A música que brota do corpo: a revolução do Barbatuques

Inspirado nas brincadeiras de infância do fundador Fernando Barba, grupo se tornou referência ao produzir arranjos sofisticados baseados em recursos como tapas no peito, palmas e estalos de dedos. Novo álbum traz colaborações com nomes de destaque da MPB.

O corpo humano é, em si mesmo, um instrumento musical completo. Ao abraçar esta premissa, o grupo paulistano Barbatuques apostou na criatividade e na alquimia sonora para transformar gestos como estalos, palmas e batidas no peito em elementos rítmicos, melódicos e de acompanhamento. O resultado é uma trajetória artística que se estendeu desde a pesquisa acadêmica até o universo lúdico infantil e culminou em seu mais recente lançamento: o álbum Barbatuques Convida.

A história do grupo que se tornou a maior referência em percussão corporal do Brasil remonta às experimentações de seu criador, Fernando Barba, falecido em 2021. Ainda na infância, Barba já batucava na própria pele, descobrindo timbres e ritmos de forma orgânica. O que parecia uma brincadeira de menino virou obsessão artística.

Desde criança, Fernando estudava música e tocava violão e outros instrumentos. Num determinado período da vida, possivelmente na adolescência, começou a recorrer ao corpo para replicar certos timbres e ritmos que escutava na bateria. Percebeu que uma pancada no peito podia emular o som do bumbo, o mais grave da bateria. As palmas podiam soar como a caixa, e os estalos dos dedos imitavam a sonoridade do chimbal.

Barba tocava guitarra e chegou a se graduar em Música Popular pela Unicamp. Mas seguia com as pesquisas relacionadas aos sons do corpo. Como parte desse trabalho, teve aulas com o compositor, violinista e rabequista José Eduardo Gramani (1944–1998). Gramani pesquisava o ensino de música e adotava uma abordagem corporal para trabalhar com os estudantes os aspectos ligados à rítmica. Ao lado do parceiro e integrante do Barbatuques, André Hosoi, Barba abriu uma escola de música na capital paulista. O estabelecimento se chamava Auê – Núcleo de Ensino Musical.

Em 1995, o contato com o músico Stênio Mendes deu impulso à prática coletiva. Criou-se a famosa tríade “Palma, Peito, Estalo”. Inicialmente o coletivo se focou no aprofundamento da percussão corporal e na fusão com ritmos brasileiros clássicos, como o samba, o maracatu e o baião. Sob esta perspectiva foram lançados álbuns marcantes, como Corpo do Som (2002) e O Seguinte é Esse (2005).

“Quando abriu a escola, o Barba formou um grupo de estudos para receber quem quisesse se juntar a ele e se aprofundar na percussão corporal. Então, montou uma turma inicial. Na época, não havia ainda nenhuma grande perspectiva nem a menor ideia do que ia acontecer”, relata a cantora e educadora musical Mairah Rocha, que hoje é uma das integrantes do Barbatuques.

À medida que o número de integrantes do grupo aumentava e a pesquisa avançava, Barba começou a elaborar suas primeiras composições voltadas à percussão corporal de um ponto de vista coletivo. “Com o tempo, ele foi escolhendo e chamando pessoas que tinham interesse e características para agregar ao grupo. Esse foi o contexto inicial que deu origem ao Barbatuques”, diz Mairah.

Atualmente, após o falecimento de Barba, o Barbatuques é formado por André Hosoi, André Venegas, Giba Alves, Helô Ribeiro, João Simão, Luciana Cestari, Lu Horta, Mairah Rocha, Maurício Maas, Renato Epstein e Taís Balieiro.

O salto artístico e lúdico do Barbatuques

O Barbatuques acumula 27 anos de estrada. A trajetória teve início com os timbres tribais e folclóricos do primeiro disco, O Corpo do Som. O álbum apresentou Barbapapa’s Groove, a primeira peça para percussão corporal composta por Barba. O segundo álbum, O Seguinte é Esse, foi marcado por experimentalismos vanguardistas. Outro ponto alto foi o álbum AYÚ (2015), que trouxe harmonias e polirritmias ricamente elaboradas.

A sonoridade característica do Barbatuques resulta de uma sobreposição moderna de estilos e estéticas. Os gêneros abordados incluem baião, coco, samba, maracatu, rap, música eletrônica, afoxé, funk, carimbó, toré indígena, rock, beatbox, kecak e música africana. Os arranjos exploram tanto a fonética quanto os aspectos rítmicos, harmônicos e melódicos das canções e composições instrumentais.

O grupo já se apresentou em palcos de mais de 30 países. Suas gravações aparecem em trilhas sonoras de cinema e publicidade, mas também em jogos, casas noturnas e pistas de dança. Suas canções também foram objeto de incontáveis remixes feitos por DJs. Gravações populares, como Baião Destemperado e Baianá, fazem sucesso em plataformas de streaming em todo o mundo e são presença constante em vídeos publicados no Instagram e no TikTok.

O músico João Simão, que integra o Barbatuques, diz que o grupo se mantém inquieto em sua busca por criar e adaptar sons e referências sonoras para o corpo humano.

“Outras formas de pesquisa envolvem as mãos tocando o rosto. Com a mão na boca ou na bochecha, a gente também pode produzir sons com timbres diferenciados”, explica. “E tem a região dos pés. Em combinação com as palmas, produzimos algo semelhante a uma tradição que existe nos EUA, o step, em que se criam ritmos com batidas dos pés e das mãos, combinando também com sons na coxa”, explica.

Essas são as três zonas do corpo empregadas na percussão corporal. “A partir delas, podemos produzir ritmos e também melodias, usando alguns recursos, como a mão na boca e a mão na bochecha. Mas é preciso muito estudo e muita prática”, explica João.

Conexão com a infância

Embora a ludicidade sempre estivesse no DNA do grupo, foi em 2012 que o diálogo com as crianças ganhou maior centralidade. O projeto “Tum Pá”, que combinava um álbum infantil e um espetáculo, mostrou que a percussão corporal é uma ferramenta poderosa de arte-educação.

Mais tarde, em 2018, o álbum Só + 1 Pouquinho expandiu essa linguagem, adicionando ritmos contagiantes a crônicas do universo infantil. O resultado foi a consolidação da presença do grupo em trilhas sonoras internacionais de cinema e eventos globais.

“O Barba sempre prezou pela interatividade”, relata Mairah. “O público sempre sai do show fazendo batuques, sons e imitando nossas sonoridades. E nossos shows sempre receberam crianças, até pelo fato de serem de classificação livre. A gente percebia o interesse das crianças. Um dia, resolvemos pensar num repertório dedicado a elas”, conta.

“Começamos a pesquisa do Tum Pá, nosso primeiro álbum infantil. Fomos para o universo da brincadeira. Resgatamos coisas com as quais a gente brincava. A partir desse álbum, adentramos mesmo o universo infantil. Isso se desdobrou em vários outros trabalhos”, conta.

Recentemente, o grupo lançou dois livros. “ABCtuques” traz para as crianças uma lúdica representação sonora dos sons feitos pelo grupo. “Barbatuques: músicas, jogos, brincadeiras” reúne jogos e atividades para explorar a música e transformar o corpo em um instrumento musical. Ambos foram apresentados na Flip 2025.

Barbatuques Convida traz parcerias com grandes nomes da MPB

O mais recente capítulo dessa história é o álbum Barbatuques Convida. O trabalho funciona como uma grande celebração da versatilidade musical do grupo. As sete faixas foram gravadas em colaboração com importantes nomes da música brasileira, como Lenine, Emicida, Russo Passapusso, as cantoras Vanessa Moreno e Lenna Bahule, a Orquestra do Corpo e as Clarianas.

Cada uma das sete faixas recebeu uma produção diferente e foi composta em parceria. Todas já foram lançadas como singles.

Mesmo sem a presença física de Fernando Barba, os integrantes da atual formação deixam claro, a cada apresentação, que a essência criativa do começo segue acesa e se manifesta em cada estalo de dedo e batida de pé, demonstrando que as possibilidades da música corporal são infinitas.

“Se for para resumir a nossa obra em poucas palavras, eu cito os termos generosidade e coletividade. Tudo o que elaboramos envolve colaboração e respeito. Somos um grupo que gosta de fazer música junto. Somos um pouco teimosos, né? Mas sempre com o intuito de compartilhar”, diz João Simão.

Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.