
Os professores que compartilharam laboratórios, salas e os próprios corredores da universidade com o geólogo Dimas Dias-Brito, docente entre os anos de 1989 e 2018 do departamento de Geologia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp em Rio Claro, não hesitam em considerá-lo um realizador. É que Dias-Brito foi quem idealizou e estruturou o UNESPetro, um centro de pesquisa interdisciplinar em petróleo, gás natural e meio ambiente no interior paulista.
Antes de se inserir na academia, Dias-Brito trabalhou como geólogo da Petrobras por 13 anos, com atuação em poços de sub-superfície na Bacia da Foz do Amazonas e em equipes de pesquisa da mesma empresa no Rio de Janeiro. Com essa bagagem, veio no final dos anos 1980 para a Unesp em Rio Claro e aprofundou seus estudos na área de geologia do petróleo e ciências ambientais. “Havia, em Rio Claro, nomes conhecidos nacionalmente na área de geologia sedimentar, que abarca também a geologia do petróleo. Alguns destes colegas participaram inclusive da criação do curso de Geologia. Então, havia um histórico muito interessante aqui no campus”, recorda Dias-Brito.
A chegada de Dias-Brito se deu em um período de profundas transformações na indústria petrolífera nacional, e o geólogo agiu de forma a aproximar a academia do setor de petróleo e gás natural. Em meados da década de 1990, o governo federal, sob a gestão de Fernando Henrique Cardoso, deu início à redefinição do papel do Estado na economia, o que resultou na sanção, em 1997, da Lei 9.478, a chamada Lei do Petróleo. A nova legislação criava a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e lhe atribuía a função de regular, contratar e fiscalizar a indústria de energia. Na prática, a medida colocava fim ao monopólio da Petrobras sobre todas as etapas da indústria petrolífera, que remontava à sua criação, em 1953.
Logo que foi criada, a ANP lançou o Programa de Recursos Humanos (PRH) para incentivar a formação e a capacitação de profissionais para o setor de petróleo e gás natural. Para isso, abriu edital com oferta de bolsas de pesquisas, custeadas com recursos previsto na cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Lei 9.478, com destinação de até 1% da receita bruta dos contratos de exploração e produção de petróleo e gás no país para esse fim.
O professor logo percebeu que esta poderia ser uma oportunidade de expansão das pesquisas no câmpus de Rio Claro e de abertura para uma maior interação com profissionais da indústria e acadêmicos que atuavam na área. Atendendo ao edital público, encaminhou uma proposta que foi prontamente contemplada em 1999. Começava, então, uma parceria com a ANP que traria muitos frutos para a universidade.
“A partir do ano 2000, teve início o Programa de Formação de Recursos Humanos em Geologia e Ciências Ambientais, o PRH-05. Começamos pequenos e fomos crescendo. Em um determinado momento, tínhamos mais de 50 estudantes, entre graduandos, mestrandos e doutorandos, com bolsas da Agência Nacional do Petróleo”, relembra Dias-Brito. “E, embora tivesse sido uma iniciativa de concorrer ao edital a partir do curso de Geologia, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas, abrimos a perspectiva para a participação de estudantes de outros cursos câmpus. Isso trouxe alunos de áreas como Ecologia, Biologia, Geografia e Engenharia Ambiental, e o programa floresceu bastante”, conta.
A fundação e a trajetória do UNESPetro
A parceria entre a Unesp e a Agência Nacional do Petróleo estava se consolidando quando a Petrobras fez um anúncio que colocaria o Brasil em uma posição estratégica em relação à demanda de energia no mundo. Em 2006, a empresa divulgou a descoberta da vasta província petrolífera do Pré-Sal, com hidrocarbonetos de alta qualidade, situada nas bacias de Santos e Campos. Cobrindo uma área de 150.000 km², a chamada camada Pré-Sal – situada a uma profundidade de mais de 7 mil metros e com rochas sedimentares carbonáticas de 120 milhões de anos – exigia uma tecnologia própria para extração. Mais uma vez, a Unesp foi lembrada como referência na área. Novamente, o professor Dimas Dias-Brito estava a postos para colaborar e tornar a participação da Unesp ativa nesse processo.
“A Petrobras percebeu que o desafio era muito grande e foi ao encontro das universidades brasileiras, de grupos de pesquisa que tivessem atuação nessa área. A Unesp foi convidada a apresentar a proposta da criação de um novo centro de pesquisas. Em 2007, apresentamos a proposta de criação do UNESPetro, então denominado de Centro de Geociências Aplicadas ao Petróleo”, explica o docente.



A proposta foi aprovada e, em janeiro de 2008, foi realizada uma cerimônia no câmpus de Rio Claro para o lançamento da pedra fundamental do centro. Em novembro de 2010, o prédio, de 2.000 m² foi entregue. Com 1.500m² em laboratórios de pesquisa e 500m² para área de ensino, foram investidos, à época, R$3,6 milhões na construção: R$2 milhões 556 mil reais pela Petrobrás e R$1 milhão e 44 mil reais pela Unesp. Além da infraestrutura predial, a Petrobrás destinou outros R$7 milhões para a compra de equipamentos e materiais permanentes para o centro. Com isso, o total de recursos externos investidos no centro foi de aproximadamente R$9,57 milhões de reais.
“Mesmo antes da construção do UNESPetro, a Petrobras começou a enviar seus geólogos jovens para treinamento específico em rochas carbonáticas no câmpus em Rio Claro. Fizemos esse programa de educação continuada até 2015. Hoje, esses profissionais ocupam cargos de liderança na exploração do Pré-Sal brasileiro. Então, a Unesp teve um papel muito significativo em formar recursos humanos nessa área”, afirma Dias-Brito.




Com a parceria para a capacitação dos profissionais vigente até 2015, o investimento da Petrobras na universidade chegou a R$10,6 milhões de reais. Além disso, entre 1999 e 2025, foram estabelecidos convênios voltados ao desenvolvimento de pesquisas, resultando em 35 projetos de PD&I finalizados, com valor total captado de cerca de R$ 100 milhões.
Dias-Brito se aposentou em 2018. Desde então segue como pesquisador associado do centro de pesquisas. As bases que ele estabeleceu para o projeto foram essenciais para que o centro continuasse ativo e produtivo. Atualmente, o UNESPetro mantém três grandes projetos em execução, cujo financiamento total chega a R$12 milhões 469 mil reais.
O Programa de Recursos Humanos com a ANP, hoje denominado PRH-40/UNESP, também permanece ativo após 26 anos e acumula histórico de 140 profissionais formados em cursos de aperfeiçoamento e capacitação. Entre os pesquisadores, a soma chega a 278 alunos bolsistas, distribuídos entre os cursos de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado na universidade.
A vertente ambiental
As pesquisas, atividades de capacitação e ações desenvolvidas no âmbito do Programa de Formação de Recursos Humanos e, posteriormente, com a fundação do UNESPetro, sempre tiveram como foco o setor de petróleo e gás natural em duas dimensões principais: a exploração e os impactos ambientais, considerados indissociáveis.
“Quando ocorre uma emergência relacionada à exploração e à distribuição de petróleo, é preciso tomar uma atitude rapidamente. Mas, para isso, é preciso saber em detalhes as regiões mais sensíveis ao derramamento para aumentar a eficácia das equipes de emergência”, afirma a geóloga Paulina Setti Riedel, docente aposentada do Departamento de Geologia e atual pesquisadora visitante do UNESPetro e do PRH-40/UNESP, que liderou diversas investigações na vertente ambiental.
A professora recorda que, desde o início, um assunto que chamava a atenção de pesquisadores e estudantes era a importância das Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo, as Cartas SAO. Essa é uma ferramenta que disponibiliza cartograficamente informações essenciais para ações de resposta a derramamento de óleo na região costeira.
“Lembro que o biólogo João Carlos Milanelli, então gerente regional da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) em Ubatuba, trabalhava com operações de emergência ligadas a acidentes de petróleo. Ele veio ministrar um curso para apresentar a metodologia do mapeamento de sensibilidade que gerava as Cartas SAO. Os alunos fizeram esse curso e, naturalmente, se interessaram muito pelo assunto. O professor Dimas, junto com Milanelli, decidiram aproveitar esse interesse e tiveram a ideia de criar um projeto que mapeasse a costa inteira de São Paulo numa escala de maior detalhe do que a existente à época”, conta Riedel.
O convite para integrar a equipe veio logo nas primeiras reuniões do projeto. “Era necessário interpretar imagens de satélite para analisar o meio físico. E, para serem divulgadas, as Cartas não deveriam estar só em papel. Era preciso digitalizá-las em um banco de dados. Por ser especialista em geoprocessamento e sensoriamento remoto, fui convidada a integrar o projeto”, conta Riedel.
Mapear o litoral paulista de ponta a ponta exigiu dedicação e esforço dos pesquisadores ao longo de seis anos de trabalho, de 2006 a 2013. Ao fim do mapeamento, que não considerou apenas a linha imaginária litorânea oficialmente traçada, mas todas as reentrâncias dos canais de mangue e ilhas costeiras, num total de 3.257km, foram contabilizados uma tese de doutorado, sete dissertações de mestrado, 15 projetos de iniciação científica e uma série de trabalhos de conclusão de curso, financiados pela ANP e as agências de fomento Fapesp e CNPq.
Cada um desses pesquisadores ficou responsável por um trecho da costa e, então, o quebra-cabeça foi montado. Além da análise de fotos aéreas cedidas pelo Instituto Florestal, os alunos também foram pessoalmente vistoriar os locais ao menos duas vezes, em estações do ano distintas. Em regiões de difícil acesso, foram usados barcos. A inspeção visual era fundamental para detalhar as características geológicas e da biota, além de dimensionar as atividades econômicas que foram inseridas nas cartas. Até então, as Cartas SAO adotavam a escala estratégica de 1:500.000, o que significa que 1 cm de mapa corresponde a 5.000 metros de terreno, ou 5km. O mapeamento feito pelos pesquisadores de Rio Claro adotou a escala operacional de, no mínimo, 1:50.000, ou seja, 1 cm equivalente a 500 metros. “Em regiões do sul do estado, com praias muito homogêneas, usamos a escala 1:50.000. Mas, no restante do estado todo, foi de 1:25.000. Em algumas regiões mais problemáticas, como o estuário de Santos, a região de São Sebastião e do Porto, por exemplo, a escala foi de 1:10.000. Porque eram áreas muito complexas, com muito uso e um potencial poluidor grande. Quando terminamos, toda a costa do estado de São Paulo estava mapeada em uma escala de detalhe que nem o Ministério do Meio Ambiente tinha”, diz Riedel.

Após a conclusão do mapeamento e de sua digitalização, o atlas foi disponibilizado para os órgãos ambientais em apoio às operações de emergência. E segue acessível para consulta na biblioteca digital da universidade. “Foi uma produção de impacto social. Além disso, os bancos de dados produzidos ficaram disponíveis a quem nos solicita. Eles são um grande repositório de informações ambientais e sociais para ser utilizado por vários centros de pesquisa” completa a pesquisadora.
Além do atlas com as Cartas SAO, o UNESPetro contabiliza outros sete livros e manuais publicados, que estão disponíveis para download no site do projeto. Além de dezenas de artigos científicos com as produções dos pesquisadores.
O legado do UNESPetro
Sérgio Caetano Filho, atual líder do UNESPetro e coordenador do PRH-40/UNESP, integra o corpo docente do curso de Geologia desde 2023. Mas guarda uma relação mais antiga com o centro. É que o professor veio a Rio Claro uma década antes, em 2013, para cursar o mestrado. Assim, vivenciou os anos iniciais do centro, de profunda integração entre mercado e indústria. “Como aluno de pós-graduação, pude fazer vários cursos com profissionais da indústria. E vivenciar a importância desse espaço de ensino, pesquisa e extensão dentro da Unesp, funcionando a partir de demandas da sociedade, que mais tarde se tornaria uma de suas principais características”, afirma Caetano Filho.

Nesse período, o centro também estabeleceu importantes convênios e parcerias nacionais e internacionais para o desenvolvimento de pesquisas. Um deles beneficiou, anos mais tarde, a trajetória acadêmica de Caetano Filho.
Os pesquisadores de Rio Claro, em parceria com o consórcio de Libra, formado por Petrobrás, Shell, TotalEnergies, CNPC e CNOOC, vencedor em 2013 do leilão para explorar petróleo e gás natural na Área de Libra do Pré-Sal da Bacia de Santos, realizou um projeto de caracterização de bacias sedimentares. Foram investigadas, no Brasil, as Bacias de Santos e do Paraná, e na Argentina, a Bacia de Neuquén. Na viagem ao país vizinho, os pesquisadores fizeram coletas de rochas calcárias que passaram a compor a litoteca do UNESPetro, uma espécie de biblioteca, que abriga um importante banco de rochas para pesquisas.
“Na transição de pesquisador do UNESPetro para professor da Unesp, considerando que uma carreira docente, incialmente, costuma ser limitada em termos de recursos, eu tive o privilégio de poder usar e ainda continuar usando essas amostras na formação de alguns alunos de iniciação científica, em trabalhos de conclusão de curso e até mestrado. São amostras que eu já conhecia e sei que podemos explorá-las melhor, criar novos projetos e até mesmo usar para ensino, como estudos de caso em disciplinas. Então, esse legado é permanente”, afirma Caetano Filho.
Assim como o docente, outros pesquisadores podem recorrer ao acervo da litoteca para o desenvolvimento de pesquisas. Além disso, estão à disposição no UNESPetro seis laboratórios multiusuários com equipamentos de ponta.

de Micropaleontologia


Recentemente, o centro também fez uma parceria com o IEAMar, o Instituto de Estudos Avançados do Mar da universidade. O UNESPetro cedeu espaço físico para o instituto montar uma célula em Rio Claro e recebeu equipamentos de ponta que complementam a tecnologia já disponibilizada.
“São equipamentos para análise de isótopos cujos exemplares são únicos se considerarmos toda a América Latina. E somam aos equipamentos de análise que já temos. Então, nossas equipes estão em constante diálogo e estamos atentos às novas oportunidades de projetos conjuntos”, esclarece o coordenador do UNESPetro.
As perspectivas para o centro
Em novembro de 2023, o UNESPetro recebeu uma nova denominação. Passou a ser chamado de Centro de Pesquisa em Ciências Naturais Aplicadas. A partir da trajetória ao longo das últimas décadas e do reconhecimento obtido pela academia e pelo mercado, o objetivo é ampliar o escopo de atuação. O coordenador explica que essa é uma mudança que atende às novas demandas relacionadas à transição energética e ao cenário de mudanças climáticas. “Abre-se bastante o escopo do centro para atender projetos, por exemplo, associados à mineração sustentável, ao uso do solo, entre outras temáticas importantes na atualidade”, pontua Caetano Filho.
A transformação também é estrutural. Até 2022, o UNESPetro estava associado ao Departamento de Geologia do IGCE. A partir de 2023, tornou-se interdepartamental, expandindo a possibilidade de participação e de interdisciplinaridade. “Agora, nós temos grupos da física, da matemática aplicada, da computação, da engenharia ambiental. Então, temos todos esses atores desenvolvendo projetos e pesquisas financiadas. E damos todo o suporte necessário às demandas do instituto nas frentes de pesquisa, ensino, extensão e gestão de projetos”, completa o coordenador.

