O Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (CEMPAS), vinculado à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, câmpus de Botucatu, nasceu do sonho de um professor. Os interesses do veterinário Carlos Roberto Teixeira se expandiam para além dos tradicionais cães e gatos e abrangiam tanto os pássaros que pousavam em seu sítio quanto os animais silvestres que em geral só podemos observar nos zoológicos.
Até 1993, a clientela do Hospital Veterinário da Unesp de Botucatu costumava se restringir a pets e animais de fazenda de grande porte, como cavalos, vacas e porcos. Naquele ano, Teixeira encontrou uma sala no espaço para dar início ao atendimento à fauna silvestre. Com o avanço do seu trabalho ao longo de uma década, o veterinário vislumbrou a possibilidade de dar um passo adiante e constituir um centro de atendimento especializado. Em janeiro de 2005, graças ao apoio do professor Luiz Carlos Vulcano, então diretor da FMVZ, o CEMPAS se tornou realidade, na forma de um pequeno centro, situado nas dependências da Unesp, mas fora do hospital, e dotado da estrutura adequada para receber e cuidar temporariamente de alguns animais oriundos do Zoológico de Sorocaba.
Dois anos depois, surgiu a oportunidade de expansão. O Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (CEVAP), que até então ficava no mesmo câmpus da FMVZ, foi transferido para a Fazenda Experimental Lageado, ainda em Botucatu, onde fica a Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp. As instalações foram então ocupadas pela CEMPAS: saíram os escorpiões e as serpentes, e entraram as onças e os macacos.
Sheila Canevese Rahal, vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens da FMVZ e Chefe de Serviço do CEMPAS, conta que foram muitos os obstáculos superados na trajetória. “O Carlinhos teve que vencer várias barreiras até conseguir fazer aquilo de que gostava”, relata. “Na realidade, ele era professor de técnica cirúrgica. Isso levava as pessoas a questionarem: ‘o que o professor de técnica cirúrgica está fazendo com animais silvestres?’. Mas era ele a pessoa realmente interessada em desenvolver este trabalho”, diz.

Foi naquele período de expansão e de mudanças estruturais que Rahal juntou-se ao projeto. Anteriormente, ela se dedicava a área de cirurgias em pequenos animais. Em dado momento, o prédio onde atuava foi designado para passar por uma reestruturação e sediar uma secretaria. Teixeira, então, convidou-a a se unir ao CEMPAS. Mais adiante, em 2015, Rahal foi a responsável pela organização do Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens da Unesp. A ideia da criação do programa visava suprir as necessidades suscitadas pelas próprias atividades do CEMPAS. Desde então, já se graduaram lá mais de 70 mestres e doutores.
Hoje, o CEMPAS trabalha com duas frentes principais: a triagem e reabilitação de animais selvagens e o atendimento de pets não convencionais, como coelhos, porquinhos-da-índia e calopsitas.
A mais recentemente transformação ocorreu em junho de 2024: naquele mês, o centro recebeu autorização por parte da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL) para a atuar como um Centro de Triagem e Reabilitação (CETRAS). Tais espaços possuem autonomia para realizar a triagem, recuperação, reabilitação e encaminhamento adequado para espécimes da fauna silvestre e pets exóticos.
“A gente atende animais que foram atropelados, órfãos, vítimas de queimadas ou mesmo de tráfico. Todos os animais silvestres que ficam machucados e que, por algum motivo, necessitem de apoio veterinário, nós recebemos”, relata Rahal.

Estima-se que, ao longo de sua história, o número de animais atendidos pelos profissionais do CEMPAS tenha alcançado a marca de 25 mil. Também passaram por suas dependências aproximadamente 30 veterinários residentes e centenas de estagiários, pós-graduandos e alunos de graduação.
Importância nacional
Do sonho de Carlos Roberto Teixeira, hoje professor aposentado, nasceu uma estrutura capaz atualmente de receber até 200 animais de uma vez e que irá se expandir nos próximos anos. “O CEMPAS tem uma importância local, regional e até mesmo nacional muito grande. A gente começou com uma estrutura muito pequena e foi ganhando corpo. Primeiro veio a residência, depois a pós-graduação, e então os novos prédios”, relata Rahal.
Essa importância nacional foi confirmada pelo anúncio, feito em setembro de 2025, de que o CEMPAS passará a integrar o programa dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs). Isso vai resultar em um financiamento de R$ 1,8 milhão por parte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). E as instalações também estão passando por uma reforma, com apoio da SEMIL, para expandir as baias onde os animais são recebidos e alojados.
Além de receber e tratar os animais, o CEMPAS também se destaca na parte de educação ambiental. Durante as semanas de integração acadêmica, é comum que os residentes do Centro recebam crianças de escolas da região e ministrem aulas e palestras sobre as espécies, abordando cuidados, manejo e conservação. Os profissionais do local também oferecem cursos de capacitação de manejo de fauna para policiais, bombeiros e demais trabalhadores da Vigilância Ambiental, que eventualmente precisam realizar resgates de animais silvestres. O treinamento permite que a pessoa responsável pelo manejo não corra o risco de se machucar e, ao mesmo tempo, não cause danos ao animal.
Hóspedes notáveis
Muitos dos procedimentos realizados pelos profissionais do CEMPAS chamaram a atenção de veterinários de todo o país pelo seu ineditismo. Um dos que mais se destacou, ganhando inclusive cobertura das redes de TV, ocorreu em março passado, quando foi realizada a primeira transfusão de sangue entre onças-pintadas do país.

O procedimento envolveu Jack, um felino de 18 anos que sofre de doença renal. Jack estava tão debilitado que, sem passar por uma transfusão de sangue, sequer conseguiria enfrentar o procedimento de hemodiálise. Felizmente, os profissionais conseguiram levar a Jack o sangue de Ruanda, uma jovem moradora do Simba Safari, em São Paulo. Tudo correu bem e, pouco tempo depois, o animal retornou ao seu zoológico de origem, em Sorocaba, e continuou o tratamento com os profissionais locais.
Esse não foi o primeiro caso notável envolvendo grandes felinos. Em 2012, o CEMPAS recebeu Lula, um tigre de aproximadamente um ano cujo nome homenageava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque não possuía um dedo. O problema, denominado ectrodactilia, era uma característica considerada rara e gerava dificuldades ao animal para caminhar. Lula passou por uma cirurgia reconstrutiva que resolveu o problema e melhorou sua qualidade de vida. O relato sobre o caso foi publicado na revista científica Springer Nature Link.

Outro hóspede que merece destaque é o tamanduá-bandeira Dino. Ele foi levado ao CEMPAS por policiais florestais após ser encontrado sozinho na mata. O animal tinha apenas três meses de idade e cativou a equipe do Centro devido ao seus modos infantis. Dino vivia pendurado nas pessoas, pois esse é o comportamento esperado pela espécie durante os primeiros nove meses de vida. Uma das residentes o levava todas as noites para dormir na república em que morava, além de alimentá-lo e acompanhar todo o seu desenvolvimento. O tamanduá tinha uma passada diferente, de uma forma que suas garras dianteiras não tocavam o chão quando ele se locomovia. O comportamento também se tornou tema de estudos da professora Rahal.
Dino foi eternizado em histórias em quadrinhos desenvolvidas por Rahal, Teixeira e outros residentes do CEMPAS. Você pode ter acesso às obras clicando aqui.
