Nathan Sampaio, Carolina Fioratti
Em 1978, recém-chegado ao Instituto de Artes da UNESP e com um diploma fresquinho de graduação em Composição e Regência, o maestro Samuel Kerr (1935-2023) apresentou aos seus colegas do Departamento de Música um novo projeto ambicioso: queria fomentar na jovem universidade, surgida há apenas dois anos, a prática do canto coral.
Além de promover a musicalização, o canto coral permite a formação de vínculos e a construção de uma identidade comum, ao colocar alunos, estudantes e funcionários lado a lado para soltarem a voz juntos. Tinha ali início um projeto que perduraria por quase quatro décadas, engajaria centenas de crianças, adultos e idosos e se transformaria em uma das marcas registradas da Universidade Estadual Paulista.
Hoje existem corais ativos nas cidades de Araraquara, Rio Claro, Bauru, Franca, Jaboticabal, Ilha Solteira, São José do Rio Preto, Guaratinguetá e São José dos Campos, perfazendo 11 grupos em 10 cidades.
Kerr iniciou seus estudos musicais aos 13 anos de idade. Destacou-se por sua erudição a ponto de se tornar professor no Curso de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em 1974, quando ainda cursava a graduação no Instituto Musical de São Paulo. Em 1977, transferiu-se para o IA como professor. Sua chegada marcou o início de uma nova era dentro do instituto, e sua trajetória, que se estendeu até permaneceu até 2005, se misturou à própria história da Universidade.

Após conceber o projeto, Kerr pôs mãos à obra para tirá-lo do papel. A primeira demanda era conseguir músicos profissionais que fossem capazes de arregimentar, formar e ensaiar um coral. Felizmente, o material humano necessário estava disponível no próprio IA. Kerr selecionou estudantes das aulas de regência do IA para atuarem como líderes dos grupos.
Os selecionados recebiam uma bolsa para custear os gastos, que incluíam os deslocamentos para os institutos da Unesp no interior. Os ensaios ocorriam obrigatoriamente aos finais de semana. “Havia essa atividade supervisionada por ele que nos dava a oportunidade de viver uma experiência prática”, relata Paulo Celso Moura, docente aposentado do IA que foi regente na década de 1980. “Fiquei dois anos viajando para Marília todo final de semana”, relembra Moura, que se tornaria o coordenador responsável pelo projeto dos Corais entre os anos de 2014 e 2024.

O maestro relata a dura rotina da época. “Pegava o último ônibus em São Paulo à meia-noite e chegava em Marília às 6 horas da manhã. Havia um servidor no câmpus responsável pela articulação do coro que nos buscava na rodoviária. Eu tomava café e descansava até a hora do almoço, quando ocorria o ensaio. Passava um tempo estudando e, ao fim do dia, fazia outro ensaio. Quando não acontecia o segundo ensaio, tentava pegar o ônibus das 17h para chegar em São Paulo antes do metrô fechar. Se não fosse possível, pegava o ônibus da meia noite para voltar. Chegava em São Paulo às 6 horas do outro dia”, diz.
A correria, no entanto, não o desanimava. O músico explica que, naqueles tempos, o conhecimento de Unesp dos estudantes do IA se limitava às instalações daquele pequeno instituto. À época, o IA estava sediado no bairro do Ipiranga, no mesmo edifício onde fica hoje a Coordenadoria de Desenvolvimento Profissional e Práticas Pedagógicas (CDeP3) e o Instituto Confúcio da Unesp.
“Naquela época, a própria Unesp ainda não tinha noção do que era”, reflete Moura. “Ir para outro lugar e conhecer novas realidades, pessoas, outros ritmos e condições foi muito rico. E muito importante para a própria universidade.”
Regentes contratados
O Coral passou por uma reformulação na década de 1990. A coordenadora da época era Marisa Fonterrada, docente aposentada do IA que se manteve à frente do grupo até 2014. Sua chegada marcou o início da contratação de regentes profissionais por meio de concurso para atender aos corais das unidades.
“Foi uma mudança importante, que trouxe mais força. Uma bolsa é mais fácil de ser tirada. Com funcionários concursados é mais fácil estabilizar mais a relação”, comenta a professora.
O amadurecimento do projeto se refletiu também na integração do trabalho que era realizado nos diferentes institutos. Mensalmente, os regentes dos corais se encontravam no prédio da reitoria da Unesp. Nos encontros os músicos relatavam o andamento de suas atividades, e havia espaço também para alinhar os passos seguintes do projeto. Tal alinhamento era essencial, explica Fonterrada, que compara o Coral da Unesp à Hidra de Lerna, um monstro da mitologia grega. “O coro é um corpo com nove cabeças. Cada cabeça é diferente da outra, mas a gente tinha que ter um ponto comum”, explica.
Grupo CantorIA
Em 1989, Fonterrada também inovou ao acrescentar aos corais formados por estudantes uma turma voltada ao público infanto-juvenil. O Grupo CantorIA, como era chamado, ensaiava no IA e era composto, principalmente, por crianças e jovens do bairro do Ipiranga.
“Inicialmente se destinava à faixa etária entre 7 e 12 anos. Mas acabamos aceitando crianças mais novas pois os pais diziam que os filhos choravam pedindo para participar. Então estabelecemos como idade mínima os 5 anos”, conta Fonterrada. “E acontecia que os que completavam 12 anos não queriam ir embora. Então acabou virando um coral infanto-juvenil.”

A docente explica que, à época, não havia oferta de aulas de música nas escolas. O coral servia então como porta de entrada para os pequenos ao universo mágico dos sons. Aquele contexto permitia que as crianças maiores estabelecessem uma relação de cooperação com as mais novas, ensinando os pequenos a ler partitura, entre outros elementos da prática musical.
O CantorIA atuou por 25 anos, e neste período realizou diversas apresentações pelo Brasil, e até no exterior. Em 1996, o grupo participou de um festival de campo coral na cidade de Bonn, na Alemanha, e também do Congresso da International Society for Music Education, em Amsterdã, nos Países Baixos. No ano seguinte, o Coral infantil viajou para Mendoza, na Argentina, onde participou de mais um festival. Também houve convites para apresentações no México e no Canadá, que não ocorreram por questões orçamentárias. O Coral infanto-juvenil encerrou suas atividades em 2013.
A hora do show
Ainda em 1978, Kerr realizou em Rio Claro um encontro para que os participantes dos corais pudessem se apresentar e confraternizar. Desde então, estes encontros se tornaram uma tradição, alternando-se entre diferentes cidades onde a Unesp está instalada, ou nos seus arredores.
Os encontros incluíam uma apresentação aberta ao público geral, que era ensaiada individualmente pelos grupos de corais em suas respectivas cidades. O espetáculo planejado por Kerr era milimetricamente organizado: “Se fosse ocorrer em Botucatu, por exemplo, ele passava meses antes pesquisando compositores e pessoas importantes da cultura e da música da região. Todo o repertório do encontro tinha por base a produção cultural daquela comunidade local”, conta Moura.
Os temas das apresentações dos diferentes corais também eram escolhidos levando em conta o perfil de cada unidade. O coral da faculdade de letras teria interesses distintos daquele representado pelos alunos da arquitetura, assim como da biologia, veterinária e assim por diante. Por isso, era necessário discutir e escolher de comum acordo uma temática que norteasse o encontro anual.
A discussão acontecia ainda no início do ano. Isso possibilitava que houvesse prazo para a escolha do repertório e os ensaios das peças, nos meses seguintes. Era necessário escolher espaços amplos para realizar os shows, pois a apresentação completa costumava juntar mais de 600 coralistas. Auditórios como o do Teatro Municipal de Araraquara e o do Sesc Guarulhos já foram palcos desses grandes espetáculos.
Em Guarulhos, inclusive, ocorreu um dos eventos mais emocionantes, segundo testemunham Moura e Fonterrada. Naquela apresentação Samuel Kerr recebeu uma homenagem, e o repertório executado constava, quase integralmente, de canções e obras que haviam sido selecionadas por ele nos encontros que coordenou.
O Coral na atualidade
José Paes, membro do Conselho Curador da Fundação Editora da Unesp e atual coordenador dos Corais da Unesp, diz que o projeto atualmente compreende 11 grupos ativos, espalhados por 10 cidades; a capital abriga dois, um ligado à reitoria e outro, ao IA. Eles são liderados por seis regentes contratados, sendo que alguns atuam em mais de uma cidade. Neste ano, o tradicional encontro deve ocorrer no Sesc Franca. São esperadas entre 350 e 400 pessoas no palco para a grande apresentação pública.
Em Bauru, ainda são oferecidos ensaios ao público infantil, embora o projeto não faça parte do antigo CantorIA. De toda forma, os pequenos também sobem ao palco junto aos adultos no dia da grande apresentação. Lá se unem a coralistas com idades que chegam aos 80 anos. “É um momento especial e emocionante por vários motivos. Você olha nos olhos daquelas pessoas e vê que eles transmitem a alegria daquele momento”, reflete Paes.

O coordenador destaca o comprometimento dos coralistas: estudantes e servidores precisam se deslocar para a universidade dois dias a cada semana, a fim de participar dos ensaios, o que evidencia “uma abnegação e um gosto surpreendentes”, diz ele. “O Coral é um programa emocionante em que as pessoas se sentem recompensadas por participarem. Você vê pessoas que nunca tiveram acesso à música cantando peças nacionais e internacionais de uma maneira muito bonita”, comenta.
E ele comenta da surpresa que os funcionários do Sesc manifestam quando sediam uma edição do encontro. “As equipes do Sesc, que estão acostumadas a grandes espetáculos, tanto teatrais como musicais, ficam absolutamente impressionadas com esse encontro. É muito difícil reunir 400 cantores em um palco e fazer desse evento uma coisa absolutamente emocionante”, comenta.
Cultura e identidade
Paulo Moura, que participou também da formalização dos Encontros de Cultura da Unesp, destaca o papel do Coral para a consolidação de uma identidade própria para a Universidade.
“Identidade é aquela ideia de pertencimento, de você se reconhecer como parte de algo. Isso constrói a sua imagem. E uma identidade possui diversos níveis, camadas e dimensões, indo desde o aspecto individual até o coletivo”, reflete.
Para o docente, as atividades artísticas e de integração contribuíram para que os participantes dos corais ganhassem uma perspectiva diferente quanto às reais dimensões da Unesp. As apresentações grandiosas ajudaram a consolidar uma marca, enquanto as participações em eventos fora da Universidade proporcionaram reconhecimento nacional e internacional. E, mais importante, os coralistas puderam formar e fortalecer amizades mútuas.
“A cultura tem um potencial para estabelecer vínculos, e também de construir uma identidade e criar uma sensação de pertencimento”, diz Moura. “Por muito tempo, não havia uma Unesp só, eram várias”, diz Moura. “Não se trata apenas de valorizar as diferenças, mas de encontrar, em meio à diversidade, o que existe de comum.”
