A Odisseia, poema atribuído a Homero, acompanha a trajetória de Odisseu durante o retorno para sua terra natal após a Guerra de Tróia. Ao lado da Ilíada, a obra está entre os textos fundadores da literatura ocidental e permanece sendo revisitada em diferentes períodos e linguagens. Em 2026, a história ganhou uma nova adaptação cinematográfica dirigida por Christopher Nolan, que levou para as telas personagens e episódios conhecidos da tradição grega. A nova edição do Prato do Dia parte da obra de Nolan para discutir a permanência de Homero, sua relação com a história e as diferentes formas pelas quais esses textos chegaram até o presente.
Para falar sobre a literatura grega antiga e a permanência dos poemas homéricos, o podcast recebe Emerson Cerdas, professor assistente de Língua e Literatura Grega Antiga na Unesp, no câmpus em Araraquara, onde atua no Departamento de Linguística, Literatura e Letras Clássicas. Graduado e mestre em Letras pela própria Universidade, Cerdas é doutor em Estudos Literários e realizou pós-doutorado na USP, com pesquisa dedicada à tradução das Helênicas, de Xenofonte. Sua produção acadêmica concentra-se na literatura e na historiografia da Antiguidade, com destaque para a teoria e a crítica da narrativa. Entre seus livros estão A Ciropedia de Xenofonte: um romance de formação na Antiguidade e A história segundo Xenofonte: historiografia e usos do passado.
A permanência da Odisseia e da Ilíada ao longo de mais de dois milênios está relacionada, segundo o docente, à capacidade dessas narrativas de continuar produzindo identificação mesmo depois de tantas transformações culturais. As personagens pertencem a um repertório que ultrapassou o período em que os poemas foram compostos, e passou a ser retomado por diferentes gerações.
“Eu penso que, muitas vezes, o primeiro contato com o fantástico é o que nos atrai nessas histórias”, diz Cerdas. “Mas, quando conseguimos perceber o humano que está por trás de um Polifemo, de uma Circe ou de uma sereia, somos tocados por aquilo que essas figuras representam. É isso que faz com que essas obras nunca morram. Porque o ser humano, com suas preocupações eternas, consegue se identificar de algum modo com esses personagens. Então, acho que essas histórias, por trás dessa roupagem fantástica e sonhadora, falam de uma coisa muito mais simples: o coração humano”, comenta.
A relação entre os poemas homéricos e a história, porém, exige cautela. A Guerra de Tróia, que serve de contexto para a Ilíada e está presente na trajetória de Odisseu, é associada a acontecimentos que podem ter algum fundo histórico, mas a narrativa de Homero não deve ser tomada como um registro documental.
Emerson Cerdas explica que, ainda durante a Antiguidade, autores como Heródoto e Tucídides estabeleceram uma relação crítica com o relato épico. “Há um fundo histórico que nos permite compreender a sociedade antiga, como as noções de divisão da sociedade grega. A guerra, por exemplo, também pode ser analisada a partir de questões econômicas. Então, podemos olhar para essas narrativas como fontes históricas, mas sem tomar todos os seus elementos literalmente como fatos históricos”, explica o professor.
Essa relação entre memória, narrativa e história está ligada à própria origem dos poemas. Antes de serem registrados por escrito, os relatos que compõem a tradição homérica circularam oralmente durante séculos. Os aedos, poetas e cantores responsáveis por transmitir essas histórias, apresentavam os poemas em diferentes contextos e utilizavam técnicas de composição baseadas na memória, na repetição e na improvisação.
“Essa tradição oral é construída por meio de técnicas de composição que exigem muito da memória”, explica ele. “Esses aedos viajavam de cidade em cidade ou faziam apresentações, geralmente a partir de um tema que envolvia essas histórias. Eles cantavam e recitavam os poemas, mas também improvisavam naquele momento”, diz o docente. Para isso, recorriam a técnicas orais, como os epítetos, expressões fixas usadas para destacar os atributos de heróis e deuses. O surgimento da escrita grega, por volta do período associado à consolidação dos poemas homéricos, alterou esse processo de transmissão, marcando a passagem de uma tradição baseada na oralidade para uma nova forma de preservação dos textos.
A passagem para a escrita também ajuda a explicar a dificuldade de determinar quem exatamente foi Homero, e de que forma os poemas chegaram à forma que conhecemos hoje. A chamada “questão homérica” envolve justamente as dúvidas sobre a composição, transmissão e autoria da Ilíada e da Odisseia. Em uma tradição construída oralmente, os poemas não funcionavam da mesma maneira que uma obra literária moderna, vinculada a um autor individual. Ao longo do tempo, personagens e narrativas continuaram sendo retomados e transformados. É o que permite estabelecer paralelos, por exemplo, com outras tradições culturais em que personagens e universos narrativos são continuamente recriados.
Se a transmissão oral teve papel fundamental na formação dos poemas, a tradução se tornou outro elemento decisivo para que eles continuassem acessíveis a leitores de diferentes épocas e idiomas. Para Emerson Cerdas, não existe uma tradução que possa ser considerada simplesmente “boa” ou “ruim” sem levar em conta seu objetivo e o público a que se destina. “O tradutor é um mediador de duas culturas”, afirma. A escolha das palavras, do ritmo e da estrutura pode aproximar ou afastar o leitor de uma obra produzida em uma sociedade tão distante da atual.
A distância entre esse universo literário e os leitores contemporâneos também aparece quando se trata do contato dos jovens com a literatura. Para o professor Emerson Cerdas, estudantes que chegam à universidade podem encontrar dificuldades diante de textos antigos, tanto pela complexidade da linguagem quanto pelas diferenças culturais. Nesse cenário, uma tradução mais acessível pode funcionar como porta de entrada para a obra, sem necessariamente reduzir sua importância literária. “Às vezes, um texto um pouco mais limpo facilita na compreensão. O aluno pode ter mais prazer na leitura, em vez de encontrar muitos entraves”, afirma.
Ouça a entrevista completa com Emerson Cerdas para o podcast Prato do Dia.
