O docente Pedro Henrique Campello Torres, do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus do Litoral Paulista, foi selecionado para atuar como lead author do próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU. Principal instituição científica para o apoio das negociações internacionais conduzidas pela comunidade internacional das nações, o IPCC é uma referência que orienta o caminho das pesquisas climáticas em todo o globo.
Segundo o IPCC, ao todo foram nomeados 664 especialistas de 111 países para as funções de coordinating lead authors, lead author e expert reviewers. Os cientistas inicialmente apresentaram suas candidaturas e passaram por uma primeira seleção, antes de serem indicados pelos governos de seus respectivos países. Esta primeira fase do processo envolveu mais de 3.700 candidatos. Posteriormente, o coordenador geral do IPCC distribui os cientistas nomeados entre os três grupos de trabalho e o coordenador de cada capítulo faz a seleção final com base no conhecimento científico e na adequação das habilidades do candidato ao tema que irá trabalhar no capítulo do relatório.
“As equipes de autores, selecionadas entre milhares de excelentes indicações, garantem expertise excepcional em diversas disciplinas”, afirmou o britânico Jim Skea, atual presidente do IPCC, em nota oficial que divulgou o fim do processo seletivo. “Temos orgulho de que as novas equipes de autores reflitam uma diversidade crescente, tanto em termos de equilíbrio de gênero quanto de maior representação de países em desenvolvimento e economias em transição”. Segundo o IPCC, dos 664 especialistas nomeados, mais da metade (51%) são provenientes de países em desenvolvimento e de economias em transição, e quase metade dos autores (46%) são mulheres.
Perfil de colaboradores passou por mudanças
Pesquisador na área das ciências sociais aplicadas, Torres atua com gestão e planejamento socioambiental e coordena o Laboratório de Desigualdade Ambiental, Mudanças Climáticas e Planejamento em Ambientes Socioecológicos (Ladamps). Sua escolha como lead author reflete uma mudança que vem ocorrendo nas ciências climáticas de modo mais amplo, num processo que inclui o próprio IPCC.
Durante os anos 1980 e 1990, a maior parte da pesquisa relacionada às mudanças climáticas, bem como as agendas dos fóruns supranacionais, se dedicava à compreensão das dinâmicas atmosféricas que viabilizaram as alterações, e nas estratégias para mitigá-las. Nos últimos anos, contudo, à medida que o planeta observa um aumento na ocorrência de eventos extremos e as nações fracassam na implementação de medidas que limitem o aumento de 1,5o grau na temperatura global em relação ao período pré-industrial, torna-se fundamental preparar as sociedades e a infraestrutura para as incertezas de uma nova realidade climática.
Discussões sobre ações e estratégias para tornar as sociedades mais resilientes têm ganhado cada vez mais espaço na agenda de pesquisadores e de encontros mundiais sobre o clima. Entre os pontos recorrentes desse debate está a necessidade de que as medidas de adaptação sejam orientadas sempre pelo conceito da justiça social, e embasadas na ciência.
Essas demandas se refletem no perfil dos estudiosos engajados no IPCC. Se à época dos seus primeiros relatórios, nos anos 1990, havia um predomínio de autores da área de física, química e demais ciências duras, as últimas edições da publicação têm incorporado cada vez mais profissionais capazes de avaliar e sugerir políticas públicas que promovam a resiliência climática. Isso implica a ampliação da participação de especialistas do campo das ciências humanas e de países em desenvolvimento.
Realizado em ciclos de três anos, o relatório do IPCC tem entre seus principais objetivos sintetizar o conhecimento atual sobre as mudanças climáticas e orientar governantes a implementar políticas públicas baseadas na ciência. O documento, que em sua última edição teve mais de três mil páginas, é dividido em três partes: a primeira trata das bases físicas das alterações climáticas; a segunda estuda seus impactos, adaptação e vulnerabilidade e uma terceira discute formas de mitigar essas mudanças. A publicação final do próximo relatório, sua sétima edição, chamado Relatório Síntese, está prevista para 2029.
Área de pesquisa multidisciplinar
Pedro Henrique Campello Torres nos últimos anos tem se dedicado principalmente ao estudo de estratégias de adaptação em ambientes costeiros que sejam eficientes e socialmente justas.
“De dez anos para cá, tenho me concentrado na pauta climática. Não tanto na área da mitigação, mas sim na da adaptação. Meu trabalho envolve pensar como as cidades podem se adaptar a uma realidade que já observamos hoje, e não que veríamos apenas em dez ou quinze anos, como se imaginava anteriormente”, diz Torres.
A atuação do professor da Unesp ficará concentrada no segundo grupo de trabalho, atuando mais precisamente em um capítulo, intitulado “Progresso atual da adaptação, eficácia e adequação”, que em aproximadamente 40 páginas, vai apresentar o balanço e as lições que podem ser tiradas dos projetos de adaptação já concebidos, em termos de custos, resultados, limitações e de seu alinhamento com diretrizes de políticas públicas e formas de financiamento.
“Existe um pressuposto básico no tema de adaptação de que não existe trabalho nesta área que não seja multi, trans e interdisciplinar. Isso pode ser observado até mesmo no perfil multidisciplinar dos pesquisadores que compõem o grupo de autores do GT2”, explica Torres, que é o primeiro docente da Unesp a assumir o cargo de lead author na principal publicação do IPCC. “O relatório vai reproduzir essas várias dimensões, contendo capítulos que abordam sistemas alimentares, risco de desastres, recuperação, assentamentos humanos, financiamento, entre outros pontos. O ponto forte do relatório do IPCC é conseguir orquestrar essas diferentes temáticas de forma sintética e articular propostas de políticas públicas”.
Como um lead author, Torres vai trabalhar com outros sete colegas pesquisadores sob a liderança de outros dois coordinating lead authors. Entre as suas funções estarão a redação de partes específicas do capítulo e a revisão de artigos sobre o assunto, no intuito de reunir no documento as contribuições dos principais especialistas sobre o tema. Além disso, explica Torres, cada capítulo conta com dois experts reviews, que fazem a revisão final no material.
“Esse grupo de trabalho atua dessa forma, mas poderia ter outra forma de divisão em outros grupos e capítulos”, explica. “Essas informações vão ser importantes, por exemplo, para orientar a governança e destinação de um fundo global de adaptação, que é um dos temas presentes na COP30, que será realizada no Brasil”, afirma.
Experiência em elaboração de relatórios para políticas públicas
Nos últimos anos, Torres colaborou com a construção de outros documentos que orientam governantes na adoção de políticas públicas. Entre eles, prestou consultoria para a elaboração do Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC) para o estado de São Paulo, publicado em 2025, e participou do Plano Clima – Adaptação, elaborado pelo Governo Federal e que esteve em consulta pública até o final de abril. Neste último, prestou consultoria técnica relacionada ao setor de oceanos e zona costeira.
A zona costeira da Baixada Santista tem sido o espaço de pesquisa do docente, onde ele atualmente desenvolve um projeto que busca explorar o conceito de “abrigo climático”, ainda pouco difundido no Brasil. De forma resumida, esses abrigos seriam estruturas de referência nas comunidades para o acolhimento de seus moradores em episódios de extremos climáticos, oferecendo um espaço confiável e de atendimento adequado para situações de emergências.
Torres explica que o sistema de alerta da Defesa Civil tem sido aprimorado nos últimos anos. Um exemplo dessa melhora são as mensagens enviadas para os celulares quando há o risco de temporal ou chuvas intensas, por exemplo. Ainda que os alertas já estejam se tornando algo familiar para a população em geral, ainda existem lacunas a serem preenchidas para que a prevenção ocorra plenamente. “O que nós ouvimos das comunidades nas chuvas que afetaram o litoral paulista, em 2023, é que as pessoas receberam o alerta, mas não sabiam para onde ir ou o que levar de casa, por exemplo”, diz ele.
Ao mesmo tempo, essas comunidades muitas vezes já possuem seus espaços de referência com a qual tem uma relação de confiança e onde se sentem seguras. “Isso ficou visível em São Sebastião, na Vila do Sahy, quando após a tragédia das chuvas as pessoas se direcionaram naturalmente para o Instituto Verdescola para acolhimento. Por que não adequar esses espaços para serem utilizados durante episódios climáticos, como ondas de calor, alagamentos ou chuvas extremas?”, questiona.
Inspiração em projeto da Espanha
O projeto é inspirado na experiência de Barcelona, na Espanha, onde já foram implementados mais de 500 abrigos climáticos em escolas, hospitais e bibliotecas públicas adaptados para o maior problema enfrentado na cidade, que são as ondas de calor. Para isso, a equipe do professor realiza um projeto piloto com duas escolas da Baixada Santista. A ideia é que trabalhando com as crianças, o projeto alcance também os pais e promova o envolvimento real da comunidade na construção do projeto, condição que Torres considera essencial para o sucesso da iniciativa.
Na visão do professor, é essencial que as medidas e projetos trabalhem o conceito de justiça climática. A incorporação desse conceito exige um processo anterior que é a escuta da comunidade e é nesse processo de compreensão das realidades e de entendimento das demandas que as ciências humanas aplicadas se tornam fundamentais. “Não podemos negar que existe um esforço visível dos municípios, estados e união na adaptação às mudanças climáticas. Os planos e as políticas, apesar de atrasados, estão sendo elaborados. A questão é como fazer da melhor forma possível, contemplando a questão da justiça social, para que essas medidas não gerem ainda mais desigualdade”, diz.
Imagem acima: abertura da 58ª edição do IPCC, em 2023. Crédito: Antoine Tardy / IPCC
