Prato do Dia celebra os 200 anos da fotografia discutindo as transformações no registro de imagens

Nesta edição do podcast, o professor Denis Porto Renó analisa a evolução dessa forma de arte ao longo desses dois séculos, os impactos causados pela adoção das tecnologias digitais e as questões éticas decorrentes das novas formas de produção visual.

A palavra “fotografia” tem origem grega e significa desenhar ou escrever com a luz. Trata-se da arte de criar imagens permanentes pela ação da luz sobre uma superfície fotossensível, como filmes ou sensores digitais. Desde os primeiros experimentos do século 19, essa tecnologia passou por transformações profundas, que envolvem avanços técnicos, mudanças de linguagem e ampliação do acesso ao público. Ao longo desse percurso, a fotografia deixou de ser um recurso restrito para se tornar parte do cotidiano, presente em práticas sociais e comunicacionais. O novo episódio do podcast Prato do Dia propõe um olhar sobre os 200 anos dessa forma de arte, refletindo sobre suas transformações históricas e seus impactos na forma como a sociedade registra e interpreta a realidade.

Para discutir o tema, o podcast recebe o professor Denis Porto Renó, da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Unesp, no câmpus de Bauru. Pesquisador da área de ecologia dos meios e narrativas imagéticas, o docente analisa o percurso da fotografia desde suas origens até os desafios contemporâneos, que envolvem a digitalização e o avanço da inteligência artificial.

Ao longo dessa trajetória, a fotografia passou por um processo gradual de construção de linguagem. Durante muito tempo, suas formas de representação estiveram diretamente vinculadas a outras expressões visuais, especialmente à pintura, o que evidencia que sua autonomia estética não se estabeleceu de maneira imediata. Denis Porto Renó destaca que esse desenvolvimento precisa ser compreendido dentro de um movimento mais amplo de transformação dos meios de comunicação. “A fotografia demorou muito para chegar a ter o que nós podemos chamar de uma linguagem própria”, afirma. A partir da perspectiva da ecologia dos meios, teoria associada a autores como Marshall McLuhan e Neil Postman, o professor explica que as linguagens não desaparecem, mas se reconfiguram ao longo do tempo. Nesse sentido, a fotografia pode ser entendida como uma transformação de linguagens anteriores, que se adapta às condições técnicas e culturais de cada período.

Esse processo ganha novos contornos com a popularização das tecnologias digitais e dos dispositivos móveis, que ampliaram significativamente o acesso à produção de imagens. O uso cotidiano do celular como ferramenta fotográfica contribui para o surgimento de novas formas de expressão e circulação visual, com impactos diretos na maneira como as pessoas se comunicam e constroem narrativas. “Agora, com o telefone celular, que passou a ser um dispositivo que tem um monte de coisa, inclusive uma câmera dentro. Esses dispositivos começaram a construir uma nova narrativa, uma nova linguagem. Eu diria que talvez hoje em dia nós possamos mesmo dizer que temos uma linguagem própria”, completa o docente.

Outro ponto abordado na entrevista é a manipulação de imagens, tema que ganha relevância no contexto digital, mas que não é recente. O professor lembra que intervenções já ocorriam na fotografia analógica, tanto no momento da captura quanto na revelação. “Quando nós fazemos a revelação, esse processo de tratamento também tem capacidades de destacar ou retirar o destaque, aumentar o contraste ou diminuir, você pode fazer correções a partir do tratamento fotoquímico. Então isso já existia. Agora é óbvio que, com o digital, isso ficou muito potencializado”, explica Denis Porto Renó.

A chegada da inteligência artificial intensifica ainda mais esse debate, especialmente no campo do jornalismo e da comunicação. O docente chama atenção para os riscos associados à produção e circulação de imagens falsas, que podem comprometer a credibilidade da informação e exigir uma reflexão mais rigorosa sobre os limites éticos no uso dessas tecnologias. Para o professor, o avanço técnico precisa estar acompanhado de responsabilidade profissional, sobretudo em áreas como o jornalismo, que lidam diretamente com o debate e a opinião pública. “Nós temos um ditado muito tradicional que diz que uma imagem vale mais do que 1.000 palavras. Agora, imagina se essa imagem estiver mentindo? São 1.000 palavras para provar que ela está dizendo uma mentira”, alerta. Nesse contexto, o professor reforça que o debate sobre inteligência artificial não se restringe à inovação, mas envolve também princípios deontológicos fundamentais para garantir a integridade da informação.

Apesar dos desafios, a fotografia mantém um papel central na sociedade contemporânea, sobretudo na forma como as pessoas se comunicam. O professor observa que as imagens passaram a ocupar um espaço dominante nas interações cotidianas.  “Nós estamos vivendo uma sociedade imagética. Nós temos agora, como desafio, aprender a contar histórias tendo a imagem, a fotografia ou infográfico como protagonistas, porque cada vez mais nós vamos deixar de ler e passaremos a ver imagens”, destaca o docente. 

Ao mesmo tempo em que novas tecnologias transformam profundamente a produção de imagens, observa-se um movimento curioso entre as gerações mais jovens: o retorno ao uso de câmeras analógicas e a valorização de tecnologias retrô. Esse interesse não se limita à fotografia, mas dialoga com um comportamento mais amplo de resgate de mídias consideradas ultrapassadas, como discos de vinil e aparelhos antigos de reprodução sonora. Para Denis Porto Renó, esse fenômeno revela uma tentativa de romper com o ritmo acelerado e hiperconectado da vida contemporânea, em busca de experiências mais significativas e menos imediatistas. “Nós estamos cada vez mais conectados e cansados dessa conexão, cada vez mais digitalizados e cansados dessa digitalização. Então, essa relação é muito diferente da que eu tenho no meu cotidiano, com a minha vida, com a correria das nossas rotinas e os jovens estão fugindo disso. Por isso essa ideia de voltar, de procurar o disco de vinil, de escutar Walkman, de querer comprar CDs”, conclui. 

Ouça a entrevista completa com Denis Porto Renó no podcast Prato do Dia, disponível nas principais plataformas de áudio e no player do Jornal da Unesp.