Universo Profissional recebe egressa que divide carreira entre agronomia e literatura

Em entrevista ao podcast, Clara Barros Bueno conta como concilia trabalhos de consultora e de influenciadora, fala do lançamento do primeiro livro de ficção e defende vantagens de trabalhar em diferentes áreas ao mesmo tempo.

Graduada em engenharia agronômica e mestre em agronomia pelo câmpus da Unesp em Jaboticabal, Clara Barros Bueno vem construindo uma trajetória profissional combinando duas áreas bem distintas: a agronomia e a literatura. Suas horas de trabalho dividem-se entre os serviços como consultora na área de agronomia e a produção como autora e influenciadora literária. Uma configuração profissional que, ela reconhece, não foi planejada.

Clara relata que o interesse pela leitura a acompanhou ao longo da vida. Nos últimos anos da faculdade, quando cursava o estágio em agronomia, era nos livros que ela mergulhava durante as viagens de ônibus para relaxar. Foi nesse período que começou a produzir conteúdo sobre livros nas redes sociais, sem qualquer perspectiva de profissionalização. “Era uma forma de hobby. Ajudava-me a desligar dos temas do trabalho e a me conectar a outros assuntos”, conta. O crescimento gradual de sua produção estimulou-a a desenvolver uma abordagem mais profissional nos últimos dois anos. “Não foi uma transição programada, não pensei em começar uma nova carreira. Aconteceu sem querer, foi algo muito natural”, diz.

Primeiro livro saiu em abril

Mais recentemente, Clara abriu uma nova frente ao lançar, no mês de abril, seu primeiro livro, intitulado Se a Casa Suspirasse. Assim como a atuação como influenciadora literária, a escrita teve início como uma atividade apenas de cunho pessoal. Apenas quando avaliou que seus textos haviam alcançado qualidade suficiente para justificar a busca por uma editora, sua postura mudou.

“Sempre escrevi, mas não tinha muita certeza quanto ao que escrevia. Não achava que fosse bom o suficiente para ser publicado. Essa foi a primeira história que senti que era boa”, relata. Essa mudança trouxe a experiência de ver um texto seu sendo lido por desconhecidos, algo que ela diz estar aprendendo a lidar. “Ainda é algo muito recente. Não consigo ter noção do que realmente é”, relata.

Clara Barros Bueno

A carreira de consultora em agronomia permanece como sua principal atividade. A flexibilidade proporcionada pelo trabalho autônomo viabiliza a coexistência das duas carreiras. E, na prática, sua carreira como influenciadora é permeada por suas vivências pessoais: são as leituras a que se dedica no tempo livre que servem de base para os conteúdos que produz. “De alguma forma, meu momento de prazer também se torna conteúdo depois”, diz.

Uma figura diferente no meio literário

Clara diz que esse arranjo gera certa estranheza no meio literário. Ela se percebe como uma presença incomum em um ambiente habitado principalmente por pessoas das áreas de letras, comunicação, publicidade, jornalismo e direito. “É muito raro encontrar um agrônomo nesse meio”, reconhece. Seu interesse por universos distintos, porém, decorreu de forma espontânea. Ela conta que chegou a pensar em estudar cinema antes de optar pela agronomia, por conta de seu gosto pela fotografia. O fato de ter dúvidas, porém, não implicava obstáculos para tomar uma decisão. “Não significa que alguém, só porque escolheu uma profissão, precise abandonar os seus outros gostos.”

O trabalho nas redes foi ganhando contornos mais sérios à medida que Clara percebeu com mais clareza o alcance do que fazia. A constatação de que suas opiniões podiam moldar a relação de outras pessoas com obras literárias mostrou que seu trabalho com a literatura não era irrelevante. “De repente, não era só eu falando de um livro: eu estava influenciando uma pessoa a comprar um livro”, conta. E a decisão de buscar uma editora e apresentar-se como autora representou um segundo momento de virada.

Em 2024, Clara foi convidada pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Cultura para participar de um evento em Brasília em comemoração ao Dia Internacional do Livro. Ela e outros influenciadores literários tiveram a oportunidade de conversar com o Ministro da Educação e conhecer o presidente Lula. O convite decorreu dos vídeos que cada um havia gravado, por iniciativa própria, abordando o MEC Livros, a biblioteca digital lançada pelo governo.

“Fizemos esses vídeos por iniciativa própria, cada um na sua casa. Nem nos conhecíamos. Resolvemos falar sobre a biblioteca e sobre como esse projeto poderia beneficiar várias pessoas que muitas vezes não têm uma biblioteca na sua cidade, ou não têm condições de comprar livros”, explica. O Ministério constatou que os vídeos haviam ampliado o alcance da plataforma e reconheceu o trabalho dos influenciadores. “Mais do que o evento em si, o mais legal foi receber esse reconhecimento por um trabalho que a gente fez sem ninguém ter pedido”, destaca.

Curiosidade e capacidade de escuta são vantagens profissionais

Ao enumerar as habilidades e atitudes que considera essenciais para o mercado de trabalho atual, Clara enfatiza a importância da escuta. Ela relata uma experiência profissional que viveu em uma usina de cana-de-açúcar. À sua falta de conhecimento prévio daquele ambiente somava-se o fato de ser a mais jovem profissional naquele contexto. “O modo como eu podia me adaptar àquele ambiente era fazer perguntas e estar aberta a receber conselhos, informações. Aprendi muito sendo realmente curiosa, perguntando, admitindo que não sabia. E escutando o máximo que pude, para poder absorver o que eles tinham a ensinar”, relata. Sua timidez característica foi cedendo espaço a uma postura mais ativa no trabalho. E a curiosidade, que diz ser um traço pessoal desde a infância, serve como fio condutor tanto nas suas opções de leitura quanto para desenvolver suas relações profissionais.

Clara vê o mercado da agronomia como um setor ainda conservador, em que a expectativa de dedicação exclusiva ao trabalho deixa pouca margem para outras expressões profissionais. “Sinto falta de espaço para a criatividade, para utilizar outras habilidades que não são apenas voltadas para a agronomia, para o agronegócio”, observa. Mas diz que sua geração, e as gerações mais novas, estão ensaiando uma importante mudança de perspectiva em suas relações com o trabalho. “Acho que mudou muito essa visão quanto ao trabalho. As pessoas não querem mais viver para trabalhar, mas sim trabalhar para poder viver”, diz.

E lembra que é cada vez mais comum que hobbies se tornem carreiras. Não a partir de uma busca por monetização, mas pelo comprometimento genuíno que se forma com aquilo que se gosta de fazer. “Essa mudança não acontece porque alguém quer ganhar dinheiro com o seu hobby, mas porque quer fazer um trabalho que seja tão bem-feito que acaba tornando isso uma nova profissão”, analisa. E frisa que não é preciso escolher entre uma coisa e outra: “não é preciso ter medo de ser mais de uma coisa ao mesmo tempo”, diz.

Confira abaixo a entrevista completa no podcast Universo Profissional.