A América Latina vive um novo ciclo eleitoral marcado pela polarização política, pela ascensão de discursos conservadores e por disputas em torno da democracia e das instituições. Em diferentes países da região, as eleições têm refletido debates sobre segurança pública, desigualdade social, influência de atores externos e o fortalecimento de lideranças que prometem soluções rápidas para problemas históricos. O novo episódio do Prato do Dia discute o rumo dos regimes democráticos na América Latina e possíveis consequências da interferência de países estrangeiros no processo eleitoral.
Para essa conversa, a edição recebe Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta, especialista em segurança internacional da América Latina, estudos de governança e atores armados não estatais. Docente do Departamento de Relações Internacionais da Unesp, câmpus de Franca, Marília Pimenta é vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, Unicamp e PUC-SP), pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). A pesquisadora também coordena a Área Temática de Segurança Internacional e Defesa da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Neste episódio, a docente analisa os desafios enfrentados pelas democracias latino-americanas diante das transformações políticas em curso na região.
Ao comentar sobre os recentes processos eleitorais na América Latina, a professora destaca que a região vive um momento de transformações significativas em suas democracias, acompanhando tendências observadas em diferentes partes do mundo. Segundo a pesquisadora, cresce o espaço para discursos polarizados, para o questionamento das instituições democráticas e para lideranças que se apresentam como alternativas capazes de resolver crises políticas e sociais complexas. Para Marília Pimenta, esse cenário não se restringe ao contexto latino-americano, mas faz parte de uma transformação mais ampla da política internacional. “Embora ainda tenhamos um quadro de eleições periódicas, de multipartidarismo, a experiência democrática na América Latina tem sofrido uma série de reversos”, afirma a especialista.
Os casos do Peru e da Colômbia ilustram diferentes respostas do eleitorado latino diante de cenários de crise política, insatisfação social e desconfiança nas instituições. No Peru, com a vitória de Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, a pesquisadora observa a permanência de grupos políticos tradicionais como atores centrais das disputas eleitorais. Para ela, esse fenômeno revela como parte do eleitorado tem priorizado a defesa de determinados valores políticos e ideológicos em detrimento da renovação de lideranças. “Temos gerações e gerações da mesma família no poder e mesmo o Alberto Fujimori tendo sido alvo de várias condenações, a população apostou nesse mesmo clã, nessa mesma família, em nome do conservadorismo, para afastar qualquer possibilidade que seja uma ameaça da extrema esquerda no país”, afirma.
Na Colômbia, com a vitória do advogado e empresário Abelardo de la Espriella, o resultado aponta para a ascensão de candidaturas que se apresentam como alternativas ao sistema político tradicional, explorando o sentimento de desgaste das forças partidárias estabelecidas e a percepção de que os grupos que historicamente ocuparam o poder não foram capazes de resolver problemas recorrentes do país. “Foi feita essa aposta de sair desse círculo já conhecido do conservadorismo colombiano e o Abelardo vem ser esse nome de extrema direita, um outsider, para romper com os caminhos mais tradicionais da esquerda ou da direita colombianas”, explica.
A pesquisadora também comenta sobre a influência dos Estados Unidos nos processos políticos da região. Para a professora, o retorno de Donald Trump ao centro da política internacional recoloca a América Latina em uma posição estratégica dentro dos interesses norte-americanos. Nesse contexto, decisões diplomáticas, econômicas e de segurança adotadas por Washington, como a classificação de grupos como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, podem produzir impactos diretos sobre os processos eleitorais dos países latino-americanos.
Ao discutir o cenário brasileiro, Marília Pimenta avalia que as eleições de 2026 deverão ocorrer em um ambiente fortemente influenciado por disputas internacionais e por tentativas de interferência no debate público. “Nós estamos vivendo um momento de forte pressão diplomática dos Estados Unidos sobre o Brasil. Há, desde o início, uma tendência de tipificação política de grupos latino-americanos como terroristas, o que amplia a capacidade de ingerência norte-americana na região”, comenta.
O fenômeno da desinformação também aparece como um dos principais desafios para a democracia contemporânea. A disseminação de informações falsas tem desempenhado um papel relevante em processos eleitorais recentes na América Latina, contribuindo para a polarização e para o enfraquecimento do debate público. “As fake news estão inseridas no contexto das grandes big techs, que têm um alcance global. Trata-se de um ecossistema informacional que pode influenciar a circulação de conteúdos e, potencialmente, impactar resultados eleitorais. Espero que a sociedade esteja hoje mais amadurecida do que em um passado recente para lidar com essas questões, especialmente diante de evidências de ingerências externas”, afirma a docente. Diante desse cenário, fortalecimento da produção científica, da educação midiática e da divulgação do conhecimento se mostram como ferramentas fundamentais para enfrentar a desinformação.
Ouça a entrevista completa com Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta para o Prato do Dia.
