Para registrar um momento feliz, importante ou visualmente bonito, nada melhor do que uma fotografia. Para quem atua com pesquisa, as imagens podem revelar muito mais. O campo da fotogrametria emprega modelos matemáticos, algoritmos computacionais e sistemas avançados de imageamento para extrair informações precisas das imagens fotográficas, e assim desvendar dimensões, formas, distâncias e características de objetos ou ambientes. Foi justamente o avanço desse campo do conhecimento que levou o professor Antonio Maria Garcia Tommaselli, da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, câmpus de Presidente Prudente, a receber o Prêmio Giuseppe Inghilleri 2026, concedido a cada quatro anos pela Sociedade Internacional de Fotogrametria e Sensoriamento Remoto (ISPRS).
A premiação, concedida por uma das instituições científicas mais tradicionais da área, reconhece pesquisadores cujas contribuições científicas tiveram impacto significativo no desenvolvimento da fotogrametria e do sensoriamento remoto. “A ISPRS é uma das sociedades científicas mais antigas, centenária. A seleção do premiado é feita pela presidente da ISPRS, pela secretária-geral e pelo presidente da Sociedade Italiana de Fotogrametria e Topografia”, explica Tommaselli.
Tommaselli dedicou sua carreira às diversas áreas da fotogrametria, explorando campos multidisciplinares e passando por temas como desenvolvimento e utilização de novos sensores para captura de imagens, monitoramento da biodiversidade e sensoriamento remoto aplicado à agricultura. “Quando comecei, havia um foco mais definido. Hoje buscamos projetos mais multidisciplinares que possam empregar a nossa especialidade”, afirma o pesquisador.
Entre as pesquisas atualmente desenvolvidas pelo grupo está o Projeto Temático HARPIA (Sensoriamento Remoto de Alta Resolução para Agricultura Digital), financiado pela Fapesp. O projeto investiga novas formas de combinar imagens captadas por drones e equipamentos terrestres para acompanhar o desenvolvimento das lavouras com alto nível de detalhe. Coordenado por Tommaselli, o grupo desenvolve algoritmos e novos sistemas de aquisição e processamento de dados capazes de detectar precocemente indícios de pragas, doenças e deficiências nutricionais em plantas. O objetivo é capacitar os agricultores a agir de forma mais rápida e precisa, aumentando a produtividade e reduzindo custos e impactos ambientais.

Crédito: Antonio Tommaselli
“Esse projeto temático da Fapesp é um sensoriamento remoto de alta resolução, combinando câmeras em drones, câmeras terrestres e sensores de varredura a laser para a agricultura”, explica o docente. Ele atribui ao conjunto dessas iniciativas a inspiração a sua premiação. “Acho que essa indicação foi motivada pelo meu envolvimento em várias linhas de pesquisa e as contribuições com grupos de pesquisa internacionais, que resultaram em artigos originais”, diz.
Uma ciência que transforma imagens em medidas
Em uma definição precisa, a fotogrametria é a área da pesquisa científica que se dedica à obtenção de informações métricas a partir de imagens. Embora hoje a disciplina esteja cada vez mais associada a drones, satélites e sistemas digitais, sua história é secular. A primeira referência formal ao termo data de 1867, quando o arquiteto e topógrafo alemão Albrecht Meydenbauer publicou o artigo Die Photometrographie. Porém, sua tarefa essencial permanece a mesma ainda nos dias de hoje: utilizar imagens para realizar medições precisas. “A fotogrametria é uma técnica de medir usando imagens, e antes mesmo que a fotografia fosse inventada já se sabia como produzir essas medidas. É uma ciência de quase 200 anos”, conta Tommaselli. “Toda vez que for necessário fazer alguma medida, é possível usar uma imagem em vez de uma régua ou um equipamento mais sofisticado”, diz.
Durante o século 20, grande parte da cartografia, a atividade de produção de mapas, recorreu a técnicas fotogramétricas baseadas em fotografias aéreas. Com a popularização dos sensores digitais, câmeras em drones e equipamentos de varredura a laser, as possibilidades de emprego expandiram-se para várias áreas. “É possível adotá-la na indústria naval, na aeronáutica, na indústria espacial, na medicina, na educação física. Para medir o corpo humano, uma peça de aeronave, uma planta ou um fruto, você usa fotogrametria”, exemplifica Tommaselli.
Uma das principais contribuições científicas de Tommaselli relaciona-se ao desenvolvimento de modelos matemáticos que permitem transformar imagens em informações confiáveis. Seu trabalho concentra-se em especial na calibração e na orientação de sensores, etapas fundamentais para garantir a precisão das medições realizadas a partir de fotografias.
O grupo coordenado pelo docente da Unesp começou a atrair atenção internacional por suas investigações sobre o potencial do uso de sensores mais simples e de menor custo para aplicações fotogramétricas. Naquela época, sistemas de mapeamento aéreo dependiam majoritariamente de equipamentos especializados e extremamente caros, o que restringia sua utilização a grandes organizações e projetos com elevado orçamento. A proposta da equipe foi verificar se câmeras menos sofisticadas poderiam produzir resultados compatíveis com as exigências técnicas da cartografia moderna.
“Há uns 20 anos a gente começou com uma linha de estudos sobre a utilização de sensores de custo menor para fazer fotogrametria”, relembra. Em parceria com a empresa Engemap, os pesquisadores demonstraram que equipamentos mais acessíveis poderiam ser empregados em grandes levantamentos cartográficos. “Foi a primeira vez que se mapearam grandes áreas com sensores mais simples de forma bem-sucedida”, lembra.
Drones, biodiversidade e cooperação internacional
Nos últimos anos, as pesquisas coordenadas por Tommaselli passaram a incorporar o uso de drones e sistemas de sensoriamento remoto de alta resolução em abordagens multidisciplinares. Uma das iniciativas destacadas pelo docente foi um projeto financiado pela Fapesp e desenvolvido em colaboração com a Academia da Finlândia (AKA). Intitulado “Plataformas Multissensores para Mapeamento e Monitoramento de Florestas Tropicais”, o projeto foi realizado entre 2017 e 2021.
A partir da combinação de imagens aéreas e terrestres, o grupo desenvolveu metodologias para monitorar ecossistemas florestais. Os pesquisadores realizaram campanhas de coleta de dados na área de Floresta Atlântica do Pontal do Paranapanema, produzindo modelos tridimensionais completos das árvores e informações detalhadas sobre a estrutura da vegetação.
Tommaselli considera essa parceria uma das experiências mais bem-sucedidas de sua trajetória recente. “Desenvolvemos a parte de plataforma de coleta com drones e a parte de coleta de imagens terrestres com mochilas. Foi um projeto tão bem-sucedido que vários alunos nossos passaram a fazer estágio sanduíche na Finlândia”, relata. Atualmente, quatro doutores formados pelo grupo atuam como pesquisadores sêniores em instituições finlandesas.
A frente de investigação mais recente envolve o projeto temático HARPIA, dedicado ao desenvolvimento de tecnologias de sensoriamento remoto de alta resolução para aplicações agrícolas. No projeto, pesquisadores utilizam drones, veículos terrestres e diferentes tipos de sensores para coletar imagens e dados detalhados das lavouras ao longo do tempo. Essas informações são analisadas com o auxílio de técnicas de inteligência artificial, permitindo acompanhar o desenvolvimento das plantas e identificar alterações que podem afetar a produtividade. O objetivo é criar ferramentas capazes de detectar precocemente doenças, pragas e deficiências nutricionais, além de estimar a produção agrícola e avaliar seus impactos econômicos.

Crédito: Antonio Tommaselli
Para isso, a equipe desenvolve tanto os equipamentos de coleta quanto os métodos computacionais necessários para processar grandes volumes de dados. Sensores multiespectrais e hiperespectrais (capazes de registrar comprimentos de onda invisíveis ao olho humano) são combinados a sistemas de varredura a laser e a tecnologias de posicionamento por satélite de alta precisão. A integração dessas informações gera modelos tridimensionais detalhados das plantações, reunindo dados obtidos por diferentes plataformas e em diferentes períodos de cultivo.
Reconhecimento alcança também a Unesp
Além da produção acadêmica, o professor destaca a importância de aproximar a pesquisa universitária das demandas da sociedade. Ao longo dos anos, projetos desenvolvidos no ambiente da pós-graduação resultaram no surgimento de empresas de base tecnológica, startups e soluções inovadoras capazes de gerar empregos e impulsionar setores econômicos. “Busquei projetos de inovação porque me satisfaz o fato de que algo que você fez não ficou em uma prateleira. Teve impacto na forma de uma empresa, dos empregos que ela gerou. Isso é muito interessante, é algo que eu valorizo bastante”, afirma.
Sob essa perspectiva, Tommaselli faz questão de dividir o mérito da premiação com toda a comunidade unespiana. “Gosto sempre de dizer que na realidade esse não é um prêmio meu, porque eu sozinho não faço pesquisa. Eu dependo da secretária, da equipe de limpeza, do financeiro. É um prêmio para a Universidade”, ressalta.
Para o pesquisador, a distinção internacional também reforça a qualidade da ciência produzida na Unesp e nas demais universidades públicas brasileiras. “Acho que a primeira mensagem é mostrar para a sociedade que a pesquisa que a gente faz aqui é uma pesquisa internacional. Esse prêmio evidencia que temos formação e pesquisa de categoria internacional, mesmo diante de desafios estruturais e limitações de financiamento com os quais temos que lidar”, conclui.
