Programa de Cátedras Franco-Brasileiras fortalece cooperação científica entre Unesp e país europeu

Iniciativa de mobilidade acadêmica contemplou 25 docentes da Universidade na última década. Parcerias resultaram em pesquisas que vão de tratamentos para a dislexia ao manejo florestal na Amazônia.

Há 15 anos, docentes da Unesp, da USP e da Unicamp viajam para a França e territórios franceses para participar de projetos de pesquisa em conjunto com instituições parceiras. Em contrapartida, cientistas do país europeu também frequentam as universidades brasileiras para colaborar em estudos. Essa mobilidade acadêmica é um dos aspectos do Programa de Cátedras Franco-Brasileiras no Estado de São Paulo, cujas inscrições para o ano de 2027 já estão abertas e seguem até novembro de 2026.

Na última década, 25 docentes da Unesp foram contemplados pelo Programa de Cátedras Franco-Brasileiras. A maior parte deles, 32%, pertence à área das Ciências Humanas e Sociais. Dentre os pesquisadores que já integraram o programa está o professor José Angelo Barela, do Departamento de Educação Física do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro.

Barela foi contemplado três vezes pela Cátedra, embora só tenha conseguido realizar o intercâmbio duas vezes. Na primeira oportunidade, esbarrou no lockdown promovido em razão da pandemia de Covid-19, em 2020. Os planos saíram do papel em junho de 2024. À época, o professor deslocou-se à Universidade de Lille, na França. Como parte da colaboração, o pesquisador francês Cédrick T. Bonnet veio ao Brasil no mês de outubro do mesmo ano. A segunda estadia ocorreu agora, em 2026: Barela esteve na França em junho e aguarda o retorno do professor Bonnet ainda em setembro.

A mobilidade acadêmica permite à dupla o aprofundamento de trabalhos envolvendo crianças com dislexia. Segundo Barela, as dificuldades na escrita e na leitura são fatores importantes para a caracterização do transtorno, mas não são as únicas alterações sensório-motoras envolvidas. “Um dos nossos objetivos é estabelecer algum marcador que possa indicar que a criança venha a apresentar o transtorno antes que se manifestem as dificuldades para a leitura e a escrita”, explica o pesquisador.

De posse de tal marcador, os estudiosos poderão proporcionar estímulos adequados à criança e depois monitorar a resposta do sistema nervoso a esses estímulos. O objetivo será determinar se ocorre uma melhora na qualidade dessa resposta, que resulte em uma diminuição das dificuldades dos pequenos no exercício da leitura, da escrita e de outras habilidades.

O desafio de integrar estímulos

Durante sua estadia na França, Barela acompanhou parte de um estudo longitudinal que envolvia o uso de lentes com prisma ativo para melhorar a qualidade de vida das crianças. Trata-se de um conjunto de armação e lente de óculos sem grau que causa um relaxamento na musculatura dos olhos. Segundo o estudo, o uso desses óculos auxilia na diminuição de sintomas associados à dislexia.

Outras ferramentas que os estudiosos avaliaram ao longo de oito meses incluem a manipulação de apoios nas solas dos pés e o emprego de pequenas massinhas colocadas nos dentes.

O uso das lentes, dos apoios nas solas dos pés e das massinhas nos dentes se destina a um mesmo objetivo, que é o de suprir um déficit de integração sensorial das crianças.

Acontece que, mesmo quando estão concentradas na leitura, as crianças, assim como todas as pessoas, estão recebendo informações vindas de outras fontes sensoriais. É o caso das informações vestibulares, que controlam a orientação da cabeça, e das informações proprioceptivas vindas da planta dos pés, que são responsáveis pelo equilíbrio e pela postura.

“Os vários estímulos estão chegando e o sistema nervoso precisa fundir e comparar todos para conseguir uma percepção adequada do ambiente”, explica o docente da Unesp. “Isso inclui as letras que estão aparecendo no texto na tela do computador” diz o professor. No caso das pessoas com dislexia, o processo da fusão de informações no sistema nervoso não resultado em um conteúdo claro. O resultado é a exigência de um esforço muito maior para identificar as letras.

O estudo do uso das lentes com prisma ativo foi posteriormente replicado no Brasil. Dentre os benefícios testemunhados pelos pesquisadores estão um aumento na velocidade da leitura e mudanças no padrão de movimentação dos olhos.

“Embora não aconteça nenhum controle consciente, os nossos olhos atuam segundo um modelo que chamamos de janela de fixação. O sistema nervoso trabalha dentro de uma certa amplitude”, diz Barela. “Ao lermos um texto, não conseguimos olhar para a linha toda. Vamos capturando pedacinho por pedacinho”, diz. Porém, as crianças do estudo conseguiram mudar esse padrão e passaram a ler mais rapidamente, por necessitarem de menos tempo para fixar o texto e obter a informação.

A Cátedra resultou na publicação de diversos artigos de autoria dos pesquisadores e também de capítulos no livro Perception–action coupling: from posture and gaze to cognition and clinical applications. Também abriu caminho para um intercâmbio de mestrandos e doutorandos apoiados por bolsas da CAPES e da Fapesp, embora as viagens não estejam diretamente relacionadas ao Programa.

A iniciativa contribuiu também para o desenvolvimento de um projeto de extensão em Rio Claro destinado a crianças com dificuldade de aprendizagem e/ou dislexia, que usa metodologias de intervenção sensório-motora, como corrida e manuseio de bola, para aprimorar a capacidade cognitiva e a velocidade de leitura.

Estudo na Amazônia para beneficiar os dois países

Fernando Luiz Pio dos Santos, professor do Departamento de Biodiversidade e Bioestatística do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Botucatu, se prepara para o seu primeiro intercâmbio por intermédio do Programa de Cátedras Franco-Brasileiras no Estado de São Paulo.

O pesquisador mantém relações com estudiosos da Universidade da Guiana Francesa, trocando figurinhas sobre modelos computacionais capazes de prever a dinâmica da Floresta Amazônica. Entre maio e junho de 2026, a Unesp recebeu o professor Abdennebi Omrane. Pio dos Santos prepara-se para viajar à França em novembro próximo.

Estima-se que cerca de 96% da área da Guiana Francesa seja ocupada pela Floresta Amazônica. Nos demais 4% do território vive a população local. Atualmente, o país enfrenta um processo de crescimento populacional acelerado. A previsão é de que haverá um aumento correspondente na demanda por insumos como a madeira, que é a base para a expansão residencial.

“O crescimento populacional gera essa necessidade por madeira. Mas a floresta é protegida”, diz o docente. “Então, a Guiana Francesa tem buscado respostas evitando ‘achismos’ e recorrendo ao auxílio de pesquisadores para assegurar uma abordagem científica”, conta.

A extração de madeira é permitida em uma dada região da Guiana Francesa. O desafio dos pesquisadores é elaborar modelos matemáticos que demonstrem o melhor momento para realizar o corte, de forma que ele possa ser benéfico para o crescimento de plantas jovens.

Esses modelos devem considerar, por exemplo, o momento a partir do qual as árvores adultas terminam por prejudicar o desenvolvimento das mais novas ao bloquearem a passagem de luz ou roubarem nutrientes, por exemplo. “Tem um modelo matemático e colocamos um parâmetro de controle, que vai determinar o tempo certo de corte e a quantidade de árvores a serem extraídas desse local fixo para a obtenção de madeira que a população da Guiana Francesa necessita para a construção das casas”, relata.

O professor destaca a importância das Cátedras para a internacionalização da Unesp, uma vez que a parceria permite a vinda de cientistas estrangeiros ao País e possibilita muitas vias para trocas acadêmicas entre discentes e docentes. E sustenta que embora o campo dos estudos fique no Departamento Francês, também o Brasil será beneficiado, uma vez que o conhecimento gerado vai aperfeiçoar o manejo e a preservação da Floresta Amazônica. “Essa tecnologia poderá ser aplicada aqui também. Ela pertence às duas universidades, e aos dois países”, defende Pio.

Imagem acima: Fernando Luiz Pio dos Santos, do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Botucatu, acompanha explicação do professor Abdennebi Omrane, da Universidade da Guiana Francesa.