Nos últimos 20 anos, a pós-graduação no Brasil passou por grandes transformações, com o aumento expressivo do número de mestres e doutores titulados anualmente e do orçamento voltado para a concessão de bolsas a esses estudantes.
De 2004 para 2024, houve um crescimento de 92,3% no número de mestres formados a cada ano, e 205% no número de doutores, segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Já o número de bolsas bolsas concedidas para mestrado subiu de 16.200 para 53.113, enquanto as bolsas de doutorado foram de 11.345 para 48.611 no mesmo período, segundo dados do Portal Geocapes.
Ainda que os números do passado revelem um cenário positivo, ainda existe uma série de desafios a serem enfrentados para o presente e para o futuro. Um deles é a empregabilidade desses egressos, que não são totalmente absorvidos pelo setor educacional e muitas vezes tampouco encontram a merecida valorização pela sua formação na iniciativa privada. Outro ponto de atenção é a retomada do interesse do jovem pela pós-graduação, cujas matrículas ainda não se recuperaram totalmente desde a pandemia de Covid-19. Além disso, existe um amplo debate tecnico e ético sobre a incorporação das ferramentas de inteligência artificial na produção científica que demanda a orientação das agências e ministérios que respondem pelo setor de ciência e tecnologia.
Para debater esses temas, o Jornal da Unesp entrevistou o professor da Universidade Federal da Bahia e atual presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Olival Freire Junior. O docente, que ocupa o cargo desde dezembro de 2025, esteve na reitoria da Unesp, em São Paulo, para participar do evento Desafios da pós-graduação: pensar o futuro, planejar o presente. O encontro, organizado pela Pró-reitoria de Pós-graduação da Unesp, trouxe reflexões sobre o atual cenário da formação de mestres e doutores no Brasil.
Na entrevista, o presidente do CNPq contextualiza a baixa empregabilidade de doutores no Brasil, explica as principais medidas do Conselho para o incentivo à inovação, esclarece as normativas para uso de inteligência artificial na pesquisa e faz um panorama do investimento em pesquisa feito pela atual gestão do MCTI.
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No Brasil, a maioria dos doutores titulados trabalha nas universidades, enquanto em outros países há uma grande parcela que é absorvida pelo setor produtivo. Por que o senhor acredita que há poucos doutores trabalhando na iniciativa privada?
Olival Freire Junior: A primeira explicação é de natureza histórica. Hoje, nós formamos 24 mil doutores por ano, mas há 15 ou 20 anos eram bem menos doutores titulados. O segundo elemento é que nós vivenciamos, até muito recentemente, uma fase de expansão das universidades e dos institutos federais. Nós ainda estamos criando câmpus novos, mas não é o mesmo movimento de 20 ou 25 anos atrás.
Naquele contexto, quase todo doutor que estivesse se formando no Brasil tinha mercado de trabalho nas universidades. Somente mais recentemente, há cerca de dez anos, é que vemos mais nitidamente essa crise, que eu chamei de crise de empregabilidade. A solução para essa crise de empregabilidade não pode ser voltar ao passado e achar que todos os doutores, ou quase todos, vão para os institutos federais e as universidades federais e estaduais. Nós não temos necessidade de tantos doutores para repor a mão de obra desse sistema universitário.
Para solucionar esse problema, nós dependemos muito de uma reorientação da economia brasileira, que priorize mais a industrialização com inovação, para uma elevação da produtividade da indústria, até mesmo no campo do agronegócio. Por exemplo, a União Europeia tem colocado restrições à carne brasileira por utilizarmos muitos antibióticos. Esse é um tipo de questão que poderia ser resolvida com mais ciência e tecnologia.
Um dos grandes pilares das áreas da ciência e tecnologia é a inovação. Como o CNPq tem lidado com o investimento em inovação?
Olival Freire Junior: O CNPq tem algumas responsabilidades nessa área e temos feito algumas ações, mas é preciso fazer ainda mais. Uma dessas ações é o edital RHAE (Recursos Humanos em Áreas Estratégicas). Nessa iniciativa, a empresa que concorre ao edital pode selecionar bolsistas de pós-graduação, que vão trabalhar nos departamentos de pesquisa e desenvolvimento dessas organizações.
Outra ação mais antiga é o mestrado e doutorado acadêmico para inovação, elaborado pelo CNPq. Ela é similar à concessão de bolsas para pós-graduação, com a diferença importante de que o tema da pesquisa deve ser pactuado com o mundo empresarial ou com o setor público antes do desenvolvimento da pesquisa. Portanto, o orientador deve fazer uma prospecção para compreender os problemas das empresas da região e, uma vez feita essa articulação, o aluno é selecionado para enfrentar essa questão.
Há pouco mais de dez anos, o CNPq também criou a bolsa de desenvolvimento tecnológico, cujo foco não é necessariamente um artigo científico que será publicado, mas uma melhoria que se configure como atividade de inovação, ou atividade tecnológica.
Ainda no âmbito da inovação e mudança de paradigmas, quais têm sido os direcionamentos do CNPq com relação à inteligência artificial?
Olival Freire Junior: Nós aprovamos recentemente uma portaria em relação à inteligência artificial. Ela não é suficiente, mas já estabelece alguns procedimentos para o CNPq. Esperamos, dessa forma, induzir a comunidade científica brasileira a considerar o que é aceitável e o que não é no tema.
Um exemplo do que é aceitável é utilizar a IA para revisar a literatura científica ou revisar o texto, desde que seja explicitado no projeto de pesquisa onde e como você usou esse recurso. Outro elemento importante é a responsabilidade integral do pesquisador pelo que é escrito no projeto, ou seja, o uso de IA não exime a responsabilidade da pessoa que utilizou os dados fornecidos pela tecnologia.
Outra regra que estabelecemos é que a IA não pode ser utilizada para avaliar os projetos que são submetidos ao CNPq. O último aspecto, e talvez mais importante, é que consideramos os desvios no uso da IA como equivalentes às infrações de plágio ou assédio. Até por isso que essas normas de inteligência artificial estão na nossa portaria como política de integridade.
Com essa medida, queremos dizer para a comunidade científica que a seriedade com que se deve lidar com a IA não é menos grave, nem mesmo menos importante, do que a seriedade com que um professor ou pesquisador tem que lidar com o problema de plágio na sua produção científica. Mas devo dizer que ainda é insuficiente isso que já estabelecemos. Temos hoje, no CNPQ, um grupo de trabalho composto por analistas da coordenadoria e por pesquisadores que estão buscando aprimorar o uso de IA nas nossas atividades.
Queremos dizer para a comunidade científica que a seriedade com que se deve lidar com a IA não é menos grave, nem mesmo menos importante, do que a seriedade com que um professor ou pesquisador tem que lidar com o problema de plágio na sua produção científica.
Estamos finalizando um ciclo de gestão federal. Qual o panorama que o senhor faz do investimento em pesquisa nos últimos quatro anos?
Olival Freire Junior: O saldo, na minha apreciação, é muito positivo. O que não quer dizer que ele seja satisfatório. As marcas principais desse saldo são duas: o descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e a inclusão da ciência e tecnologia na PEC da transição.
O FNDCT foi criado em 1970 e é, de longe, a principal fonte de financiamento à ciência, tecnologia e inovação. Só que esse fundo estava sujeito à vontade da área econômica de mantê-lo contingenciado. A gestão atual acatou uma antiga aspiração da comunidade científica, que era o descontingenciamento desse fundo.
Já a PEC da transição permitiu uma certa recuperação do orçamento do CNPq e da Capes, que saiu de R$ 1 bilhão para R$ 1,7 bilhão no início do governo. Com isso, conseguimos fazer medidas como as que eu citei anteriormente, além de financiar os mais de 143 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Mas essa combinação tem uma insuficiência. Eu não me refiro ao FNDCT, que precisa ser avaliado e revisado, o que está sendo feito, mas há insatisfação com o quadro orçamentário, que se manteve no mesmo patamar de 2023, com pequenas reduções.
Nós precisamos, então, ter mais recursos orçamentários e nós precisamos também, isso depende muito da estabilidade da economia brasileira, da retomada mais intensiva do desenvolvimento econômico e de uma estabilidade no orçamento federal.
Para o senhor, qual seria o desafio de tornar o investimento em pesquisa menos relacionado a um projeto político e mais relacionado a um projeto de Estado?
Olival Freire Junior: Precisamos dar continuidade ao ciclo de desenvolvimento. Claro, que ele precisa ser sustentável e com menor iniquidade social, mas nós precisamos retomar esse ciclo, independente do partido que esteja no governo.
O Brasil precisa avançar para consolidar esse ciclo de desenvolvimento, que se iniciou nas décadas de 1930 e 1950, mas foi freado na década de 1990, quando o mundo se encantou com as ideias do neoliberalismo e a redução do papel do Estado. Nós precisamos marchar para um cenário em que, mesmo havendo eventuais mudanças de governo, as políticas públicas sigam como políticas de interesse do Estado e da nação brasileira.
Imagem acima: presidente do CNPq, Olival Freire Junior, participa de evento na Unesp (Crédito: Nathan Sampaio)
