Cerimônia de abertura do Fórum Unesp 50 Anos celebra ciência, cultura e internacionalização

Realizado nesta quarta-feira (13), o evento destacou a pluralidade artística e científica da Universidade em um cenário de diálogo entre países. Durante conferência de abertura, o vencedor do Nobel de literatura Mo Yan refletiu sobre a ficção literária e suas relações com as tradições orais e a autobiografia.

Iniciou-se na quarta-feira, 13, no Memorial da América Latina, o Fórum Unesp 50 Anos, um dos eventos comemorativos oficiais do cinquentenário da Universidade. De hoje até sexta-feira, o Fórum, que é organizado pela Fundação Editora Unesp, receberá autores e pesquisadores renomados, do Brasil e do exterior, que se envolverão em debates e palestras para discutir alguns dos dilemas mais urgentes do mundo contemporâneo.

Da esquerda para a direita: o assessor especial da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Ignácio Poveta; a cônsul da França, Alexandra Mias; a reitora da Unesp Maysa Furlan; o presidente da Fundação Editora da Unesp, Jézio Gutierre; o vice-reitor da Unesp Cesar Martins.

A cerimônia de abertura contou com uma apresentação do Grupo de Percussão do Instituto de Artes da Unesp. O repertório incluiu obras de compositores brasileiros, como Hermeto Pascoal, além da utilização do Xiao Bo (小鈸), instrumento tradicional chinês formado por dois pequenos címbalos metálicos, frequentemente utilizado em apresentações artísticas e musicais chinesas. A combinação de diferentes estilos foi escolhida para homenagear o primeiro conferencista do Fórum: o escritor chinês Mo Yan, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2012.

A mesa de abertura foi composta pela reitora Maysa Furlan; pelo vice-reitor Cesar Martins; pelo presidente da Fundação Editora da Unesp, Jézio Hernani Bomfim Gutierre; pelo chefe de gabinete da Fundação Memorial da América Latina, Gustavo Ranieri; pelo assessor especial da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Ignácio Poveta; e pela cônsul da França, Alexandra Mias. Em sua fala, a reitora da Unesp Maysa Furlan destacou a importância do evento como espaço de diálogo entre a Universidade e a sociedade.

Maysa Furlan

“A programação deste Fórum, que integra as atividades dos 50 anos da Universidade, representa o que a Universidade Estadual Paulista imagina para as pessoas que vivem não apenas na capital, mas também no interior do Estado”, destacou Furlan. “A Unesp representa hoje um ambiente que fomenta educação, ciência e tecnologia no Brasil, na América Latina e no mundo. Estamos consolidando aqui relações internacionais que contribuem para um mundo mais dinâmico e transformador”, disse ela.

Jézio Gutierre

O presidente da Fundação Editora da Unesp, Jézio Gutierre, ressaltou que a organização de eventos como o Fórum está relacionada ao papel social desempenhado pelas instituições públicas de ensino superior. “Este é mais um dos momentos em que a Universidade comprova o seu valor e expõe aos públicos, interno e externo, a sua incomparável vocação para o aperfeiçoamento do debate, disponibilizando informação, suscitando reflexão e confrontando ideias”, afirmou. Gutierre também pontuou que a pluralidade de temas e perspectivas oferecida na programação do evento reflete a dinâmica da produção acadêmica da Universidade.

Em suas respectivas falas durante a cerimônia de abertura, as demais autoridades também enfatizaram, sob diferentes perspectivas, a importância da educação, da ciência e da pesquisa como instrumentos para enfrentar desafios sociais contemporâneos.

O representante da Fundação Memorial da América Latina, Gustavo Ranieri, definiu a Universidade como um espaço de produção de ideias e reflexão. O assessor especial da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Ignácio Poveta, relatou como o estabelecimento de parcerias entre instituições de ensino superior e o governo paulista resultou na transformação do Estado de São Paulo em um hub de tecnologias assistivas e políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência. A cônsul da França, Alexandra Mias, ressaltou que iniciativas voltadas ao diálogo internacional, como o Fórum, fortalecem os vínculos entre países e ampliam possibilidades de cooperação futura.

Prêmio Nobel de Literatura proferiu conferência de abertura

Após a cerimônia de abertura, coube ao escritor chinês Mo Yan proferir a conferência de abertura do Fórum. Mo Yan recordou sua infância na China, período em que pela primeira vez ouviu falar do Amazonas, o maior rio do mundo, e relatou o deslumbramento que sentiu ao navegar por um afluente do rio durante sua primeira viagem ao Brasil, em 2014.

Mo Yan

A partir dessa memória, Mo Yan traçou paralelos entre a escrita literária e o fluxo de um rio. Para ele, a massa d’água dos rios simboliza o tempo, e suas margens abrigam contextos históricos e modos de vida que frequentemente servem de inspiração para narrativas ficcionais. “Os rios sempre serviram como fonte de inspiração para autores. Na América Latina, por exemplo, temos grandes escritores que escreveram sobre grandes rios, entre eles Gabriel García Márquez e a descrição do rio Magdalena em Amor nos Tempos de Cólera”, comentou.

Após a conferência, Mo Yan participou de um debate sobre sua obra com o jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto. No diálogo, ele abordou suas referências literárias, que incluem, além de García Márquez e de outros latino-americanos, as narrativas orais que escutava durante a infância. “Na minha vila não havia eletricidade, então as casas eram iluminadas por lamparinas. Sob essas luzes, os idosos contavam histórias fantásticas para os mais jovens, muitas vezes envolvendo lendas antigas, fantasmas e outros seres mágicos”, relembrou. No presente, relatou, tais tradições orais sofrem um enfraquecimento, e é graças à atuação de pesquisadores especializados que se abre a possibilidade de preservação, por meio de registros em suportes digitais.

Mo Yan fez questão de enfatizar que, ainda que sua escrita, marcada pela mistura entre elementos fantásticos e pessoas e locais concretos, tenha sido impactada por essas tradições orais, ele é um atento observador da realidade, e que um escritor “não tira as coisas da cabeça”. “Quando descrevo rios, estou lembrando de todos os lugares que visitei. Quando escrevo um personagem, ele é composto por partes de várias pessoas que conheci ao longo da vida”, afirmou.

Ao final da conferência, o escritor refletiu sobre uma de suas obras mais recentes, em que mistura elementos autobiográficos e ficcionais. “Os escritores têm o hábito de criar ficção e inventar histórias, por isso transformei minha autobiografia em um romance”, comentou. “Mas acredito que todo romance também é uma autobiografia. Para compreender um autor, é preciso reunir todos os seus livros, como peças de um quebra-cabeça.”

O autor participa ainda de outra mesa de debate nesta quinta-feira (14), ao lado do escritor brasileiro Milton Hatoum. Com o tema “A literatura sem fronteiras – Brasil e China: paralelos e confluências”, a atividade abordará aproximações e diferenças entre as produções literárias dos dois países. Mo Yan também concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal da Unesp.

O Fórum Unesp 50 Anos acontece até o dia 15 de maio, no Auditório da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, no Memorial da América Latina, em São Paulo, com entrada gratuita. A programação completa está disponível no site do evento.

A Feira do Livro e o diálogo entre autores e leitores

A escolha de iniciar o Fórum Unesp 50 Anos com um vencedor do Prêmio Nobel de Literatura também dialoga com o início da Feira do Livro da Unesp. Em entrevista ao Jornal da Unesp, Gutierre afirmou que um dos principais objetivos dos eventos é aproximar autores e leitores.

“Queremos fazer com que o público leitor não se sinta tão passivo diante dessas informações e contribuições que, muitas vezes, vêm do exterior”, explicou. “O contato entre autores e o público permite que os leitores compreendam o dinamismo envolvido na produção de um livro”, complementou. Segundo o presidente da Fundação Editora Unesp, esse tipo de interação ainda é pouco frequente, mas precisa ser incentivado sempre que possível.

A Feira do Livro da Unesp acontece também no Memorial da América Latina, entre os dias 13 e 17 de maio, das 9h às 21h. O evento oferece descontos mínimos de 50% nos livros, e a lista de editoras participantes está disponível no site oficial da feira.

Assista a seguir a íntegra da cerimônia e da palestra de Mo Yan.

Imagens: Rafael Romero Lopes

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Fórum Unesp 50 anos do Jornal Unesp. Série registra as apresentações durante o Fórum Unesp 50 anos

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