A República Democrática do Congo enfrenta, desde maio de 2026, um novo surto de ebola que já provocou milhares de mortes e se tornou o mais letal da história recente do país. A epidemia ocorre na província de Ituri, no leste do território congolês, região também marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. A combinação entre a rápida disseminação da doença, a ausência de vacinas e tratamentos específicos licenciados para a cepa e as limitações da resposta sanitária agravam o cenário.
A pesquisadora Júlia Mori Aparecido, graduada em Relações Internacionais pela Unesp em Marília e doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, utiliza sua área de estudo para analisar as particularidades de uma epidemia que se concentra justamente em uma região já afetada pela violência.
Em sua pesquisa de mestrado, Júlia trabalhou com o conceito de “choque externo”, utilizado para compreender como acontecimentos inesperados podem alterar a dinâmica de conflitos já existentes. Segundo a internacionalista, epidemias podem ser entendidas como choques graduais, nos quais o tempo de reação é diferente daquele observado diante de acontecimentos súbitos, como terremotos. No caso do ebola, porém, a progressão da resposta sanitária é atravessada pela velocidade com que a doença pode evoluir e pelas condições do território onde o surto ocorre.
O primeiro caso conhecido desta epidemia teria sido registrado em um profissional de saúde que apresentou sintomas em abril e morreu três dias depois, mas a confirmação de que se tratava de ebola só ocorreu semanas mais tarde, após as amostras serem processadas em Kinshasa. Para a pesquisadora, esse intervalo contribuiu para impedir a identificação inicial da doença, provocada por uma cepa diferente daquela responsável por surtos anteriores.
A dificuldade de contenção não se limita, porém, à identificação do vírus. A epidemia ocorre em uma área marcada pelo conflito e pela intensa circulação de pessoas, incluindo populações deslocadas pela violência. Ataques a unidades e equipes de saúde e episódios de fuga de pacientes de centros de isolamento dificultam as ações de prevenção e tratamento.
A doutoranda chama atenção ainda para a desconfiança acumulada pela população em relação às intervenções sanitárias. Medidas necessárias para conter a transmissão, como protocolos específicos para os funerais, podem entrar em choque com práticas tradicionais de luto. “A resposta sanitária proíbe exatamente o que o luto exige naquela tradição: levar lavar o corpo, vestir, tocar e devolver para a terra de origem. Então, essa medida não é recebida como proteção. Ela é vivida como uma violação da dignidade, da obrigação com o morto e do processo de luto”, explica.
A memória dos surtos anteriores também influencia a maneira como a população interpreta a atual epidemia. Durante a crise de 2018 e 2019, o ebola esteve associado a disputas políticas, especialmente depois que o governo adiou eleições em áreas atingidas pela doença. A desconfiança ganhou novos elementos no surto atual diante das dificuldades enfrentadas pelos profissionais responsáveis pela resposta sanitária.
“Em agosto, os profissionais de saúde ameaçaram abandonar a resposta ao surto porque estavam trabalhando sem receber salário. Enquanto recursos internacionais chegavam para combater o ebola, quem estava na linha de frente, vestindo os trajes de proteção e atuando diretamente no combate à doença, não estava sendo pago. A conclusão, nesse caso, é que alguém estava lucrando com essa situação”, conta a pesquisadora.
A capacidade de resposta também é afetada pela redução do financiamento internacional. Júlia Mori Aparecido relaciona o cenário atual à dissolução da USAID (United States Agency for International Development) e à retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, apontando que a ajuda humanitária norte-americana destinada à República Democrática do Congo em 2026 corresponde a cerca de um quarto do valor registrado em 2024. Reino Unido, Alemanha e Canadá também reduziram a ajuda internacional.
Mais do que a diminuição dos recursos financeiros, a pesquisadora chama atenção para a perda da articulação entre governos, organizações humanitárias e doadores. “O que se perdeu ali não foi apenas o dinheiro, mas também a articulação. A agência era descrita como uma espécie de cola entre o Ministério da Saúde, as ONGs e os doadores. Essa função de articulação não se reconstitui simplesmente com um repasse emergencial”, avalia.
A crise, por fim, levanta questões sobre o próprio significado de “segurança sanitária global”. Embora organismos internacionais tenham recomendado que os países não adotem restrições de viagem e comércio, por seus possíveis impactos sobre a circulação de profissionais, amostras e suprimentos, decisões nacionais podem seguir outra direção quando o risco é percebido como uma ameaça externa.
Para Júlia, essa diferença revela um problema na forma como a saúde global é mobilizada diante de emergências. “Eu acredito que o problema não está no conceito em si, mas no gatilho. A mobilização só acontece quando o risco parece se aproximar dos países que financiam o sistema, e não quando a mortalidade aumenta na origem do problema”, conclui.
Ouça a entrevista completa com Júlia Mori Aparecido para o Pod Mundo e Política.
Imagem acima: Introdução da variante bundibugyo em um cenário de extrema fragilidade poderia desencadear uma catástrofe regional. Crédito: Josua Mulala Raymond/OMS.
