A manhã do terceiro dia do Fórum Unesp 50 Anos, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo, foi dedicada ao debate sobre “O papel do Estado para um crescimento econômico sólido”. Diferentemente dos dias anteriores, em que cada período contou com duas mesas voltadas a temas distintos, nesta sexta-feira o assunto ocupou toda a programação da manhã, dividido em dois painéis.
O encontro marca o encerramento do evento, um dos principais destaques das comemorações pelos 50 anos da Unesp. Com atividades distribuídas entre os dias 13 e 15 de maio, o Fórum reuniu pesquisadores, intelectuais e especialistas do Brasil e do exterior para discutir algumas das principais questões da contemporaneidade. Paralelamente, o Memorial da América Latina também recebe a oitava edição da Feira do Livro da Unesp.
A criatividade pode ser uma força motriz para o desenvolvimento econômico
Abrindo os debates sobre o papel do Estado na economia, participaram da primeira mesa a economista e historiadora estadunidense Deirdre McCloskey, da Universidade de Illinois, em Chicago, e o economista austríaco Gabriel Felbermayr, presidente do Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica desde 2021. A mediação ficou a cargo de Ivan Salomão, professor de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Defensora do liberalismo econômico, Deirdre iniciou sua exposição com a pergunta: “Que papel o governo tem na prosperidade e na liberdade dos brasileiros?”. A pesquisadora afirmou que o Brasil é frequentemente tratado como “o país do futuro” — uma promessa permanente de desenvolvimento e riqueza —, mas destacou que o país não precisa permanecer indefinidamente nesse lugar de potencialidade.
Como exemplos de transformação econômica, citou os casos da Irlanda e, especialmente, da China, países que enfrentaram períodos marcados por pobreza e crises econômicas, mas que conseguiram alcançar crescimento e estabilidade. Também mencionou Estados Unidos, Inglaterra e França como exemplos históricos de nações que, ao longo de uma ou duas gerações, acumularam riqueza substancial a partir do século XVIII.
Segundo Deirdre, a chave desse desenvolvimento está ligada ao surgimento do liberalismo econômico, que teria promovido a descentralização das decisões e garantido direitos como liberdade individual e propriedade privada. Para ela, essas condições abriram espaço para que as pessoas pudessem empreender, inovar e desenvolver novas atividades econômicas. “O liberalismo prometeu o fim dos mestres”, afirmou, em referência às estruturas coloniais e escravagistas em que indivíduos produziam sob o controle de outros.
Nessa perspectiva, a economista defende que o elemento central para o desenvolvimento econômico é a liberdade das pessoas para criar, empreender e estudar de acordo com seus próprios interesses. Em contrapartida, imposições institucionais ou pressões sociais tenderiam a limitar esse potencial criativo. A pesquisadora sustenta, assim, a defesa de um Estado mínimo, com baixa interferência na economia, que, segundo ela, tenderia a se organizar à medida que os indivíduos assumissem responsabilidades coletivas e individuais — processo que chamou de “adultização”. “Eu quero que pensemos o liberalismo como algo de adultos”, afirmou.
Também alinhado ao liberalismo econômico, Gabriel Felbermayr iniciou sua fala defendendo a retomada de ideias clássicas para enfrentar os desafios contemporâneos. Em sintonia com Deirdre, destacou a importância da descentralização das decisões econômicas entre empresas, consumidores e trabalhadores. “Mas, para isso, as pessoas precisam entrar em relações contratuais de maneira livre e voluntária”, pontuou.
O economista reconheceu, porém, que essa concepção se torna mais complexa diante das desigualdades sociais e das relações de trabalho marcadas pela necessidade de sobrevivência. Citou ainda exemplos de coerção econômica em escala internacional, como a imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos a outros países.
Embora concorde que a inovação seja um motor fundamental do desenvolvimento econômico, Gabriel argumentou que as pessoas só conseguem assumir os riscos envolvidos em processos inovadores quando dispõem de condições mínimas de segurança social. “Fazer esse tipo de movimento só é possível se a pessoa sabe que não irá morrer de fome”, afirmou.
Nesse sentido, defendeu que, apesar da importância da descentralização econômica, o Estado também precisa ser forte. “Precisamos de regras e instituições que se mantenham para além dos governos”, disse. Segundo ele, cabe ao Estado garantir investimentos em infraestrutura, como transporte, energia, distribuição de gás e conectividade, e implementar políticas de bem-estar social capazes de criar condições reais para que os indivíduos desenvolvam sua autonomia e capacidade criativa.
“Se a questão é a função do Estado para o crescimento econômico, precisamos de um Estado forte não por si só, mas para nos libertar da coerção e fornecer um ambiente de liberdade, no qual as transações, a inovação e a mobilidade econômica possam acontecer”, afirmou. Gabriel ressaltou, entretanto, que um “Estado forte” não significa necessariamente um Estado “grande” ou onipresente. Para ele, o papel central das instituições públicas deve ser garantir condições para o funcionamento do mercado e permitir que decisões descentralizadas ocorram de maneira eficiente e estável ao longo do tempo.
É preciso uma participação forte do Estado para garantir uma economia sólida
Após um breve intervalo, a segunda mesa deu continuidade às discussões iniciadas pela manhã. Participaram do debate o economista estadunidense Jan Kregel, professor da Universidade de Tecnologia de Tallinn, na Estônia; Gilberto Tadeu Lima, docente do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e cofundador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades; e Nelson Marconi, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e coordenador do Fórum de Economia do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo (CND). A mediação foi realizada por Marcelo Milan, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e colaborador da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Jan Kregel iniciou sua apresentação abordando o pós-keynesianismo, vertente teórica que sustenta que a economia capitalista é estruturalmente instável e não tende automaticamente ao equilíbrio ou ao pleno emprego. Nesse contexto, o Estado, os bancos centrais e as instituições financeiras desempenham papel central na estabilização econômica. Para ilustrar essa perspectiva, o economista apresentou um cenário simplificado sobre as chamadas “restrições externas” ao desenvolvimento: fronteiras nacionais, diferenças cambiais e a atuação de corporações multinacionais que distribuem lucros globalmente sem necessariamente reinvesti-los nos países de origem.
“A União Europeia resolveu parte dessas questões”, afirmou, citando a livre circulação de pessoas e mercadorias, a moeda comum e a regulamentação compartilhada sobre empresas. Em contrapartida, o pesquisador destacou que essa não é uma solução definitiva porque se tratou de um crescimento econômico que também produziu desigualdades sociais significativas. “Nesse contexto, o Estado tem que garantir segurança e fortalecer a propriedade doméstica”, defendeu.
Em contraposição à lógica da globalização irrestrita, Jan argumentou que os governos devem priorizar investimentos em capital local e manter controle sobre setores estratégicos da economia. Segundo ele, quando o desenvolvimento depende excessivamente do capital internacional, investidores externos passam a influenciar diretamente as políticas domésticas. “Isso significa que não é prioridade para eles construir cidades ou investir em benefícios para a população”, afirmou.
Na mesma linha de raciocínio, Gilberto Tadeu Lima iniciou sua fala defendendo que o papel do Estado é absolutamente decisivo para um crescimento econômico sólido. Segundo o pesquisador, esse crescimento deve ser robusto, duradouro, inclusivo e sustentável. Ele explica que o desenvolvimento econômico é um problema sistêmico e estrutural que enfrenta, entre outros desafios, a desigualdade e a pobreza. Por isso, políticas voltadas ao crescimento exigem intervenções em larga escala e planejamento macroeconômico. “Quando falamos disso, o Estado está mais habilitado para lidar com essas questões do que as iniciativas privadas”, afirmou.
O pesquisador reconheceu, porém, que o Estado nem sempre consegue exercer plenamente esse papel, sobretudo quando seus interesses se alinham de maneira excessiva aos do setor privado. Também ressaltou a importância de planejar o uso de recursos públicos de forma eficiente. “Falar em eficiência nas ações do Estado não deve ser um anátema, pois a falta de eficiência compromete a credibilidade do Estado e a confiança da sociedade nele”, disse. “Existem falhas de mercado e falhas de governo. Porém, não há mercado sem Estado.”
Na sequência, Nelson Marconi apresentou a China como exemplo de uma possível articulação bem-sucedida entre Estado e mercado. Segundo o economista, o país consolidou um modelo de desenvolvimento baseado em forte coordenação estatal combinada à atuação do setor privado.
“Na China não se questiona se o Estado vai ou não participar do desenvolvimento. Essa é uma resposta óbvia. A questão é como fazer esse desenvolvimento”, afirmou. Para Nelson, cabe ao Estado exercer um papel indutor, articulando setor público, empresas privadas e instituições de pesquisa. Assim como Gilberto, ele considera a política macroeconômica um elemento indispensável para sustentar investimentos, estabilidade e crescimento de longo prazo.
Ao comentar o cenário brasileiro, o pesquisador avaliou que o país carece de uma estratégia nacional de desenvolvimento, o que contribui para a polarização do mercado de trabalho. “A participação do Estado nisso é muito importante e ter uma estratégia nacional de desenvolvimento é essencial para nós crescermos, assim como a China fez”, afirmou. Nelson também defendeu a necessidade de o Estado atuar diretamente em determinadas áreas produtivas e investir em inovação, inclusive assumindo riscos em setores estratégicos. “Temos que usar estratégias de capital de risco, colocar dinheiro em setores que podem não dar retorno imediato, mas escolher cuidadosamente quais são essas áreas”, destacou.
Fórum Unesp 50 Anos
Hoje (15), é o último dia de atividades do Fórum Unesp 50 Anos. Durante a tarde, o debate político retornou ao auditório com a mesa “Contornos da crise geopolítica contemporânea: o caos é inevitável?”. Em seguida, o líder indígena e filósofo Ailton Krenak participa da mesa “Cultura, Arte e Guerras Culturais” ao lado dos escritores Ana Maria Machado, Antonio Carlos Secchin e Manuel da Costa Pinto.
Além do Fórum, o Memorial da América Latina também recebe a 8ª Feira do Livro da Unesp. O evento oferece descontos mínimos de 50% em títulos de diferentes editoras e segue até domingo (17).
Veja a íntegra das mesas apresentadas no dia.
Foto acima: Deirdre McCloskey. Crédito das imagens: Rafael Romero Lopes
