“Nem mera negação e nem uma adoção acrítica e salvacionista”: autores comentam criação de guia para uso de IA

Primeiro no Brasil, o documento da Unesp é pautado pela soberania humana e pela importância de manter o processo cognitivo de aprendizagem. Objetivo é orientar estudantes e professores sobre o que devem ou não fazer com ajuda da Inteligência Artificial.

Quando o assunto é Inteligência Artificial (IA) e educação, a Unesp está na vanguarda das discussões. A universidade criou, em abril de 2025, uma normativa para o uso de ferramentas de IA generativa no ambiente acadêmico. Meses depois, foram formuladas disposições específicas para a pós-graduação, reforçando, por exemplo, os princípios éticos e científicos que devem ser seguidos pelos pesquisadores ao utilizar esses recursos. 

Mas havia demanda por um material de linguagem acessível e com menos “juridiquês”. Foi assim que nasceu o Guia para a Utilização de Inteligência Artificial na Graduação da Unesp: integridade, inovação e equidade. Com um texto didático, o documento reúne tópicos sobre o que “se pode fazer”, o que “nunca se deve fazer” e o que “talvez se possa fazer” com auxílio da ferramenta, com orientações específicas para estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos, os principais grupos que compõem a comunidade universitária.

Em entrevista ao Jornal da Unesp, os professores Amadeu Moura Bego, ex-assessor da Pró-Reitoria de Graduação e integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, e Denis Henrique Pinheiro Salvadeo, docente responsável pelos projetos do Laboratório do Futuro, comentaram o desenvolvimento do guia, suas aplicações e a importância de sua utilização em uma era em que a inteligência artificial já está presente no dia a dia da Universidade.

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Qual foi a principal motivação para a criação do Guia?

Amadeu Bego: Eu trabalhava na PROGRAD (Pró-reitoria de graduação) e as unidades universitárias começaram a nos consultar sobre o que os professores deveriam fazer, pois eles estavam detectando que os alunos estavam usando muito a IA e não havia nenhum tipo de norma. Nos perguntavam, inclusive, se aquilo poderia ser considerado plágio. 

Do ponto de vista técnico, o texto gerado pela IA é um texto inédito, então não entrava em nenhum tipo de norma que a Unesp tinha naquele momento, entre 2021 e 2024. Portanto, é um movimento que veio da consulta e de um clamor da comunidade acadêmica sobre um fenômeno que já estava impregnado nos cursos de graduação.

Vocês poderiam explicar as diretrizes do Guia e comentar por que elas foram estabelecidas? Ou seja, o que se pretende alcançar com cada uma delas?

Denis Salvadeo: A ideia do guia é que ele seja um documento orientador para a comunidade interna da Unesp, especialmente a comunidade ligada à graduação. Mas há dois pontos muito fortes em que o guia se baseia: primeiro, ele busca reforçar os aspectos éticos do ponto de vista acadêmico, porque já existe um código de ética definido e nós nos baseamos nele para essa construção. Ele também pretende reforçar as questões de autonomia do docente para tomar a decisão se utiliza e ou não a IA em suas disciplinas, pois isso é uma questão de definição de estratégia pedagógica.

Amadeu Bego: Vale reforçar que trata-se de um guia, e essa foi a contribuição mais decisiva do professor Denis: deixar ele estruturado de uma forma que não se tratasse de um compêndio ou um tratado acadêmico com profundidade de conceitos. Isso o tornaria um texto longo, difícil de ler e que não orientaria a comunidade acadêmica. Além disso, o guia precisava ter uma linguagem que alcançasse a pluralidade da Unesp. Com ele, nós estamos atingindo desde cursos de engenharia até cursos de filosofia. 

Por fim, ele deve servir como um primeiro norte para que a comunidade acadêmica consiga se guiar e a partir daí se desenvolver. Até então, nós tínhamos basicamente duas posturas na Unesp: uma de negação total, às vezes relacionada com um certo aspecto de tecnofobia; e outra de ingenuidade com a ferramenta, vendo-a como revolucionária. Nem uma atitude de mera negação pela negação e nem uma adoção acrítica e salvacionista: queríamos um primeiro guia para dar um olhar crítico para que a ferramenta fosse introduzida paulatinamente a partir dessas primeiras referências para todos os cursos. 

Nas referências, são citadas universidades estrangeiras que já disponibilizam guias sobre o uso de IA na educação. Podemos dizer que esse projeto da Unesp é pioneiro no Brasil?

Denis Salvadeo: Esse guia começou a ser construído em 2024. Essas referências utilizadas como base foram acessadas, principalmente, naquele ano. Naquele momento, nós não encontramos referências nacionais que pudessem nos ajudar ou servir de base para poder elaborar um documento como esse. Inclusive, mesmo no exterior, alguns dos materiais que nós encontrávamos eram bastante simplificados, não orientavam muita coisa.

Esses materiais das universidades unidos com outros textos, como documentos da UNESCO, nos apoiaram na construção da nossa versão. Vale ressaltar que esse guia surge para complementar toda a base legislativa e normativa que a universidade vem criando de inteligência artificial. O nosso documento realmente tem esse caráter mais objetivo, mais direto, principalmente para promover o uso ético e responsável de IA na graduação.

Amadeu Rego: Eu complementaria que a criação do guia pode ser considerada um pioneirismo no sentido de termos um material específico para o ensino de graduação. Eu diria até que é um movimento corajoso da Unesp e da gestão em pensar em algo nessa linha, mesmo correndo alguns riscos, já que se trata de uma tecnologia que muda mês a mês. Mas eu considero um material bem diferente do que já é encontrado hoje em várias instituições. 

E ele reforça a soberania humana na interação com a IA. A gente declara no próprio guia como foi feita essa interação, e nós, pesquisadores, fomos sempre fazendo a leitura crítica e mantendo a soberania do ser humano na organização do material final e da curadoria, para que o guia não fosse contraditório ao que ele próprio está pregando.

Como identificar quando o uso da IA para de ajudar no desenvolvimento do aluno ou professor e passa a ser um problema? Nestes casos, como intervir para que nenhuma parte saia prejudicada? 

Amadeu Bego: Nós fizemos, recentemente, um levantamento com aproximadamente 300 estudantes em um trabalho de conclusão de curso (TCC). Cerca de 98% dos alunos já usam IA, e mais de 85% dizem que o uso é diário. Os alunos têm usado a IA a despeito do que os professores estão pensando ou não. Se não houver um guia, uma discussão sobre o que é essa tecnologia e como a gente poderia gerar um espírito crítico em relação a IA, o uso acabará sendo espontaneísta e acrítico. 

A principal fonte de informação dos alunos – que nós observamos também nesse TCC – são as redes sociais. Eles não ficaram sabendo sobre a IA pelos acadêmicos, como o professor Denis, que estudam e trabalham com isso. Eles apenas seguem o que aparece no TikTok, no Instagram e nesses vídeos virais. Esse uso acrítico pode produzir, em grande parte dos casos, a substituição do processo cognitivo de aprendizagem, e isso é extremamente perigoso. Os estudantes acham que estão aprendendo alguma coisa, mas eles estão delegando para a IA, terceirizando, o processo de reflexão e de construção cognitiva. 

Denis Salvadeo: Eu gostaria de apontar algo que vem junto com o guia, que é justamente a questão de capacitar os docentes, os alunos e também os servidores com relação ao que é IA, dando uma ideia geral de como ela aprende, quais são os seus riscos, impactos positivos e negativos, e também quais são as suas possibilidades quando nós olhamos para a aprendizagem, para as nossas atividades de pesquisa, extensão e todas as dimensões acadêmicas administrativas que nós trabalhamos.

Tentar achar um ponto de equilíbrio onde nós realmente consigamos, no final das contas, reduzir na prática os problemas e aumentar os pontos positivos da tecnologia é um grande desafio. Então, ter docentes tendo a chance de refletir isso com os alunos e realizar pesquisas complementares a esses aspectos vai ajudar a trazer uma clareza maior sobre essas possibilidades, mitigando riscos. Compartilhar esse conhecimento é algo que a gente tem que fazer de alguma forma. A capacitação é uma maneira, mas também, obviamente, através das nossas pesquisas. 

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