O mercado editorial brasileiro vive um período de contradição. De um lado, a análise da Câmara Brasileira do Livro indica que, entre 2023 e 2025, houve uma expansão de 13% no setor, acompanhada pela criação de editoras e livrarias. Em contrapartida, a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta uma perda de 7 milhões de leitores no país.
O ambiente digital também contribui para esse cenário. Mais de 70% da população brasileira está presente nas redes sociais e passam, em média, nove horas por dia conectados à internet. Ao mesmo tempo, cresce a presença de influenciadores digitais especializados no meio literário, que exercem um espaço importante para a divulgação e a discussão de livros.
Além disso, cresce a demanda por maior representatividade no mercado literário, que pode ser expressa tanto pela publicação de livros escritos por mulheres e pessoas não brancas quanto pela presença desses grupos em cargos de liderança dentro das instituições.
Para compreender a complexidade do setor literário, o Jornal da Unesp entrevistou Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance Literário, pelo livro O avesso da pele. O escritor esteve presente na quarta edição do “Afeto Leitura – Encontros para Ler com a Unesp”, evento organizado pela Coordenadoria de Ação Cultural da Universidade. Durante o evento, além de proferir uma palestra ele também participou da premiação dos vencedores da segunda edição do Concurso de Contos da Unesp.
No evento, Jeferson Tenório entregou o troféu – elaborado pelo artista plástico e docente do Instituto de Artes da Unesp, José Paiani Spaniol – aos premiados: Rafael Guerra de Oliveira, egresso da Universidade; Milton César da Costa, doutorando; e Sinésio Ferraz Bueno, docente. Em seguida, o autor participou de um bate-papo com a plateia, que foi mediada pela professora do Departamento de Sociologia e Antropologia da FFC, Gleicy Mailly da Silva.
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Estamos em um mundo extremamente conectado às redes sociais e à internet, onde muitos elementos do cotidiano acabam se ressignificando. Nesse contexto, qual pode ser o papel da literatura?
Jeferson Tenório: Acho que a literatura tem algumas funções, ou papéis, se pudermos colocar desse modo. Ela possui uma certa função social, mas acredito que o principal seja educar os nossos sentidos para que a gente consiga entrar em um livro e fabular junto com ele. Educar os sentidos significa conseguir algo básico: ser capaz de ficar quieto diante de um objeto inanimado.
A literatura tem o poder de mobilizar as pessoas, embora seja uma luta constante. Não é algo fácil. Ainda mais em um país onde não temos tantos leitores. E os jovens muitas vezes vêm de um ambiente familiar que não oferece muito acesso aos livros. Geralmente, na casa da maioria das pessoas, o livro é um objeto exótico, algo que fica rolando pela casa; não temos a cultura de ter uma biblioteca em casa.
Quando esse sujeito chega à escola e passa a ter acesso aos livros, exigir uma postura imediata de leitor pode ser um pouco cruel. A maioria das crianças não tem um ambiente propício para se tornar leitora; ela acaba se tornando leitora quase sem querer. E o mundo digital acaba acolhendo essas pessoas justamente pela facilidade de acesso.
Contudo, há também o fenômeno recente da popularização de perfis na internet que falam sobre livros. Isso faz com que algumas pessoas achem que não precisam ler, pois sempre há alguém na internet explicando as obras. Muitos estudantes fazem isso sem perceberem que é antiético; simplesmente seguem a lógica de que não precisam ler se há alguém explicando. Mas a leitura é uma experiência única. Se você abre mão dessa experiência, perde justamente o essencial, que é a relação direta com o livro. Portanto, o principal papel da literatura no ambiente digital é este: educar os nossos sentidos para que possamos parar quietos diante de um objeto inanimado.
Entre 2023 e 2025, vimos um aumento de 13% no setor editorial, com o nascimento de novas editoras e livrarias. Isso ocorre após um período de crise no mercado do livro. Como o senhor enxerga esse movimento?
Jeferson Tenório: Na última pesquisa “Retratos da Leitura”, que creio ser de 2024, houve o registro de uma perda significativa de leitores no Brasil — se não me engano, cerca de 7 milhões a menos. Trata-se de um dado bastante contraditório em relação ao aumento de editoras e livrarias. Ao mesmo tempo, vemos bienais sempre lotadas, muitos festivais literários, diversos clubes de leitura e muita gente lendo.
Isso indica que a pesquisa “Retratos da Leitura” talvez não dê conta de toda a complexidade do cenário. Talvez precisemos prestar mais atenção em como as pessoas estão lendo e no que estão lendo.
O crescimento de editoras e livrarias parece refletir um momento relativamente bom de valorização, principalmente da literatura brasileira, algo que não víamos há muitos anos. Hoje, vemos livros nacionais na lista dos mais vendidos e sendo celebrados. Isso demonstra a força do livro físico. Quantas vezes já não decretaram a morte do livro físico? E, no entanto, ele tem ganhado uma força enorme.
Ainda assim, vejo isso como uma aposta tímida. Em Porto Alegre, onde morei por muitos anos, muitas livrarias fecharam para dar lugar a farmácias. Isso diz muito sobre uma sociedade que sente mais necessidade de se medicar do que de ler livros. Devemos celebrar esse aumento recente, mas com a consciência de que é tímido e de que ainda precisamos de mais incentivos fiscais para que editoras e livrarias consigam se manter. De qualquer forma, é um respiro bem-vindo.
O senhor pertence a uma geração de escritores que vem alcançando bastante sucesso nos últimos anos. Quando o senhor escreve, busca inspiração em autores que vieram antes? De que forma essa influência aparece?
Jeferson Tenório: Cada livro pede o seu próprio jeito de ser escrito e pensado. Mas o traço comum em todos os meus livros, desde como comecei a escrever, é que todos eles passaram por um longo trabalho interno de maturação dos personagens antes de irem para o papel.
Meu primeiro romance, Beijo na Parede, levou seis anos para ser escrito. Na época, eu era professor, tinha muitas turmas e não dispunha de tanto tempo dedicado à escrita. O segundo livro, Estela sem Deus, e o mais recente, De onde eles vêm, passaram pelo mesmo processo de demandar muito tempo de trabalho interno com os personagens para entender quem eram.
Nunca parto de um tema específico prévio. Não decido que vou escrever sobre “violência policial” ou “racismo”. O que procuro primeiro é descobrir quem é o personagem: como ele é, como se relaciona com o mundo e consigo mesmo. Meus personagens são pessoas negras. Essa é uma escolha política, mas também representa um modo de estar no mundo e a minha própria visão de mundo. A partir do movimento desses personagens no universo que crio, os temas vão se inserindo naturalmente na escrita.
No livro que está sendo debatido neste evento, o tema das cotas raciais aparece com frequência. Isso surgiu, então, a partir do desenvolvimento do personagem e de quem ele é?
Jeferson Tenório: Exatamente. O romance De onde eles vêm trata, fundamentalmente, da formação intelectual de um rapaz negro. As cotas raciais servem mais como um pano de fundo para situá-lo em uma marcação histórica e em um contexto específico, mas o livro não discute as cotas em si. O foco é a permanência desse aluno na universidade e as dificuldades que ele enfrenta para se manter lá: as barreiras familiares, a necessidade de cuidar da avó, a distância geográfica, a falta de dinheiro para a passagem, a dificuldade em fazer a matrícula no primeiro dia e o olhar de desconfiança por parte de colegas e professores.
Tudo isso faz com que a chegada e a permanência desse aluno na universidade se transformem em sua grande odisseia. Não é por acaso que surgem alusões a Homero e James Joyce no texto. Essa referência à odisseia aparece justamente para ilustrar a trajetória errante e esburacada do Joaquim [protagonista do livro].
Retomando o ponto sobre a sua geração de escritores — que inclui nomes como Itamar Vieira Júnior e Ana Maria Gonçalves, que despontaram nas últimas décadas —, o que esse grupo de autores está trazendo de novo para a literatura brasileira, seja em formato ou em temática?
Jeferson Tenório: Acredito que esses escritores têm trazido uma literatura que nos obriga a pensar sobre as nossas origens. Uma literatura de um país que não reflete sobre suas origens é falha, pois não consegue conceber ou propor uma identidade nacional.
Historicamente, muitos escritores tentaram fazer esse mapeamento. No Romantismo, José de Alencar buscou mapear a cultura brasileira com obras como Iracema, O Gaúcho e O Tronco do Ipê, mas ele partiu daquele período específico sem olhar para trás. Ele não olhou para a escravidão, para a aniquilação dos povos originários ou para o roubo de riquezas.
Depois, os modernistas também tentaram olhar para um Brasil pouco visto, mas ainda sob uma perspectiva exótica — o olhar sobre o caipira, por exemplo. Apesar da boa vontade, os modernistas deixaram muita coisa de fora; enquanto discursavam no Teatro Municipal, ignoraram manifestações fundamentais como o samba e o carnaval.
Foi apenas com a geração de 1930 — com Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego — que a literatura começou a retratar um Brasil genuinamente brasileiro. Contudo, ainda era um retrato cultural de um determinado momento, e não uma investigação profunda das nossas origens. Mais tarde, Guimarães Rosa deu um passo muito importante em direção a isso com Grande Sertão: Veredas, mas ainda sem abordar diretamente a nossa formação inicial.
O livro fundador nesse sentido é Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Ali temos uma obra pioneira que olha diretamente para trás, para a travessia de corpos sequestrados e para como as pessoas negras se desenvolveram e sobreviveram em um ambiente extremamente hostil.
O que a minha literatura e a do Itamar Vieira Júnior fazem é mostrar as consequências e os desdobramentos atuais de tudo o que está posto na obra de Ana Maria Gonçalves. Buscamos olhar de maneira honesta, embora dolorida, para as feridas abertas do país. O Brasil possui duas grandes feridas históricas que ainda não conseguiu resolver: a escravidão e a ditadura. É exatamente sobre isso que tentamos refletir.
Imagem acima: o escritor Jefferson Tenório durante palestra no câmpus da Unesp em Marília (Crédito: Nathan Sampaio)
