Política e cultura marcaram as últimas duas mesas do Fórum Unesp 50 Anos, no dia 15 de maio, realizado pela Universidade Estadual Paulista para marcar seu cinquentenário. O Fórum, que teve como local o Memorial da América Latina, iniciou-se no dia 13 e recebeu diversos pensadores, nacionais e internacionais.
O caos é inevitável?
No início da tarde, às 14 horas, a mesa “Contornos da crise geopolítica contemporânea: o caos é inevitável?” reuniu o historiador francês Serge Gruzinski, professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales e especialista em América Latina colonial; o economista Ladislau Dowbor, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ex-consultor técnico principal da ONU; e o professor da Unesp Héctor Saint-Pierre, especialista em segurança pública e coordenador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI). A mesa foi mediada por Cristina Pecequilo, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em Relações Internacionais e política externa brasileira. Pecequilo foi professora da Unesp de 2006 a 2010.

Serge Gruzinski abriu os debates lançando uma questão: Como interpretar a situação do mundo contemporâneo? O historiador propôs dedicar-se a duas mutações: política e tecnológica. A primeira mutação, iniciada nos séculos 15 e 16, começou com a expansão ibérica e veio até o século passado; a segunda, a mundialização que vivemos atualmente. Para Gruzinski, as duas mutações são indissociáveis das tecnologias de sua época: o colonialismo com o livro e a Imprensa de Gutenberg; a mundialização atual, por sua vez, depende da tecnologia digital.
Gruzinski destacou a mundialização como uma das consequências da crise política vivida pela Europa hoje, mas ampliou sua análise com a consequente mistura de culturas: “Hoje, a Europa é muito viva. Eu ressalto a criatividade que surge da mistura de distintas tradições europeias e da mestiçagem”. Um grande artista francês da atualidade, segundo Gruzinski, é Kader Attia, franco-argelino nascido em Paris e residente em Berlim. Gruzinski destaca sua obra “Halam Taxwaaf”, que une a tradição metafísica ao tratar dos problemas de drogas e alcoolismo presentes em jovens filhos de imigrantes. “Esses criadores, por meio do teatro, da música e do balé, criam conceitos para entender o mundo contemporâneo”, afirma. Para ele, “o problema não é falar do futuro, mas falar do presente. Temos que formar jovens”, finaliza Gruzinski, citando como exemplo o Simpósio Temático “História digital”, realizado este ano pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com o objetivo de mostrar a experiência de ensinar a interpretar o mundo digitalizado.
Apesar do bom humor com que recebe o público, o economista de origem polonesa Ladislau Dowbor não reduz o tom crítico de sua fala: “Estamos aqui para falar sobre as desgraças que acontecem no mundo. Seis milhões de crianças morrem de fome ou outras causas absurdas e viram estatística”.
Para Dowbor, “nosso problema não é econômico, mas de organização político-social. Nosso desafio é estrutural, de governança. Temos os 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU e a coisa não acontece”, afirma. “Vejo sempre a lista de bilionários do mundo, cuja maioria vive da especulação financeira”.
Crítico ao poderio mundial norte-americano, Dowbor vê uma grande esperança de rearticulação na política, por meio dos BRICS (aliança intergovernamental cuja sigla se refere a Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). “Hoje os EUA são uma ameaça planetária e estamos submetidos ao surrealismo norte-americano”, afirma. Por fim, o economista indicou conteúdos gratuitos sobre política e economia que disponibiliza em seu site (www.dowbor.org).
A guerra foi o tema da fala do professor Héctor Saint-Pierre. “Estou vendo uma crise de hegemonia internacional, com uma crise clara dos Estados Unidos”, disse. Ele destacou o conflito Rússia-Ucrânia, como a primeira negativa bélica da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
No conflito atual dos Estados Unidos com o Irã, Saint-Pierre destacou a utilização de drones iranianos, “um instrumento de guerra muito barato, mas muito eficiente”, afirmou. “Os drones são uma indústria autônoma do Irã”. “Nesse período de transição, os países da periferia têm muito a aprender com o que está acontecendo nessa guerra”, observa Saint-Pierre.
Guerras culturais
Às 17 horas, teve início a última mesa do Fórum Unesp 50 Anos, “Cultura, arte e guerras culturais”, com a participação de três imortais da Academia Brasileira de Letras: Ailton Krenak, filósofo, escritor e ativista indígena; Antônio Carlos Secchin, escritor, poeta e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); e Ana Maria Machado, escritora, autora de mais de 100 obras e vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen em 2000. O mediador foi o jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto.
Secchin apresentou um recorte específico sobre a figura do poeta Ferreira Gullar e exibiu um vídeo com Gullar recitando o famoso poema “Traduzir-se”. Em seguida, Secchin lançou algumas provocações: “Em que medida esse campo lírico é alienado? Ou quando ele é social e sufoca o sujeito? Qual o lugar do artista em uma sociedade fragmentada?”.

Para Secchin, a guerra cultural de Gullar foi travada no campo de batalha da forma. Era necessário experimentar e contestar os escritores da geração de 1945. Por isso, em 1958, Gullar lançou poemas concretos, como “Mar azul”, recitado por Secchin, que continuou a análise de Gullar, que, se antes havia apoiado o concretismo, depois o contestou. “Gullar não se envergonhava de mudar radicalmente sua obra, se ali visse um caminho. Superou o dualismo: formalismo (como os concretos) ou conteudismo, como o cordel”. Secchin lembrou ainda que Gullar sofreu a ira do regime militar com seu livro “Cultura posta em questão”, de 1963, e, simpatizante da esquerda, Gullar nunca foi convencional e se filiou ao PCB (Partido Comunista do Brasil) apenas quando estava na ilegalidade, a partir de 1964, início do regime militar.
Ana Maria Machado crê que a cultura faz um movimento pendular, “que ora vai tão longe que o próprio peso faz voltar”. Para ela, era necessário haver uma série de caminhos que foram se abrindo, à medida que as diferentes artes se aprofundaram. “Começa-se a sentir um certo fastio com o movimento pendular e, ao mesmo tempo, ainda se espera uma certa promessa que venha. Essa oscilação vem sempre e precisamos perceber o ponto de sentir o peso voltando e o peso para onde ainda vai”.
O tempo mistura-se às interrogações de Ana Maria: “Faço 85 anos este ano e me pergunto o que vou fazer. É um momento de perplexidade, em que preciso ser fiel a mim mesma, amando este país, o meio ambiente e as pessoas. Quero ser uma guardiã de afetos e valores”.
O poema de Ferreira Gullar, apresentado por Secchin, fez Ailton Krenak pensar “em um sujeito que talvez tenha se sentido tão estranho à sua cultura, que chamamos de cultura brasileira”. Para Krenak, Ferreira Gullar era extravagante e fugia do molde do intelectual brasileiro: “uma pessoa rara, que merece muita aproximação e reflexão sobre a obra dele pela grandeza”.

“Estamos sob uma guerra cultural ampla, no planeta”, disse Krenak. Habitamos um mundo em guerra, em que o racismo estrutural define o lugar onde vivemos. No século 20, esse assunto – o racismo – foi evitado. Classe, revolução e raça são termos que desapareceram do repertório, tornando-se assuntos incômodos. A revolução é uma externalidade do pensamento; só faz revolução quem pensa”.
“Tenho uma dificuldade com a ideia de uma humanidade igual e com a ilusão de um shopping global onde a arte e o pensamento circulam com alguma liberdade de fruição por serem parte do fenômeno globalizante”, afirma Krenak. “Devemos produzir outros mundos além daquele que está ‘servido’. Hoje, a intolerância como prática social é admissível, assim como afrontar o sentido da diversidade, quando alguém diz querer acabar com uma civilização”, disse, fazendo referência ao presidente Donald Trump, que ameaçou a civilização iraniana.
Ao final, Krenak citou o artista indígena Jaider Esbell (1979-2021), nascido em Roraima, ao exemplificar uma arte que lhe interessa, por criar deslocamento. “Jaider Esbell era não apenas um artista, mas um ‘artivista’, porque ele achava que a arte não precisava dele”.
Veja a seguir a íntegra das mesas.
Imagem acima: Ailton Krenak. Crédito: Rafael Romero Lopes
