Karatê: uma luta para florescer

Pesquisa mostra que enquanto no Ocidente a arte marcial associou-se a valores de competição e militarização, em Okinawa, seu local de origem, os praticantes experimentam desenvolvimento pessoal e conexão com a vida cotidiana.

Se você assistiu a algum filme ou seriado do universo Karatê Kid, já sabe que karatê e Okinawa são termos profundamente conectados. O arquipélago de ilhas localizado no extremo Sul do Japão fica, na verdade, bem mais próximo da China do que de Tóquio. No passado, aliás, ali funcionava um Estado autônomo, o Reino de Ryukyu, que mantinha estreitas relações comerciais com a China. Apenas em 1879 as ilhas passaram formalmente a fazer parte do Japão.

Foi em Okinawa que a mistura entre as práticas corporais combativas utilizadas por nativos e as técnicas introduzidas por militares chineses, entre os séculos 13 e 17, deu origem à arte marcial que, segundo estimativa da Federação Mundial de Karatê, leva cerca de 100 milhões de praticantes em 188 países a vestirem faixas e quimonos. No Brasil, são mais de um milhão de adeptos, segundo dados da Confederação Brasileira de Karatê. Devido ao número tão elevado de praticantes, durante décadas houve uma articulação para que o karatê fosse reconhecido como modalidade olímpica. Isso só ocorreu, porém, por ocasião da Olimpíada do Japão em 2020, quando foram conferidas medalhas a 32 karatekas de 8 categorias.

Mas toda uma linha de estudiosos discute se essa perspectiva do karatê como uma atividade competitiva e focada era o que guiava os praticantes mais antigos da luta quando praticavam seus chutes e socos na Okinawa medieval. Entre os que pensam que a arte marcial perdeu seu caráter original à medida que se mundializou está o pesquisador e professor de educação física Fabio Pucineli.

Pucineli dedicou suas pesquisas de mestrado e de doutorado, cursadas no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Humano e Tecnologias do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, a investigar as estruturas e caminhos do karatê. E, como parte da sua tese de doutorado, sob orientação do professor Carlos José Martins, ele passou uma temporada em Okinawa para investigar o modo como os nativos praticam e vivem as artes marciais até hoje. O estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Da Sessão da Tarde para o Dojo

Pucineli pratica karatê desde os nove anos de idade, conquistado justamente pelo primeiro Karatê Kid a que assistiu na TV. No filme de 1984, que se tornou um clássico do gênero das artes marciais nas telas, o protagonista, interpretado por Ralph Macchio, aprende técnicas da arte marcial para se proteger do bullying sofrido na escola.

Ainda criança, o pesquisador questionou seu primeiro sensei, ou professor, sobre a origem do karatê. Ouviu em resposta que o surgimento se deu para possibilitar “que o mais fraco vencesse o mais forte”. Com esta resposta, o mestre ressaltava a possibilidade de um aprendizado de meios de defesa que se baseavam sobretudo no emprego de técnicas corretas e prescindiam da aplicação de força bruta ou do uso de armas. Daí o nome karatê, que significa, em japonês, “mãos vazias”, indicando que a pessoa que o pratica está desarmada.

A explicação fez sentido por um tempo. Logo outras indagações surgiram. Se no karatê o mais forte não vencia necessariamente, por que as aulas da prática eram acompanhadas de treinos físicos tão intensos? Em que momento a modalidade foi atravessada pelos polichinelos, abdominais e corridas pelo tatame?

“Eu deixei essas questões latentes e fui cursar a graduação. Escolhi educação física justamente por causa do karatê, e isso ficou comigo”, conta Pucineli. “Até que, durante a faculdade, estudei o Movimento Ginástico Europeu.”

O karatê no Ocidente

Esse é o nome dado à explosão da prática de modalidades de ginástica e educação física que ocorreu na Europa nos séculos 18 e 19. Sob a pretensão de se apresentarem como de base “científica”, estas modalidades capturavam a gestualidade espontânea típica dos artistas de rua para recodificá-la. O objetivo final era produzir corpos que se mostrassem produtivos para desempenhar atividades ligadas à manutenção do capital econômico.

“Esses métodos ginásticos foram artefatos de controle. Tinham elementos militaristas e propósitos que se aproximavam até mesmo da eugenia”, relata Pucineli. “Esse movimento decorreu da Revolução Industrial, que exigia que os trabalhadores se confinassem em certos espaços para poderem desempenhar um trabalho que envolvia gestos repetitivos. Porém, uma vez que, até então, não existia uma relação de trabalho nesses moldes, era preciso que o corpo dos trabalhadores fosse disciplinado e docilizado”, diz.

Essas correntes foram se disseminando pelas nações e chegaram ao Japão durante o período da Restauração Meiji, que se iniciou em 1868. Naquele período, foi extinto o cargo de xogum, chefe militar supremo, que atuava como líder de um regime militar que dominava o país. Em seu lugar, foram adotados modelos de instituições ocidentais, baseados em valores de sociedades europeias e dos Estados Unidos. Tais valores foram incorporados à própria cultura japonesa e passaram a permear diversas de suas expressões, incluindo a prática do karatê. Essa versão atualizada e ocidentalizada da modalidade posteriormente foi exportada para o restante do mundo. Mas não em Okinawa, onde o tempo parece ter congelado.

Junto a turistas de diferentes países, Pucineli esteve na ilha pela primeira vez em 2009, para acompanhar um seminário de karatê. E pôde constatar, diretamente, que o que se praticava nos dojos (as academias) da ilha apresentava diferenças substanciais em relação ao que havia aprendido no Brasil desde criança. Surgiu daí a ideia de transformar suas antigas questões em uma pesquisa acadêmica formal.

Pucineli ao lado de seu professor de karatê em Okinawa. Arquivo pessoal.

Para se qualificar para conduzir a pesquisa, ele se dedicou a estudar o idioma local e retornou ao país asiático em 2012, 2013, 2014, 2019 e 2023. A cada visita, dedicava tempo para conduzir observações em Okinawa sobre o karatê e registrava suas experiências em um diário de campo.

Os katas, a arte e a vida em Okinawa

Durante o mestrado, o pesquisador focou no aspecto da modernização do karatê e das tecnologias políticas do corpo, evoluindo. No doutorado, dedicou-se à investigação dos chamados katas. O kata é uma sequência de movimentos que une ataques e bloqueios. Deve ser executado pelo karateca de maneira individual, sem oponente. Há diversas séries que são estudadas conforme o atleta avança em sua graduação de faixa, e sua execução é constantemente aprimorada.

A escolha pelo estudo do kata inspirou-se na observação de que diferentes instâncias das artes japonesas incluem conjuntos de movimentações corporais sistematizadas, incluindo o Teatro Nō (a mais antiga forma de teatro profissional do mundo) e até a escrita tradicional, que estabelece uma lógica rigorosa de direção e da ordem de execução dos traços usados para esboçar os caracteres.

Pucineli tentou avaliar o karatê de Okinawa sob a lógica de áskesis, proposta por Michel Foucault, que representa o cuidado de si próprio. Nessa visão, o exercício deveria possibilitar que o praticante fizesse da própria vida uma obra de arte. Esta possibilidade estava associada ao karatê de Okinawa, no qual se dá menos ênfase aos aspectos do rigor e da disciplina, em prol de valores como movimentação e busca pelo ajustamento.

“Concluí no doutorado que não se pode falar que o karatê de Okinawa seja uma prática de áskesis. A áskesis demanda um esforço para tornar a vida uma obra de arte. Só que em Okinawa, a vida já é arte”, reflete o pesquisador. Neste sentido, analisa que a luta já é algo intrínseco àquele que a pratica na região, e não algo separado do cotidiano.

Pucineli buscou então referências no Livro do Chá, uma obra de 1906 de autoria do intelectual japonês Okakura Kakuzō, que descreve a arte e a vida como constante ajustamento.

Até o graduados estão aprendendo

“Essa ideia começou a fazer muito sentido quando eu ia para Okinawa e via o pessoal já muito graduado sendo corrigido ao fazer o kata. O sensei mexia no corpo da pessoa, ajustava. Num pensamento linear, dentro da lógica ocidental, uma pessoa com essa graduação já devia fazer um kata perfeito. Só que não funciona assim: a vida é um constante ajustamento, e o próprio ajustamento é a arte”, diz.

Em uma aula de karatê no Brasil, é possível que o atleta chegue ao dojo e seja submetido, inicialmente, a uma série de exercícios de fortalecimento e alongamento. Em Okinawa, o sensei deve pular diretamente para o treino de kata. E adotar, entre cada série, longas pausas, de modo que os intervalos permitam que o próprio aluno compreenda e inicie seus ajustamentos. A falta de mobilidade, por sua vez, pode ser corrigida com instruções simples voltadas para o dia a dia fora da academia, como sentar com as pernas cruzadas – um hábito comum na Ásia e estranho ao Ocidente.

Placa com escrita tradicional japonesa em academia onde o pesquisador treinou em Okinawa. O texto diz: “sem exagero, juntos crescer, juntos florescer”.

As atividades esportivas, explica Pucineli, seguem uma lógica disjuntiva, em que as pessoas começam em um patamar semelhante, dentro de uma suposta igualdade de condições. Depois, conforme a evolução, ocorre uma separação no aspecto da expertise, e as práticas competitivas indicam os melhores ao coroarem os vencedores. Porém, em Okinawa, ainda que os karatecas possam participar de competições, eles não têm a vitória como objetivo principal. E cita como parâmetro do espaço de treinamento que frequentou em Okinawa uma placa que enfeita uma de suas paredes. Escrita pela esposa do sensei em caligrafia tradicional, a placa traz os seguintes dizeres em japonês: “sem exagero, juntos crescer, juntos florescer”.

Ele narra um exemplo prático de aplicação desta filosofia. Em certa ocasião, o professor de educação física participava de uma aula em que devia golpear um instrumento de treino chamado makiwara, que consiste em uma tábua de madeira acolchoada utilizada para treinar socos. Durante o treino, o sensei percebeu que Pucineli estava sentindo dor ao bater na ferramenta e mandou que parasse.

“Existem dojôs que usam o makiwara para deixar a mão calejada, mas ele não serve para isso. O makiwara é para ajustar o movimento do soco, pois existe todo um encadeamento corporal para chegar naquele golpe final”, explica. “A dor é um exagero, não pode acontecer. Machucar a mão é um exagero. As coisas precisam ser dosadas”, diz Pucineli.

Imagem acima: Fabio Pucineli executando kata nas ruas de Okinawa, no Japão. Créditos: Arquivo pessoal