Uma cidade inteira vacinada contra a Covid-19 em um dia

Em plena pandemia, a Faculdade de Medicina da Unesp conduziu estudo inédito de efetividade da vacina Oxford/AztraZeneca e imunizou toda a população de Botucatu em uma só jornada. A ação permitiu avaliar o desempenho do imunizante na população geral e comprovar sua segurança.

No mês de maio de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, a cidade de Botucatu foi palco de uma ação de saúde pública sem precedentes no Brasil: a vacinação em massa da população contra a doença em um único dia. A iniciativa foi parte de um estudo de efetividade da vacina Oxford/AstraZeneca, conduzido pela Faculdade de Medicina de Botucatu e pela prefeitura municipal. A ação envolveu também a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que produzia a vacina no país, o Ministério da Saúde, a Universidade de Oxford, do Reino Unido, e a Fundação Bill e Melinda Gates.

Naquele período, a vacinação no país estava em andamento empregando os dois imunizantes até então liberados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Oxford/AztraZeneca e Coronavac, este produzido pelo Instituto Butantan. Mas as doses ainda eram destinadas a grupos específicos considerados como de risco, incluindo trabalhadores da área da saúde e idosos. 

Antes de serem liberadas ao público, as vacinas passaram por diferentes etapas, incluindo pesquisas laboratoriais, testes pré-clínicos em animais, ensaios clínicos em seres humanos e pela avaliação dos órgãos regulatórios competentes. Mas também era preciso submetê-las aos estudos de efetividade, também chamados de estudos de vida real, que avaliam o desempenho do imunizante nas condições do dia a dia da população.  

O pesquisador principal do estudo, o professor Carlos Magno Fortaleza, atual diretor da Faculdade de Medicina de Botucatu, lembra que a ideia surgiu a partir de uma experiência similar que estava sendo realizada na cidade de Serrana, também no interior paulista. Por meio de uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP), o município estava vacinando moradores de alguns bairros com Coronavac e comparando-os aos não vacinados. 

“Mário Pardini, então prefeito de Botucatu, procurou a mim e ao professor Pasqual Barretti, reitor da Unesp na época, e perguntou se poderíamos fazer o mesmo aqui na nossa cidade. Respondemos que gostaríamos de ir além: vacinar a cidade inteira e comparar o antes e o depois”, conta. 

Em um único dia foram aplicadas 66.730 doses da vacina contra a Covid-19 na população de Botucatu (Crédito: Wellington Alves)

As tratativas para a realização do estudo

Para conduzir a vacinação em massa, Fortaleza dialogou com um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford e também com Nísia Trindade, então presidente da Fiocruz. 

“Explicamos que havia na cidade um Sistema Único de Saúde muito bem estabelecido. E que as quatro unidades da Unesp em Botucatu, FMB, IBB, FMVZ e FCA, dispunham de um parque de biologia molecular capaz de efetuar o diagnóstico dos casos e a detecção de possíveis variantes do vírus SARS-COV-2 ao longo do estudo. A partir da demonstração de toda essa possibilidade de recursos tecnológicos, somada à importante experiência anterior de vacinação em situação de emergência, ficou planejada a vacinação em massa”, relembra o pesquisador.

A experiência prévia a que Fortaleza se refere foi a vacinação da população de Botucatu contra a febre amarela em 2009. Após o registro de casos da doença em cidades vizinhas, a rede de saúde municipal se organizou e vacinou os botucatuenses ao longo de uma semana, nas unidades básicas de saúde e em postos volantes em escolas e supermercados. 

Faltava ainda o aval do Ministério da Saúde para que o estudo fosse realizado. A mediação ficou sob responsabilidade do então secretário de saúde municipal, André Spadaro. “O André Spadaro é filho do professor Joel Spadaro, que também foi diretor da Faculdade de Medicina de Botucatu anos atrás. Ele conhecia o ministro da saúde da época, Marcelo Queiroga. Ambos são cardiologistas. E foi ele que conseguiu junto ao ministro a assinatura de autorização do uso da vacina”, recorda Fortaleza.

Na corrida contra o tempo para dar início o quanto antes à vacinação da população, Fortaleza lembra que escreveu o projeto do estudo de efetividade em apenas dois dias.

“Era um projeto detalhado, em inglês. Fiquei escrevendo direto, de uma quinta-feira à noite até o fim do sábado. Foram 48 horas sem dormir. No domingo de manhã, já estávamos discutindo a proposta com os pesquisadores de Oxford”, relembra.

O delineamento metodológico do estudo contou também com a colaboração da professora Rejane Grotto, que coordenou os laboratórios de diagnóstico e sequenciamento genético do vírus SARS-COV-2, e do próprio reitor Barretti. 

Uma das estratégias para realizar a imunização em massa em um único dia foi aproveitar as sessões eleitorais do município como pontos de vacinação (Crédito: Wellington Alves)

A vacinação em massa

No primeiro dia de vacinação dos botucatuenses, em 16 de maio de 2021, 66.730 doses foram aplicadas. Esse número já equivalia a 80% do público-alvo, estimado em 80 mil pessoas com idades entre 18 e 60 anos. A definição do critério de idade levou em conta que os maiores de 60 anos já estariam vacinados e não havia liberação para inocular as vacinas em menores de idade. 

Fortaleza atribui o sucesso da ação de vacinação a uma série de fatores. Um deles foi a opção por utilizar as sessões eleitorais do município como pontos de vacinação.

“O Dr. André Spadaro e o então prefeito estavam voltando de Brasília de carro e o motorista da prefeitura que os acompanhava teve a ideia. Ele disse: ‘Se todo o mundo vota em um dia só, por que a gente não usa as sessões eleitorais e vacina todo o mundo em um dia só?’. Uma ideia brilhante. E foi o que a gente fez”, esclarece. Os 45 locais de votação utilizados para as eleições de 2020 foram transformados em pontos de vacinação. 

Outro elemento fundamental para o sucesso foi o engajamento da população, que se voluntariou para trabalhar na checagem dos documentos exigidos e se mobilizou intensamente tanto para receber a vacina quanto para aplicá-la. “A população estava muito mobilizada”, avalia o diretor da FMB. “Houve uma corrida para se voluntariar. Chegamos a dispensar mesários, que eram as pessoas que organizariam a vacinação”, conta. As equipes do Centro de Saúde Escola e as equipes das unidades básicas de saúde foram distribuídas entre os locais de vacinação. “Conseguimos atingir a meta de vacinação em um só dia”, destaca Fortaleza.

Ao longo de uma semana, aqueles moradores que não puderam se vacinar por não terem em mãos os dois documentos exigidos para a vacinação, o comprovante de residência e o título de eleitor, tiveram a oportunidade de regularizar a situação e receber o imunizante. Isso expandiu para 75 mil o total de doses aplicadas ao fim do período. 

Uma grande preocupação dos pesquisadores era evitar que moradores das cidades vizinhas se vacinassem burlando os critérios exigidos. “Se a gente tivesse uma invasão de outras cidades, a efetividade da vacina não seria comprovada. Poderíamos pensar que vacinamos 80 mil moradores e o número real ser bem menor. Mas conseguimos fazer um bom controle”, diz Fortaleza. 

Mesmo assim, alguns episódios curiosos ocorreram. “Ficamos sabendo de um ou outro caso de invasão. Em um deles, uma pessoa que estava em uma fazenda no Acre veio de jatinho para Botucatu. Ela possuía os documentos para comprovar residência aqui, se vacinou e foi embora. Tamanho era o entusiasmo com a vacina”, conta. 

A segunda dose foi aplicada em 08 de agosto de 2021 e a operação repetiu a mesma organização. Nesse dia, foram imunizados 61.741 botucatuenses. O número era um pouco inferior àquele registrado quando da inoculação da primeira dose. Mas ainda era expressivo e dentro das metas estabelecidas para o estudo. 

A metodologia previa um acompanhamento dos vacinados durante os seis meses seguintes. Durante aquela etapa, seria observada a efetividade da vacina, assim como possíveis efeitos colaterais eventualmente ainda não relatados nas etapas anteriores de análise do imunizante. Para isso, Fortaleza teve a ideia de pesquisar, a partir de todas as portas de entrada do hospital da Faculdade de Medicina, os códigos de doenças registrados seis semanas antes e seis semanas depois da aplicação de cada dose da vacina. 

Para os coordenadores da iniciativa, o engajamento da população de Botucatu foi fundamental para o sucesso do estudo. (Crédito: Wellington Alves)

“O resultado foi muito interessante. Constatamos que houve um aumento da ida aos prontos-socorros, por exemplo. Mas elas aconteciam por razões inusitadas, como traumas, cortes em membros inferiores, gestantes com náuseas. Ou seja, as pessoas que antes não estavam saindo de casa por medo de pegar Covid, passaram a buscar esse atendimento. Mas de efeitos colaterais neurológicos ou trombóticos, que eram uma preocupação na época, não houve registro”, pontua Fortaleza.

Durante os meses de estudos que se seguiram, registros de pessoas vacinadas foram comparados aos de pessoas não vacinadas. E dados de cidades próximas que não tinham recebido o imunizante dessa forma também foram utilizados, como a vizinha São Manuel. Para Fortaleza, mais uma vez, os resultados foram surpreendentes. “Tivemos uma efetividade contra a Covid-19 de 74%. E contra a doença em sua forma grave, de 100%. Não houve nenhuma morte e nenhuma internação entre os vacinados. Já no grupo de pessoas da mesma faixa etária de Botucatu que não foram vacinadas por não terem buscado a vacina, e nos moradores de São Manuel, houve várias internações e várias mortes”, diz.

Até a produção da Oxford/AztraZeneca ser interrompida, em 2024, mais de 153 milhões de doses foram aplicadas no Brasil. Fortaleza explica que a interrupção não teve relação com a efetividade ou a segurança do imunizante. “Apesar de muita informação desencontrada ter circulado naquele período, o motivo para a retirada da Oxford/Aztrazeneca do mercado não teve relação com algum perigo ligado a efeitos colaterais. Começaram a surgir novas variantes, para as quais não foi possível atualizar a vacina. E ninguém queria mais comprá-la porque estava obsoleta. Então, por uma questão mercadológica, ela foi retirada”, conta.

O legado para a Universidade

Grotto e Fortaleza ressaltam que o câmpus em Botucatu não atuou sozinho no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Todas as 34 unidades universitárias distribuídas em 24 cidades paulistas tiveram ações de destaque em suas regiões e fortaleceram a ciência desenvolvida na Unesp. E destacam a maturidade científica que a comunidade universitária alcançou a partir do enfrentamento da pandemia. 

“O enfrentamento exigiu que fôssemos além do procedimento usual de pensar e criar um projeto, submeter a uma agência de fomento, conseguir o recurso e organizar a execução”, diz Fortaleza. “ As circunstâncias nos permitiram fazer o que chamamos de ciência emergencial, ou seja, em condições difíceis, agir rapidamente para fazer um projeto de pesquisa claro e com um retorno imediato para a comunidade”, diz.

Ele aponta como um importante aprendizado dessa experiência o fato de que a atuação da universidade no campo das políticas públicas, especialmente em situações emergenciais, é um dever. 

“A Unesp cresceu muito nesse período e foi a universidade que, de fato, cuidou da pandemia no interior paulista. Por isso, penso que essa experiência se aplica em outras políticas de importância social. Então, devemos cada vez mais trabalhar em conjunto com as autoridades governamentais”, diz o diretor da FMB.

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Além da vacinação em massa, o estudo de efetividade da vacina Oxford/AztraZeneca previa o acompanhamento dos vacinados por um período de 6 meses. Os detalhes dessa etapa, coordenada pela professora Rejane Grotto, da Faculdade Ciências Agronômicas de Botucatu, serão apresentados na segunda parte desta reportagem, que será publicada na terça-feira (01/09).