Na manhã da terça-feira, 31 de março, ocorreu a cerimônia de entrega da edição de 2026 do Prêmio Ester Sabino, promovido pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI). Durante a premiação, a cientista Vanderlan da Silva Bolzani, professora aposentada do Instituto de Química da Unesp, campus de Araraquara, foi homenageada na categoria “Pesquisadora Sênior”. A pesquisadora Caroline Gaglieri, do Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Unesp, campus de Bauru, conquistou o título na categoria “Jovem Pesquisadora”.
A solenidade ocorreu no centro de inovação Hub Green Sampa, em Pinheiros, e contou com a participação da reitora da Unesp, Maysa Furlan; do titular da SCTI, secretário Vahan Agopyan; da secretária executiva da SCTI, Stephanie Yukie da Costa; da titular da Secretaria de Estado de Políticas para a Mulher de São Paulo, Adriana Liporoni; e da vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani Bernucci.
Neste ano, a indicação à láurea foi feita pelas próprias universidades, institutos de pesquisa e centros de inovação do Estado, alcançando cem inscrições. A presença da Unesp na premiação reforça o compromisso da Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPe) em valorizar o trabalho das mulheres que pesquisam na Universidade.
O Prêmio Ester Sabino para Mulheres Cientistas do Estado de São Paulo foi instituído em agosto de 2021, tendo realizado agora a sua segunda edição. A premiação busca valorizar a atuação de pesquisadoras que contribuem de forma relevante para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado. Seu nome homenageia a cientista responsável por liderar o sequenciamento genômico do vírus SARS-CoV-2 após o surgimento dos primeiros casos de COVID-19 no Brasil.
Vanderlan Bolzani é homenageada como Pesquisadora Sênior
Nascida no município de Santa Rita, na Paraíba, Vanderlan da Silva Bolzani teve mãe descendente de portugueses e pai indígena. Filha mais velha entre seis irmãos, estudou em escola pública. De seu pai, escutava que, para ter sucesso na vida, era preciso “ser letrada” – e assim fez.
Bolzani ingressou no curso de Farmácia na Universidade Federal da Paraíba em 1969. Antes, havia cursado três anos de graduação em Medicina, mas não se identificou com a profissão. “Quando contei para a minha mãe que queria sair, ela disse: tem que fazer o que gosta, né? E eu fui”, relata.

Na época, grande parte dos pesquisadores escolhia o Rio de Janeiro como destino para a pós-graduação. Bolzani, porém, escolheu São Paulo para iniciar sua carreira como pesquisadora, inspirada pelo professor da UFPB Vilmar Nunes de Brito, que havia feito seu mestrado na USP.
Quando de sua chegada, o previsto era que seu orientador fosse Paulo de Carvalho, antigo professor do Instituto de Química da USP. No entanto, o professor sofreu um infarto e faleceu apenas uma semana após a chegada de Bolzani. Ela pensou em desistir, mas mais uma vez recebeu o apoio da mãe para seguir em frente.
“Fui ao Instituto de Química e, ao chegar lá, conversando com a turma, conheci alguns professores. Eles disseram: ‘você quer trabalhar com produtos naturais? Se descer ao térreo, vai encontrar o pesquisador mais famoso desse campo no país e no mundo, o Otto Gottlieb’. Ele se tornou meu orientador e é até hoje a minha inspiração”, relata.
Gottlieb nasceu na Tchecoslováquia, mas se naturalizou brasileiro aos 21 anos. Foi o responsável pela criação do Laboratório de Química de Produtos Naturais no Instituto de Química da USP. Por três vezes, foi indicado ao Prêmio Nobel de Química, em 1998, 1999 e 2000, por seus estudos sobre a estrutura química das plantas.
Bolzani construiu sua carreira no campo da pesquisa em produtos naturais. “Até o início do século passado, a expectativa de vida era de 45 anos. Hoje, vemos as pessoas chegando aos 100 anos. Isso é graças ao avanço na identificação de medicamentos, principalmente de origem natural. Daí o meu fascínio em trabalhar com produtos naturais. A natureza é o laboratório químico mais sofisticado que conheço”, relata.
Pouco antes de concluir o doutorado, Bolzani foi aprovada em concurso público para ser professora no Instituto de Química da Unesp, no câmpus de Araraquara, onde dá continuidade à sua carreira científica. Pesquisadora 1A do CNPq, soma mais de 325 artigos publicados. Dentre outros marcos, foi a primeira cientista de fora do estado de São Paulo a receber bolsa pela FAPESP, atuou como vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e exerceu, por dois mandatos, a presidência da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), sendo a primeira mulher a ocupar o cargo.
Na SBQ, atuou primeiro como tesoureira. Depois, foi secretária-geral e vice-presidente. “Todos os homens que me antecederam na vice-presidência eram automaticamente cotados para a presidência. Em uma reunião, começaram a discutir quem se candidataria para o mandato. Estávamos em uma grande mesa. Eu levantei a mão e falei que haveria discussão, porque gostaria de ser candidata, como tinha acontecido com os homens antes de mim. Talvez, se não tivesse me manifestado, ninguém tivesse me indicado para ser presidente”, conta. Hoje, a SBQ possui o Prêmio Vanderlan da Silva Bolzani para homenagear mulheres que se destacam no desenvolvimento da química.
Bolzani também deixou seu legado ao criar o Prêmio Carolina Bori durante sua passagem pela SBPC, fortalecendo a presença feminina na pesquisa. A cientista realiza palestras com o objetivo de atrair meninas e mulheres não só para a academia, mas para cargos de gestão, além de utilizar espaços como o Jornal da Ciência, da Academia Brasileira de Ciências, para compartilhar crônicas sobre as vivências femininas.
Ela atribui, inclusive, sua alta produtividade ao apoio que recebeu da reitora Maysa Furlan em sua juventude. Quando eram colegas em Araraquara, o marido de Bolzani sofreu um AVC isquêmico e precisou voltar para São Paulo com os filhos para ser cuidado pela família.
“Nesse período muito ruim, quando ele voltou para São Paulo, Maysa me abrigou na casa dela. Passei alguns meses morando com ela, e isso me ajudou muito”, relata. Ela diz que o apoio da colega contribuiu de várias formas para a sua trajetória na academia. “Ela sempre foi uma pessoa importante na minha vida. Acho que estou onde estou também porque ela me ajudou. Maysa Furlan faz parte da minha vida pessoal e acadêmica.”
Atualmente, Bolzani integra a Parceria Europeia para a Biodiversidade (Biodiversa+). A atuação da pesquisadora envolve a investigação dos peptídeos de plantas do Brasil. Os peptídeos são pequenas proteínas produzidas por micróbios, plantas, insetos e alguns animais venenosos. O objetivo dos cientistas é isolar essas moléculas, decifrar suas funcionalidades e transformá-las em medicamentos naturais.
Caroline Gaglieri, vencedora na categoria Jovem Pesquisadora
Caroline Gaglieri nasceu em Monte Santo de Minas, em Minas Gerais, e completou o ciclo básico educacional em escola pública. Vinda de uma família de agricultores, Gaglieri aprendia a ler com a mãe e a contar com o pai. “Entrei na escola sabendo escrever meu nome, por exemplo, porque minha mãe me incentivava em casa. E, na parte da matemática, meu pai me estimulava bastante. Recebi muito apoio para estudar”, conta a cientista.
Durante o terceiro ano do ensino médio, Gaglieri ingressou no curso técnico em Química por influência de um professor. O movimento aproximou-a da área e intensificou seu interesse pela prática laboratorial. Em 2011, a então estudante do ensino médio foi aprovada através do SiSU (Sistema de Seleção Unificada) no Bacharelado Interdisciplinar em Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Alfenas, em Poços de Caldas.

O currículo do curso permite ao estudante ter acesso às matérias básicas das ciências exatas e engenharias. Ao final do terceiro ano, teve de optar entre a área de Engenharia de Minas, a de Engenharia Ambiental e a de Engenharia Química. Gaglieri escolheu a última. Cursou mais dois anos e deixou a graduação com dois diplomas: o de bacharel em Ciências e Tecnologia e o de engenheira química.
Durante a graduação, a pesquisadora ingressou em grupos de iniciação científica e também no PET Ciência (Programa de Educação Tutorial). Também atuou em projetos para apresentar a universidade e suas formas de ingresso em escolas públicas da região. “Não posso deixar de mencionar o meu orientador de iniciação científica, professor Roni Antônio Mendes, que foi muito importante para me incentivar a ingressar na pós-graduação”, ressalta.
O ingresso no mestrado se deu em 2016, no ano seguinte à conclusão da graduação. Após aprovação no Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Unesp, Gaglieri se mudou para Bauru, onde permanece até hoje. Agora, realiza seu segundo pós-doutorado.
“Eu trabalhei no POSMAT (Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais) com catalisadores heterogêneos para aplicação em biodiesel. Posteriormente, no doutorado, segui no mesmo programa, mas ingressei na linha de materiais poliméricos a partir de fontes renováveis, sob a orientação do professor Gilbert Bannach”, conta Gaglieri, que vem construindo sua carreira na investigação sobre materiais sustentáveis.
Sua pesquisa atual, que recebe financiamento da FAPESP e é conduzida com apoio do professor da Unesp Luiz Carlos da Silva Filho, investiga os fotoiniciadores: moléculas que absorvem radiação (UV ou visível) e geram radicais livres, iniciando a transformação de monômeros líquidos em polímeros sólidos. “Vemos um exemplo disso quando vamos ao dentista e ele espalha uma massa sobre nossos dentes e projeta uma luz. Aquilo é um processo de fotopolimerização”, exemplifica.
O problema é que parte das moléculas utilizadas nesse processo apresenta algum tipo de toxicidade. Em 2025, por exemplo, a Anvisa seguiu uma recomendação da União Europeia e proibiu o uso dos fotoiniciadores TPO (óxido de difenilfosfina) e DMPT (N,N-dimetil-p-toluidina) em produtos de unhas de gel e esmaltes em gel no Brasil. “A minha pesquisa vem para tentar dar uma opção para esses compostos que podem ter algum tipo de toxicidade, utilizando fontes baratas, com processos de síntese rápidos e eficientes”, relata. Gaglieri soma 55 artigos publicados, com destaque para sua presença na edição especial dedicada a jovens pesquisadores da revista Current Research in Green Chemistry and Sustainable Chemistry, em seu último ano de doutorado. “Eu não tenho nem palavras para descrever o quanto isso [o prêmio] vai impactar minha vida. Muitas vezes a gente faz as pesquisas, mas tem dificuldade em divulgá-las. Mas a premiação terá um impacto muito positivo, principalmente em demonstrar nosso trabalho para a sociedade”, avalia.
Foto no topo da página: Ester Sabino, Vanderlan Bolzani, Maysa Furlan, Caroline Gaglieri. Crédito: Marcos Santos.
