Durante a tarde de ontem, quarta-feira, 13, ocorreram as primeiras sessões de debates do Fórum Unesp 50 Anos. O evento, que faz parte do calendário de comemorações do cinquentenário da Universidade, teve início na manhã do mesmo dia com uma conferência inaugural proferida pelo autor chinês Mo Yan, Prêmio Nobel de Literatura de 2012.
A parte da tarde, por sua vez, reuniu dez pensadores contemporâneos de diferentes países em duas mesas para discutir a língua portuguesa e também as relações entre Brasil e Europa, desde o passado até os tempos atuais. O Fórum, que se estende até a sexta-feira (15), está sendo realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo, e pode ser acessado pelo público geral mediante inscrição.
A presença transnacional da língua portuguesa
A primeira mesa do período da tarde discutiu “A presença transnacional da língua portuguesa”. Participaram do debate Odete Semedo, escritora e política de Guiné-Bissau; José Eduardo Agualusa, jornalista e escritor angolano; Jorge Caldeira, escritor e doutor em Ciências Políticas pela USP; José Manuel-Diogo, escritor e especialista em relações internacionais luso-brasileiro; e Maria Paula Vieira Ferreira Leal, Secretária-Geral Adjunta da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA). A conversa foi mediada por Benedito Antunes, professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis.
Os palestrantes refletiram sobre o processo de desenvolvimento da língua portuguesa nos diferentes territórios em que ela é utilizada. José Eduardo Agualusa analisou a questão da transformação do português não apenas em língua oficial, mas em língua transnacional dentro de seu país. “Um idioma capaz de atravessar as diversas nações que compõem Angola e de servir como ponte entre elas. Esse talvez tenha sido o seu grande triunfo histórico”, avalia. Mas suas reflexões também abarcaram o lado sombrio e violento da colonização portuguesa em Angola.

“A expansão do português fez-se muitas vezes à custa das línguas nacionais africanas que perderam falantes, prestígio e espaço público. O que aconteceu e continua a acontecer em Angola, ocorreu antes no Brasil, embora ao longo de um período muito mais dilatado. No Brasil, calcula-se que existissem mais de 1000 línguas indígenas quando os portugueses aqui chegaram. Hoje, sobrevivem cerca de 300.”
Jorge Caldeira olha para o futuro da língua com esperança. Durante sua análise, o pesquisador traçou a evolução da universidade dentro do país e citou as atuais iniciativas da Academia Brasileira de Letras, da qual é integrante desde 2022. “Estamos chegando ao ponto de incorporar melhor essas pluralidades da língua portuguesa. Está sendo feito, por exemplo, um dicionário de topônimos, quase todos de origem indígena e africana, que vai ampliar algo em torno de 20 mil vocábulos”, conta o acadêmico sobre o plano da instituição literária de incorporar palavras da linguagem falada para a língua escrita.
José Manuel Diogo compartilhou ideias para manter a língua portuguesa viva e atraente para as novas gerações. Ele defendeu o recurso a bibliotecas digitais, inteligência artificial, sistemas de tradução e presença intensa nas grandes plataformas, a fim de assegurar a continuidade do idioma no contexto do século 21. “Se não colocarmos a nossa língua portuguesa com força no mundo digital, seremos falados por máquinas treinadas com base em outras línguas”, reflete. “E aqui a pergunta é política: o português reconhecido pelos algoritmos será o de Lisboa, o de São Paulo, o de Luanda, o de Maputo, o de Bissau, o da rua ou da universidade? Da literatura ou da periferia? Se a inteligência artificial reconhecer apenas as variantes de maior prestígio, vamos repetir no mundo digital as velhas hierarquias coloniais.”
Odete Semedo proporcionou um contraponto à discussão, ao ponderar que os países lusofalantes, ainda que compartilhem o idioma, caminham em velocidades distintas. Segundo a pesquisadora, há regiões da Guiné-Bissau em que a população vive sem acesso à energia elétrica, e em tais realidades o uso das tecnologias não é o recurso de maior apelo para atrair leitores. Em certas áreas até mesmo as bibliotecas são escassas, o que leva às organizações não governamentais que atuam nestes locais a utilizarem bibliotecas ambulantes para assegurar o acesso à livros por parte da população.

De toda forma, Semedo reflete: “A cidadania é feita de vozes. Vozes diferentes, plurais, províncias divergentes, mas igualmente humanas. E a língua portuguesa é uma dessas vozes que nos permite dialogar, construir pontes e fortalecer laços entre povos que partilham histórias, memórias e desafios comuns. No mundo marcado por tantas divisões, talvez uma das tarefas mais urgentes seja justamente esta, aprender a escutar o outro sem apagar a sua identidade.”
A fala da Secretária-geral da UCCLA, Maria Paula Vieira Ferreira Leal, trouxe uma promessa de apoio aos autores em língua portuguesa e de auxílio à disseminação de suas obras. “Usem a UCCLA não só com o propósito de conhecer escritores, sobretudo os mais jovens, mas também devido ao nosso foco em ajudar no intercâmbio”, explica Leal. Ela diz que a entidade atua estruturando uma rede entre prefeituras, consideradas por ela como “entidades do poder local que têm uma capacidade decisória e proximidade com as sociedades civis bastante significativa”. Tal capilaridade se reflete em facilidade para promover difusão cultural.
O Brasil e a Europa – Passados, Presentes, Futuros Possíveis
A segunda mesa do período da tarde, intitulada “O Brasil e a Europa – Passados, Presentes, Futuros Possíveis”, reuniu a historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz, o escritor e político português Rui Tavares, o historiador francês especializado em questões latino-americanas Serge Gruzinski e o político português Hélder Sousa Silva. O mediador foi José Manuel-Diogo, que participou como palestrante na primeira mesa.
Lilia Schwarcz trouxe um panorama histórico das identidades associadas a cada continente no passado, em que a Europa era relacionada à cultura, a África à barbárie, a Ásia aos seus reinos exóticos e a América a sua natureza tropical e sua “juventude irresponsável”, termo usado para se referir a atos de nudez e canibalismo retratados em pinturas. A pesquisadora se debruçou sobre as relações entre Brasil e Portugal, rememorando a colonização europeia e destacou que, na mesma data de 13 de maio em que a palestra ocorria, em 13 de maio, marcava os 138 anos da abolição formal da escravidão. “O Brasil recebeu 45% de todos os africanos sequestrados para as Américas. Isso faz da experiência atlântica brasileira algo inseparável da história europeia moderna”, explica Schwarcz sobre o passado.
“Debates sobre restituição de patrimônios coloniais, racismo estrutural, imigração, memória da escravidão e descolonização dos museus, colocaram em xeque antigas hierarquias culturais. Ao mesmo tempo, a cultura brasileira exerce enorme influência internacional na música, na arquitetura e na literatura. Mais do que pensar em influência, são histórias conectadas. O Brasil não foi apenas formado pela Europa, ele também ajudou a formar aquilo que a própria Europa moderna se tornou.”
Serge Gruzinski falou de forma incisiva sobre a arte que o Brasil exporta para o mundo. O francês trouxe exemplos de peças culturais brasileiras em exposição na França, mostrando que a presença do país é ainda limitada, apesar do alto potencial e valor intelectual das obras brasileiras. Um dos exemplos apresentados é uma exposição sobre Tarsila do Amaral, considerada de extrema relevância pelo historiador. “A exposição é importante pois permite descobrir um momento fundamental da história, que é o Modernismo. O problema é que nós, franceses, estamos descobrindo essa exposição um século depois. Na Europa, todo mundo conhece Frida Kahlo, mas ninguém conhece Tarsila do Amaral”, disse em tom veemente.

Hélder Silva esboçou planos para o futuro das relações entre Brasil e Europa, descrevendo três cenários possíveis. O primeiro é de fechamento relativo por parte das nações. O segundo se baseia apenas em questões econômicas e interesses estratégicos, e um terceiro, considerado pelo político como o mais interessante, foca “a construção de uma parceria mais madura, menos hierárquica, baseada em cooperação científica, transição ecológica, democracia, inovação e diálogo intercultural”. A concretização de tal cenário, reflete o político, vai exigir “reconhecer as assimetrias do passado sem ficar prisioneiro delas”. “Nem nostalgia colonial, nem ressentimento permanente.”
Rui Tavares seguiu a linha de questionamento aberta por Silva ao se debruçar sobre o futuro. Pensando em questões culturais e ligadas ao idioma, ele abordou a importância de abrir estas discussões também aos países africanos e outros povos que falam o português, o que traz uma quebra a hegemonia que Brasil e Portugal exercem nestes debates. “Neste momento, os nossos problemas não são nacionais, não são sequer regionais e não são sequer só das duas margens do Atlântico. Mas, se as duas margens do Atlântico têm qualquer coisa a propor para contrariar ou para pausar o colapso do sistema internacional cujas superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial não estão conseguindo, esse seria, creio eu, o nosso maior objeto de desejo político”.
Veja a seguir em vídeo a íntegra das mesas
Fórum Unesp 50 Anos
O Fórum Unesp 50 anos continua nos próximos dias com uma série de debates. Nesta quinta-feira (14), serão abordados temas diversos, desde o futuro energético mundial até a literatura chinesa e a presença da cultura oriental no Brasil, com presença do Nobel de Literatura Mo Yan e também do autor brasileiro Milton Hatoum.
Na sexta-feira (15), voltam a ser abordados temas políticos, como o papel do estado no crescimento econômico e a atual crise geopolítica. Ao final da tarde, o líder indígena e filósofo Ailton Krenak se junta ao evento para a mesa de encerramento, discutindo cultura, arte e guerras culturais. Confira a programação completa.
Além do Fórum, também ocorre no Memorial da América Latina a 8ª Feira do Livro da Unesp, considerada um dos principais espaços de democratização do acesso ao livro no Brasil. Entusiastas da literatura poderão garantir diversos títulos com desconto mínimo de 50%. A feira teve início nesta quarta-feira (13) e segue até o domingo (17).
Imagens: Rafael Romero Lopes
