Na música brasileira, o universo dos instrumentos de percussão tem sido historicamente dominado pelos homens. Tal quadro, porém, não bastou para desanimar a baiana Michelle Abu, que fincou os pés e baquetas neste território e reivindicou sua ancestralidade para se tornar uma das instrumentistas mais respeitadas e requisitadas do país. Percussionista, baterista, cantora e compositora, Abu construiu uma carreira sólida que une a força dos ritmos tradicionais do Nordeste à eletricidade do rock e do pop, culminando em seu aclamado trabalho solo Qual é o Tambor.
A relação de Abu com a música começou cedo, alimentada pela efervescência cultural e rítmica de Salvador, onde nasceu.
“A minha relação com a música foi algo ‘inerente’. Sou nascida no bairro do Bonfim, e é muito difícil ter alguém de lá que não tenha ritmo. Desde sempre, a gente fazia o tal do sambão. Sambão é aquela coisa de cada um pegar alguma coisa para tocar. Ou não tem nenhum instrumento, mas faz barulho, mesmo que seja em um lugar baldio. E a gente faz a música acontecer”, rememora.
No som de casa rolavam canções de conterrâneos como Caetano, Gil, Gal, Bethânia e Novos Baianos. Fora do lar, os pais costumavam frequentar festejos populares, como a Lavagem do Bonfim, o carnaval e outros folguedos. “Desde muito pequena, estava na rua com os meus pais, vendo as festas populares acontecerem. Com certeza isso fez toda a diferença. Meu pai, meu irmão e outros parentes, todos têm ritmo. Mas na carreira de músico eu sou a primeira”, relembra Abu.
A artista baiana estudou numa escola católica chamada São José, localizada no bairro do Bonfim. Lá começou a frequentar as primeiras aulas de canto coral por volta dos cinco anos. Mais tarde, participava, durante o verão, de luaus com os amigos nas praias, mantendo-se sempre ligada aos batuques. Aos 15 anos, ganhou seu primeiro violão. Começou a tocar e cantar de forma descompromissada e logo destacou-se no circuito local. Chamava a atenção por sua habilidade musical que ia muito além da mera capacidade de marcar o tempo, e imprimia uma identidade enérgica, visual e profundamente técnica em cada apresentação.
Duas faculdades trancadas
A paixão pelos tambores e pela bateria levou-a a buscar especialização. Participou da Banda Didá, o primeiro grupo feminino afro-percussivo do Brasil. A banda foi criada no Pelourinho pelo mestre Neguinho do Samba. O nome Didá vem do iorubá e significa “o poder da criação”. Michelle também estudou nos blocos afro da cidade, onde absorveu a complexidade dos ritmos locais e a força do ijexá, do samba-reggae e dos toques de terreiro.
Posteriormente, entrou na faculdade de Biologia e montou uma banda que se chamava “Dendê com Jah”. Começaram a se apresentar por todo o circuito universitário. “Por volta de 1998, a gente começou a tocar muito. Daí pensei: ‘acho que estou na faculdade errada’. A música já estava acontecendo e eu ali, estudando os ofídios e anfíbios. Tranquei a faculdade”, lembra.
O passo seguinte foi prestar vestibular para a Faculdade de Música da UFBA. Porém, o curso era muito focado na música clássica. Isso a desmotivou. “Estava precisando aprender o instrumento para trabalhar, e eles querendo me falar sobre a vida de Mozart. Isso se chocava com a minha realidade. Mais uma vez, tranquei a faculdade, desta vez a de música”, conta.
A solução foi “cair para a vida”, tocando percussão em barzinho para poder pagar as contas. Começou a buscar meios para estudar sozinha, adquirindo CDs e assistindo às manifestações culturais que são sua outra grande paixão artística.
“Comecei a ir ao Recife para assistir ao Cavalo-Marinho e ao maracatu. Ia para o interior da Bahia, para Cachoeira, para Santo Amaro da Purificação. Assistia ao samba de roda pesado no carnaval de Salvador. Também trabalhei na Banda Didá. Enfim, naturalmente a percussão começou a ganhar espaço e força na minha vida”, relata Abu.
A conquista do eixo Sul-Sudeste e as grandes parcerias
Buscando expandir seus horizontes artísticos, Michelle Abu mudou-se para São Paulo em 2003. Na metrópole, sua versatilidade se tornou seu maior trunfo. Capaz de transitar com naturalidade entre o peso do rock de garagem e a sutileza da MPB, logo chamou a atenção de grandes nomes da música nacional.
Ao longo de sua jornada, Abu colaborou em gravações e shows com uma constelação de grandes artistas, incluindo Elza Soares, Baby do Brasil, Arnaldo Antune e Ira!. Consolidou uma reputação de musicista de apoio ideal para projetos que demandavam peso e swing. Em paralelo ao trabalho com terceiros, Abu desenvolveu seus próprios projetos inovadores, como o grupo As Chicas, no qual foi afiando suas capacidades criativas e performáticas. Com o tempo, seu swing baiano foi se integrando ao ritmo 4×4 do rock paulistano.
“A gravação do acústico do Ira! foi o grande acontecimento da minha mudança do Nordeste para o Sudeste. Vim para São Paulo, gravei o álbum e fiquei três anos em turnê com a banda. Foi um grande aprendizado e uma oportunidade de enraizamento. Depois fui tocar com Arnaldo Antunes, Lobão, Paulo Miklos, Fresno, Pitty e tantos outros. Para cada artista, não faço apenas a percussão. Absorvo a canção e a letra e insiro sonoridades, timbres e instrumentos que se tornam presentes nas obras dessas pessoas. Ou seja, crio algo novo sobre um som que já existe”.
Qual é o Tambor
Depois de anos emprestando seu talento para pavimentar o som de outros artistas, Abu sentiu a necessidade de dar voz às suas próprias composições e à sua visão de mundo. Esse desejo se materializou no álbum Qual é o Tambor. O disco é uma celebração da sua maturidade artística e uma investigação profunda sobre sua identidade percussiva.
No álbum, Abu assume o protagonismo total: canta, compõe e comanda a rica tapeçaria rítmica que dá identidade às faixas. O álbum mistura elementos eletrônicos, guitarras distorcidas, linhas de baixo grooveadas e, claro, uma infinidade de tambores que dialogam com a ancestralidade africana e a modernidade urbana.
As faixas autorais, como a composição que dá título ao álbum, revelam uma artista engajada, que canta sobre empoderamento, espiritualidade e a força da cultura afro-brasileira. Dentre os que colaboraram na obra estão a rapper Karol Conká, o coral indígena Memória Viva Guarani, a cantora indie Catto e os músicos Otto, Lirinha e Paulinho Santos, que é integrante do histórico grupo instrumental Uakti.
“A diversidade das manifestações culturais brasileiras foi a minha inspiração para esse álbum. Tem um samba de roda que fala sobre os bairros da Cidade Baixa em Salvador. Tem carimbó, pagodão, afrobeat com grooves de música baiana, um baião, um aguerê de Oxossi e uma balada rock – que, para mim, é uma expressão não só musical, mas de atitude”, conta Abu.
Produzido ao longo de três anos, o projeto floresceu de forma imersiva durante a pandemia, sem as pressões do tempo externo. “Fui para uma casinha no interior, levei meus instrumentos, meu computador, minha plaquinha e comecei a registrar. Quando as coisas começaram a retomar, notei que o mercado estava diferente. Comecei a pensar: está na hora de lançar meu segundo álbum”, diz.
O novo trabalho emprega seus talentos de percussionista, compositora, produtora e cantora para celebrar os 30 anos de dedicação aos tambores. “Não existe música brasileira sem tambores. Esse álbum é feito para eles”, destaca.
Ao refletir sobre o que há de particular em sua identidade artística ela evoca, mais uma vez, sua ligação com as peles, pratos e baquetas.
“Pelo fato de estar levando os tambores, pelo fato de ter toda essa trajetória dentro da música com vários outros artistas e pelo fato de que as composições são coisas que realmente saem de dentro de mim, eu não busco outros caminhos para que elas aconteçam. Então, acredito que as melhores definições para o meu trabalho são palavras como única, verdadeira e original”, conclui.
Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.
Crédito da foto: Gal Opido.
