Novos frascos, o mesmo odor? Minerais críticos, governança criminal e os paradoxos da transição energética

Presentes em diversas tecnologias estratégicas, dos carros elétricos aos equipamentos militares de ponta, os minerais críticos e as terras raras tomam o lugar do petróleo como recursos naturais mais valiosos. Risco é que passagem para nova economia verde reproduza antigas relações de dependência, limitando países do Sul Global ao papel de exportadores de matéria-prima.

Quando falamos em minerais críticos e terras raras, estamos falando, na verdade, sobre o coração da nova economia global. Esses minerais são fundamentais para tecnologias consideradas estratégicas no século 21: carros elétricos, baterias, inteligência artificial, data centers, satélites, painéis solares, além de equipamentos militares de alta tecnologia.

Entre os minerais críticos mais disputados hoje estão o lítio, o níquel, o cobre, o cobalto, a grafita e o manganês. Já as terras raras correspondem a um conjunto de elementos químicos essenciais para a produção de ímãs permanentes, microchips, sistemas eletrônicos e tecnologias de defesa.

A questão é que a chamada transição energética depende profundamente desses recursos. Ou seja: a economia verde também é uma economia mineral. E isso produz uma transformação geopolítica importante: se no século 20, o petróleo organizou grande parte das disputas internacionais, no século 21os minerais críticos passam a ocupar um lugar semelhante.

Hoje, Estados Unidos, China, União Europeia e outras potências disputam acesso, controle e capacidade de processamento desses recursos. A China, nesse contexto,  possui uma posição particularmente estratégica porque domina parte significativa do refino e do processamento mundial de terras raras. Isso significa que não basta possuir o mineral: é preciso controlar as cadeias tecnológicas e industriais ligadas a ele.

E é justamente aí que o Brasil entra.

O Brasil possui reservas extremamente relevantes de minerais críticos e terras raras. Há áreas importantes em Minas Gerais, especialmente no Vale do Jequitinhonha, que hoje se tornou um espaço estratégico para a exploração de lítio. Goiás também concentra reservas importantes de níquel e terras raras. Na Amazônia, sobretudo no Pará e no Amazonas, existem áreas com grande potencial mineral, incluindo cobre, manganês, nióbio e elementos associados às terras raras. Além disso, estados como Bahia e Ceará vêm sendo incorporados a essa nova corrida mineral.

O problema é que esses territórios não são espaços vazios, como sabemos.

Grande parte dessas áreas coincide com regiões marcadas por vulnerabilidade social, presença de comunidades tradicionais, povos indígenas, pequenos agricultores, populações ribeirinhas, comnidades quilombolas e zonas historicamente periféricas do Estado brasileiro. E é exatamente nesse ponto que começam os conflitos.

A mineração em larga escala costuma provocar profundas transformações territoriais. Muitas vezes, ocorre pressão sobre terras indígenas e territórios tradicionais, aumento do desmatamento, contaminação de rios, deslocamento populacional e destruição de formas locais de subsistência. Em regiões amazônicas, por exemplo, a expansão mineral frequentemente se conecta a redes ilegais já existentes, como garimpo clandestino, tráfico de armas, narcotráfico, exploração sexual e lavagem de dinheiro.

Isso cria algo muito importante do ponto de vista da segurança: áreas de governança criminal ou híbrida, tema com o qual venho trabalhando há anos, sobretudo em áreas de garimpo na Amazônia.

Ou seja, regiões em que o Estado não desaparece completamente, mas passa a compartilhar controle territorial com empresas privadas, grupos armados, redes ilegais e atores econômicos locais. Em alguns casos, surgem sistemas paralelos de segurança, cobrança informal, controle da circulação e até formas próprias de regulação social, econômica e da própria violência em si.

Além disso, a corrida global por minerais críticos pode aprofundar desigualdades locais. Muitas cidades mineradoras passam a viver um crescimento rápido e desordenado, acompanhado por aumento do custo de vida, precarização urbana, violência, exploração do trabalho e pressão sobre serviços públicos. Cria-se uma dinâmica paradoxal: regiões extremamente ricas em recursos naturais convivendo com pobreza estrutural e exclusão social.

Outro elemento importante é que a transição energética global pode reproduzir antigas relações de dependência. Países do Sul Global continuam exportando matéria-prima, enquanto as etapas de maior valor agregado — como tecnologia, refino e inovação — permanecem concentradas nas grandes potências industriais.

Por isso, os minerais críticos não são apenas uma questão econômica ou ambiental. Eles envolvem soberania, segurança, desenvolvimento e justiça territorial. Não se pode apenas mudar o “frasco”, mantendo-se o mesmo “odor”.

A grande pergunta para os próximos anos será: quem realmente se beneficia dessa nova economia verde? Porque existe o risco de que a transição energética internacional seja construída às custas de novos (velhos) ciclos de exploração social e ambiental em territórios periféricos. E talvez o principal desafio seja justamente evitar que o futuro tecnológico do mundo reproduza velhas formas de desigualdade, violência e concentração de poder sobre recursos estratégicos, tão conhecidos da América Latina e do Brasil em específico.

Marília Souza Pimenta é vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e pesquisadora do IPPRI.

Imagem acima: geólogo em atividade no município de Minaçu (GO) a serviço da Mineradora Serra Verde. Crédito: Serra Verde/Divulgação.