A permanência estudantil: da mobilização dos alunos à consolidação como  política da Unesp

A ocupação da reitoria em 2013 foi o ponto de partida para a discussão das políticas de permanência. Hoje, mais de 7,7 mil estudantes de graduação e 311 da pós-graduação recebem apoios em modalidades que abrangem moradia, alimentação e auxílio socioeconômico. O orçamento destinado a área em 2026 alcança R$ 110 milhões.

Em junho de 2013, a reitoria da Unesp foi ocupada por estudantes. O prédio, símbolo da administração da Universidade, tornou-se também o espaço onde uma pauta até então dispersa ganhou forma e urgência: a permanência estudantil. Entre assembleias, faixas e negociações, uma reivindicação se destacava com clareza: não bastava ampliar o acesso à Unesp, era necessário garantir que os estudantes dispusessem dos meios para seguir nos cursos até o fim.

A ocupação foi o ponto de convergência de um processo que vinha se intensificando desde o início da década. A partir de 2011, mobilizações envolvendo estudantes, docentes e servidores passaram a questionar as condições de trabalho e de estudo dentro da Universidade. Na Unesp, esse movimento encontrou um terreno ainda mais fértil quando se articulou com a discussão sobre a implementação do sistema de reserva de vagas.

A política de cotas, que começava a ser desenhada naquele momento, alteraria profundamente o perfil da Universidade. Com a entrada crescente de estudantes oriundos da escola pública, ampliava-se também a diversidade social e racial da Unesp. Mas essa transformação trazia consigo um desafio imediato: como garantir que esses novos estudantes tivessem condições efetivas de concluir seus cursos?

As ações de permanência estudantil, nos anos anteriores, ocorriam de forma fragmentada. Algumas unidades mantinham iniciativas próprias, muitas vezes resultado da mobilização local de estudantes e gestores. Faltava, no entanto, uma política institucional que organizasse critérios, definisse prioridades e assegurasse continuidade. Em 2013, essa lacuna não podia mais ser ignorada. Foi nesse contexto que o professor Mário Sérgio Vasconcelos foi convidado a assumir a criação de uma estrutura dedicada à permanência estudantil.

Assumir a tarefa, no entanto, significava entrar em um ambiente de tensão. A relação entre estudantes e reitoria era marcada pela desconfiança, e qualquer iniciativa institucional precisava, antes de tudo, conquistar legitimidade. Vasconcelos, atual coordenador da Coordenadoria de Permanência Estudantil (COPE), estabeleceu uma condição fundamental: a construção da política deveria ser coletiva, baseada no diálogo com todos os setores envolvidos.

“Ao assumir a tarefa, uma das conversas que tive com o professor Durigan (o reitor à época) foi sobre autonomia”, diz o docente. “Queria desenhar esse projeto do jeito que imaginava que deveria ser feito: de forma coletiva.”

As primeiras reuniões se deram ainda sob o impacto da ocupação. Estudantes, servidores e docentes foram envolvidos em um processo de escuta que buscava transformar reivindicações em diretrizes concretas. Desse movimento surgiram duas instâncias centrais: a Coordenadoria de Permanência Estudantil (COPE) e a Comissão Permanente de Permanência Estudantil (CPPE), concebida como um espaço paritário de debate.

Seguiu-se a etapa de estruturação. Nos primeiros anos, a prioridade foi estabelecer uma base sólida para a política. Definiram-se critérios de atendimento voltados a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, inspirados em parâmetros nacionais, e foram mapeadas as condições de moradia e alimentação nos diferentes câmpus.

Também nesse período foram estabelecidas as modalidades de apoio, posteriormente formalizadas por meio de resoluções. Uma das mudanças mais significativas foi a distinção entre bolsas e auxílios. Enquanto as bolsas passaram a ter caráter acadêmico, vinculadas a atividades específicas, os auxílios foram direcionados ao enfrentamento das desigualdades socioeconômicas. Essa diferenciação permitiu maior clareza na gestão dos recursos e ampliou o alcance da política.

O professor recorda um marco importante nas políticas de permanência estudantil, que permitiu, a partir de 2021, o acúmulo dos auxílios socioeconômicos com as bolsas de estudo e iniciação científica. “O que acontecia antes não era justo. O aluno se esforçava e, quando conseguia a bolsa, perdia o auxílio. Ao mesmo tempo em que era recompensado por mérito, também era punido. Mudar isso foi uma medida muito importante”, avalia o coordenador.

Ao longo dos anos, a permanência estudantil se consolidou como um elemento estruturante da Universidade. Se, em um primeiro momento, o foco estava nas condições materiais de sobrevivência, gradualmente a política incorporou novas dimensões. A partir de 2021, passaram a ser desenvolvidos programas voltados ao fortalecimento do pertencimento e da integração acadêmica, ampliando as possibilidades formativas dos estudantes.

“Precisamos proporcionar aos alunos da política de permanência estudantil uma condição de equidade que os permita sentir-se completamente incluídos dentro da Universidade e à vontade para falar de igual para igual com os demais estudantes”, diz Vasconcelos.

Dimensão e impacto

Se a criação da política estabeleceu princípios e diretrizes, os números mais recentes ajudam a dimensionar o alcance dessa estrutura. Em 2025, a Coordenadoria de Permanência Estudantil atendeu 7.746 estudantes de cursos de graduação com algum tipo de auxílio.

A base da política segue concentrada nos auxílios de caráter socioeconômico. Foram 3.855 estudantes beneficiados pelo Auxílio Socioeconômico 1 e 3.935 pelo Auxílio Socioeconômico 2 no último ano, ambos voltados a garantir condições mínimas de permanência, como alimentação, moradia e despesas básicas. A esses se somam auxílios específicos, como o de maternagem e paternagem, que beneficiou 160 estudantes no último ano, além de modalidades voltadas a situações emergenciais ou trajetórias específicas, como o auxílio especial e o auxílio estágio.

Outro elemento central é o subsídio de alimentação, concedido a todos os estudantes que recebem algum auxílio ou que vivem em moradia estudantil. Ainda que o dado agregado não apareça de forma isolada, ele funciona como uma política transversal, garantindo o acesso cotidiano à alimentação e reduzindo uma das principais causas de evasão universitária.

A presença da permanência estudantil também se expressa na capilaridade da política. Os auxílios alcançam estudantes em todos os câmpus da Universidade, com destaque para unidades como a Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente e a Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, que concentram 580 e 534 estudantes de graduação contemplados, respectivamente. Além disso, a política também atende 311 estudantes da pós-graduação com auxílios de permanência, ampliando seu alcance para além da graduação. No quesito moradia, a Unesp conta com 1.240 vagas em moradias estudantis distribuídas por 13 cidades.

Nos últimos anos, a política avançou para além do apoio direto. Programas complementares passaram a integrar a estratégia da COPE, ampliando o impacto formativo. Em 2025, o Programa Livro Permanente distribuiu 5.660 livros para 2.830 estudantes, enquanto cursos de línguas estrangeiras ofereceram mil vagas em inglês, espanhol e francês.

Esse conjunto de ações ajuda a explicar a ampliação contínua dos recursos destinados à permanência. Para 2026, o orçamento aprovado é de R$ 110 milhões. “É um orçamento robusto, mas, do meu ponto de vista, ainda insuficiente para o tamanho da Unesp”, pondera Vasconcelos.

Egressos e Permanências

A jornalista Milena Vogado ingressou na Unesp em 2018, no curso de jornalismo, já sob o impacto das mudanças promovidas ao longo da década. Vinda da periferia da zona leste de São Paulo, chegou a Bauru com recursos limitados e enfrentou, desde o início, a incerteza sobre como se manter na Universidade.

Milena Vogado. Crédito: acervo pessoal

Nos primeiros meses, enquanto aguardava o resultado do auxílio de permanência, usou suas economias e pequenos trabalhos para complementar a renda, e também pôde se beneficiar do Agregue. Essa modalidade de auxílio de moradia, oferecida por repúblicas estudantis ou por veteranos dos cursos, permite que o calouro fique na república pagando um valor simbólico, bem abaixo do aluguel, por um período de cerca de dois meses, enquanto se ajusta à nova cidade. “O Agregue ajudou muito. Fiquei com três veteranas minhas, que eram da turma de 2016. Nos dois primeiros meses, pagava R$ 70 por mês enquanto aguardava na fila e todo o trâmite do auxílio de permanência”, conta a egressa.

Quando o auxílio foi concedido, no entanto, a realidade mudou. Mais do que garantir sua permanência, o apoio permitiu um envolvimento mais tranquilo com as atividades acadêmicas, sem a pressão constante para encontrar os meios de se manter em Bauru. Para Milena, o acesso às políticas de permanência estudantil representou também um reconhecimento: a confirmação de que aquele espaço lhe pertencia. “Você vale tanto quanto um estudante que não recebe auxílio. E precisa aproveitar ao máximo a oportunidade que está sendo dada. Mas, principalmente, o auxílio também é um sinal de pertencimento. Tive colegas da permanência que trancaram a faculdade por sentirem que aquele ambiente não era para elas. Mas, para mim, o auxílio nos diz que pertencemos, sim, àquele ambiente, e que a Unesp também quer nos incentivar a ficar”, diz a jornalista.

Poucos anos antes, em 2014, Alef dos Santos Oliveira havia iniciado sua trajetória no curso de medicina em Botucatu, um dos mais concorridos do país. Diferentemente de Milena, desde o vestibular ele buscava instituições que oferecessem condições de permanência. Filho de empregada doméstica e vindo de escola pública, sabia que sua formação dependia diretamente desse suporte.

Alef dos Santos Oliveira em sua formatura na FMB.

“Um veterano da Faculdade de Medicina foi ao cursinho dar uma palestra aberta ao público. Por três anos, tentei passar na faculdade. Durante esse período, sempre assistia ao veterano e, ao final, perguntava se as políticas de permanência continuavam iguais, pois eram muito importantes para mim, para que eu seguisse na Universidade, ainda mais porque eu queria muito cursar medicina fora de São Paulo”, relata o egresso.

Alef fez parte da primeira turma do curso de graduação em medicina da Faculdade de Medicina de Botucatu a ingressar sob o sistema de reserva de vagas. Testemunhou em primeira mão a mudança no perfil dos estudantes e relembra os desdobramentos que se deram a partir dali. “Quando a gente entrou, não havia outras pessoas para servir como referência para nós. Depois de algum tempo, fomos nós que nos tornamos referência para os novos estudantes que ingressaram por cota”, conta. “Foi algo estranho, mas, ao mesmo tempo, bom”, relata.

Ele conta que os auxílios foram fundamentais para a sua trajetória de seis anos como estudante de um curso que requer dedicação integral, o que inviabiliza qualquer trabalho paralelo.

A trajetória de Alef, que hoje se alterna entre a atuação como médico de família e comunidade em Botucatu e o serviço de plantonista em um hospital psiquiátrico, expressa o alcance dessas políticas. “Não havia, para mim, possibilidade de presença no ambiente acadêmico sem as políticas de permanência. Elas foram essenciais”, ressalta o médico.

A ocupação da reitoria, em 2013, serviu de catalisador para uma mudança que vinha sendo gestada há anos, e que na verdade continua em desenvolvimento. O que, naquele momento, se apresentava como reivindicação tornou-se, ao longo do tempo, uma política sólida, de extrema importância para o acesso à Universidade.

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Unesp: 50 anos, 50 histórias do Jornal Unesp. A trajetória da Unesp narrada por quem a viveu: 50 crônicas que resgatam personagens, conquistas e momentos marcantes de sua história.

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