Estados Unidos iniciam o ano reforçando instabilidade do cenário internacional, avalia docente da Unesp

Para o especialista em Relações Internacionais Héctor Luis Saint-Pierre, professor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais em Franca, ações da superpotência em 2026 têm fragilizado a atuação dos órgãos multilaterais e ampliado tensões em um panorama já conturbado.

No início de 2026, a política externa dos Estados Unidos voltou a chamar a atenção pelo endurecimento do discurso e pela adoção de posturas unilaterais em diferentes frentes, com impacto direto sobre o sistema internacional. Medidas anunciadas pelo governo norte-americano reacenderam tensões diplomáticas, ampliaram disputas estratégicas e reforçaram críticas ao enfraquecimento de órgãos internacionais, em um cenário marcado pelo aumento da instabilidade global.

Esse contexto é analisado pelo professor Héctor Luis Saint-Pierre, especialista em segurança internacional e vice-coordenador executivo do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp, câmpus de Franca. Para o pesquisador, a atual condução da política externa dos Estados Unidos retoma padrões históricos de imposição de interesses , explicando que a estratégia americana está voltada para a divisão do globo em zonas de influência. “Trump reconhece que não tem condições de impor suas decisões sobre todo o mundo e o divide entre grandes potências como a China, na região do Indo-Pacífico, a Rússia na Eurásia e os Estados Unidos na América Latina”, diz.

Na avaliação do professor Héctor Luis Saint-Pierre, a postura recente dos Estados Unidos representa uma retomada de princípios da Doutrina Monroe, formulada no século 19, segundo a qual o continente americano estaria fechado a novas investidas coloniais europeias. Ao longo do tempo, esse pensamento foi reinterpretado e utilizado como justificativa para intervenções norte-americanas na América Latina, consolidando o Hemisfério Ocidental como área de influência dos Estados Unidos.

No início de 2026, tais princípios assumem novos contornos, novamente associados à defesa explícita de interesses estratégicos do país. “Os Estados Unidos se dão o direito de intervir militarmente em função da defesa de seus interesses; neste caso, os recursos naturais da América Latina devem ficar abertos e desimpedidos para o proveito norte-americano”, explica o docente.

Saint-Pierre também analisa o papel da China, que, dentro do novo cenário internacional, se estabelece como o principal polo de disputa com os Estados Unidos. “A China não é um país que ameaça ninguém. Também nunca teve uma ação militar fora do seu próprio território. Mas, ante as ameaças, tanto por parte dos Estados Unidos quanto da Organização do Tratado do Atlântico Norte, ela é citada como um adversário, junto com a Rússia”, afirma.

No cenário internacional, a Europa aparece como uma das regiões mais fragilizadas pela reorganização do poder global. Para o docente, a dificuldade europeia em atuar de forma autônoma fica evidente diante do agravamento das disputas entre as grandes potências. “A Europa hoje, tendo sido cortado o cordão umbilical que a unia aos Estados Unidos, é quem mais perde com esta configuração do mundo que se avizinha. Ela tenta se posicionar, de alguma forma, em um mundo que já não lhe pertence em termos de decisões políticas”, explica.

Ao comentar as ações mais drásticas adotadas pelo governo Trump, Héctor Luis Saint-Pierre analisa a operação de captura de Nicolás Maduro como um gesto que vai além do interesse estratégico relativo ao petróleo venezuelano. Para o pesquisador, a iniciativa carrega uma mensagem clara de intimidação ao restante da América Latina. Nesse contexto, o docente avalia que o episódio tensiona as relações regionais e impõe desafios diplomáticos, inclusive para o Brasil. “A proximidade do presidente Lula com o presidente Trump e a admiração manifestada por Trump em relação a Lula serão colocadas à prova nas eleições de 2026”, analisa.

O professor da Unesp também chama a atenção para a inatividade dos órgãos internacionais diante das últimas medidas tomadas pelo presidente norte-americano. “As manifestações de Trump não soam ridículas a partir do momento em que ele ocupa a Venezuela, captura o presidente Maduro e define as políticas comerciais do petróleo no país, ante o silêncio da sociedade internacional, visto que não há manifestações importantes sobre essa situação”, pondera.

Diante desse cenário, o docente avalia que as perspectivas para a ordem internacional são marcadas por incertezas e aumento das tensões. Para o pesquisador, os desdobramentos recentes indicam um ambiente global cada vez mais instável. “Não é um mundo de paz o que se vislumbra para o futuro.”

Ouça abaixo a íntegra da entrevista ao Podcast Unesp

Imagem acima: avião F-35, um dos caças empregados pelos EUA no ataque à Venezuela em 3/01, que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro