunda guerra serem questionadas pela sua maior potência, isso tem um poder ainda maior”, afirma.

Para o escritor, esse fenômeno não representa apenas alienação, mas também evidencia o poder simbólico do futebol como ambiente de convivência entre diferentes culturas, religiões e países. “Não é que seja pura alienação. Até você pode, num certo sentido, dizer que é o ópio do povo, que as pessoas optam por se alienar das questões políticas no momento em que tem uma diversão ali, mas isso é contar só uma parte da história”, diz o jornalista. “Tem outra parte da história que é o tremendo poder simbólico. O tal do soft power do futebol, que é uma coisa real. Hoje, o futebol é como uma assembleia de países, de nações, de culturas, de troca. Está funcionando muito melhor do que a ONU, porque a ONU foi esvaziada principalmente pelos Estados Unidos e está enfrentando seriíssimas dificuldades”, afirma.

Se a força simbólica do futebol aparece na capacidade de mobilizar multidões em convergência, tal simbolismo também se manifesta dentro de campo, na dinâmica do esporte. Na avaliação de Sérgio Rodrigues, a campanha da seleção de Cabo Verde, que enfrentou aquelas que seriam as duas seleções finalistas da competição e não perdeu para nenhuma delas no tempo normal de jogo, sintetizou uma das principais marcas desta edição da Copa, ao demonstrar que a distância entre as seleções tradicionais e as emergentes vem diminuindo.

“O que Cabo Verde fez foi uma coisa espantosa. Eu acho que a distância entre os ricos e os pobres está diminuindo no futebol. Isso é uma ótima notícia, porque o espírito do jogo é esse: permitir que o pequeno ganhe.”

Ao avaliar o estágio atual da seleção brasileira, o escritor avalia que os principais desafios extrapolam a questão técnica. “O Brasil hoje me parece uma seleção que tem muito medo. É uma seleção meio traumatizada, muito insegura e acho que o peso desse passado de glórias contribui até para aumentar essa insegurança, porque fica um peso excessivo nos ombros dos jogadores”. Sérgio Rodrigues defende que a manutenção de um trabalho, com planejamento de longo prazo, pode representar um avanço, mas sustenta que a prioridade deve ser recuperar a qualidade do futebol apresentado. “Mais importante do que o título, acho que é fundamental que a seleção brasileira volte a jogar um bom futebol, algo que ela não tem conseguido.”

Essa recuperação, segundo o jornalista, ultrapassa os limites do esporte e dialoga diretamente com a projeção internacional do país. Na avaliação de jornalista, o futebol permanece como uma das manifestações culturais brasileiras de maior alcance global, e um importante instrumento de construção da imagem do Brasil no exterior.

“Os produtos de exportação do Brasil para a cultura mundial sempre foram, basicamente, a música e o futebol”, pontua. Mesmo reconhecendo que a seleção já não ocupa o protagonismo de outras décadas, ele considera estratégico investir nesse patrimônio simbólico. “Investir nesse caminho para tentar retomar algum tipo de primazia me parece um investimento relativamente pequeno para um benefício muito grande”, completa Rodrigues.

As transformações observadas nesta edição do Mundial de futebol também foram marcantes em uma análise da forma como o esporte passou a ser narrado. Para os brasileiros, as transmissões da Copa de 2026 representaram o fim do predomínio absoluto da Rede Globo, pois foi a CazéTV, um canal do YouTube, quem deteve o direito de transmitir todas as partidas do torneio. Em um olhar mais panorâmico, Rodrigues afirma que a lógica do entretenimento vem substituindo características tradicionais do jornalismo esportivo.

“O jornalismo esportivo não existe mais, no sentido do termo ‘jornalismo’ como nós o conhecemos. O que existe é um grande circo do entretenimento, basicamente. Você pode chamar de ‘jornalismo’, claro, mas ele não tem algumas características do velho jornalismo”, afirma.

A primeira das características que o escritor aponta, neste contexto de transmissões que passaram a privilegiar a exaltação permanente do espetáculo, foi a queda do muro que separava o conteúdo produzido nas antigas redações jornalísticas das práticas do departamento comercial e de seus parceiros, citando como exemplo a conexão de inserções e publicidades de casas de apostas ao conteúdo noticioso. Em sua avaliação, esse movimento não se restringe ao esporte, mas reflete transformações mais amplas na comunicação contemporânea, o que torna ainda mais importante preservar espaços dedicados ao pensamento crítico.

“Hoje as transmissões são grandes espetáculos comerciais. O papel desse neojornalismo é esquentar o que está acontecendo, quando o jornalismo deveria tentar dar a dimensão real do jogo”, diz Sérgio Rodrigues, que cobriu a Copa de 1986 como jornalista esportivo para o Jornal do Brasil, um dos periódicos mais influentes no Rio de Janeiro dos anos 1980.

Antes de despontar como um autor relevante da literatura brasileira contemporânea, Sérgio Rodrigues atuou por anos no jornalismo esportivo e integrou o núcleo de criação do diário esportivo Lance! em 1997. No romance “O Drible”, publicado em 2013, usou o futebol como pano de fundo para detalhar as relações familiares entre pai e filho. O seu livro mais recente é “Escrever é Humano: Como Dar Vida à Sua Escrita em Tempo de Robôs”, lançado em 2025.

A entrevista completa com Sérgio Rodrigues para o Prato do Dia contou com a apresentação e participação do jornalista Fábio Mazzitelli e do professor José Carlos Marques, da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Unesp.

A íntegra pode ser ouvida no player abaixo e também nos principais tocadores de podcasts.