Em entrevista ao podcast Universo Profissional, Stela Virgilio narra sua jornada da universidade ao mundo das startups

Pesquisadora fala dos aprendizados durante a pós-graduação no Instituto de Química que ampliaram suas conexões internacionais e de sua trajetória até se tornar CEO e diretora de empresas de biotecnologia.

Estabelecer pontes unindo o rigoroso ambiente da pesquisa acadêmica e o dinâmico universo do mercado corporativo é algo desafiador, porém essencial para qualquer país que ambiciona deslanchar suas indústrias de desenvolvimento tecnológico. Um dos exemplos dessa aproximação, que gradualmente mobiliza as novas gerações de cientistas no Brasil, é a trajetória de Stela Virgílio, egressa da pós-graduação do Instituto de Química .

Especialista em biotecnologia, ela uniu a paixão pela biologia molecular ao seu tino para negócios. Hoje ela é CEO da ByMyCell, startup da qual é cofundadora, onde está à frente de iniciativas que aplicam a análise genômica diretamente ao terreno da agricultura de precisão.

Stela iniciou sua formação técnica durante o curso de graduação em Biotecnologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Esta etapa incluiu uma primeira experiência internacional, na forma de um intercâmbio na Universidad Nacional de Tucumán, na Argentina. Foi na pós-graduação, porém, que sua carreira científica ganhou musculatura.

Stela ingressou no Instituto de Química (IQ), no câmpus de Araraquara. Lá cursou seu mestrado e seu doutorado em Biotecnologia, concluídos, respectivamente, em 2012 e 2016. Durante o doutorado, expandiu suas conexões científicas ao realizar um período sanduíche no Departamento de Biologia da Texas A&M University, nos Estados Unidos.

Durante seus anos no IQ, ela pôde se aprofundar nas áreas de biologia molecular e microbiologia e refinar as técnicas de sequenciamento e análise que, anos mais tarde, se tornariam a espinha dorsal de sua própria empresa.

“Me interesso por este tema desde que me aproximei do universo da biotecnologia. Passou pelos filmes de ficção que assisti, as disciplinas que encontrei na graduação e minhas pesquisas e estudos nessa área”, diz ela.

Durante a graduação, a então estudante fez iniciação científica, e a experiência trouxe um importante estímulo para continuar a se envolver com a pesquisa acadêmica depois de formada. “Busquei uma pós-graduação em biotecnologia. Como sou de Araraquara, logicamente foi muito bom estar na minha cidade e encontrar, no Instituto de Química, tanto um curso de química quanto um curso de biotecnologia para pós-graduação”, relata a egressa da Unesp.

Stela Virgílio

Efetivamente, as aulas e pesquisas que ela podia acompanhar tratavam de suas áreas de interesse, abordando microrganismos e biologia molecular. Na pós-graduação, ela conheceu a docente Maria Célia Bertolini. A professora atuava nas áreas de biologia molecular e bioquímica e dirigia um laboratório muito bem equipado do câmpus.

Stela então cursou os dois anos de mestrado e os quatro de doutorado sob orientação de Bertolini. Ela destaca as muitas oportunidades de desenvolvimento científico que a pós-graduação lhe abriu.

“Primeiro, participei de eventos nacionais. A gente levava pôsteres e fazia apresentações, começava a mostrar o desenvolvimento científico e a trabalhar a argumentação sobre o trabalho. Isso era muito legal. No doutorado, tive oportunidades internacionais. Graças às conexões do professor da linha de pesquisa onde eu estudava, consegui uma bolsa de doutorado sanduíche para estudar fora do país”, conta.

Na pós, além do conhecimento técnico, ela deu atenção também às disciplinas que tratavam de empreendedorismo. Também acompanhava as conexões que os professores da pós-graduação tinham com empresas e ações de empreendedorismo, tanto no Brasil quanto no exterior. “A pós-graduação na Unesp me propiciou experiências voltadas para o mercado de trabalho e foi fundamental para que eu chegasse onde estou hoje”, diz.

A consolidação da ByMyCell

Enquanto sua carreira acadêmica avançava, Stela sentia crescer sua expectativa de transformar o conhecimento gerado dentro dos laboratórios em soluções práticas e comerciais para a sociedade.

Percebendo que a ciência precisava falar a língua do mercado, a pesquisadora buscou qualificação executiva. Isso a levou a cursar um MBA em Gestão de Empresas, concluído em 2022. Essa fusão entre a mentalidade analítica de uma doutora e as competências de gestão estratégica pavimentou o terreno para o nascimento de sua faceta empreendedora.

Em 2021, junto com seus sócios, Stela fundou a ByMyCell, uma biotech focada em aumentar a eficiência e o acesso à genômica e à bioinformática. Sediada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, a empresa nasceu com o propósito de aproximar a alta tecnologia do agronegócio e do ecossistema de pesquisa.

Sob a liderança de Stela, a ByMyCell tem se destacado na aplicação da pesquisa genômica à análise de solos e à agricultura de precisão. O portfólio da empresa permite que produtores rurais e empresas do setor compreendam a biodiversidade microbiológica do campo, otimizando o uso de bioinsumos e impulsionando a produtividade de forma sustentável.

Em sua busca por aperfeiçoamento técnico, ela passou a trabalhar com o sequenciamento de DNA. Essa metodologia era usada de forma complementar à clonagem de microrganismos. Funcionava assim: os pesquisadores procediam à clonagem de fungos. Posteriormente, era preciso sequenciar o DNA para assegurar que o procedimento de clonagem fora bem-sucedido. Porém, essa etapa quase não era feita no país. Frequentemente, os pesquisadores tinham que encaminhar seus experimentos para laboratórios na China e na Coreia.

“Poucas empresas ofereciam esse serviço no Brasil. Em especial, o sequenciamento voltado à identificação de microrganismos. Quando fazia pós-doutorado, tive muita proximidade com um hub de inovação em Ribeirão Preto, o SUPERA Parque de Tecnologia. O SUPERA oferece diferentes serviços e produtos ao mercado. Normalmente, eles são oferecidos por deep techs, ou seja, empresas de base tecnológica cujos fundadores vieram das universidades. E eu fui convidada a cofundar essa empresa de biotecnologia”, conta.

“Nesse sentido, toda a minha formação foi em biotecnologia, na graduação, na pós-graduação e agora dentro da empresa, continuando o estudo de microrganismos.”

A empresa, explica ela, é focada no sequenciamento do DNA de microrganismos para identificação. Isso envolve trabalhar com as diversas comunidades bacterianas e fúngicas que podem ser encontradas em amostras de solo, amostras de bioprocessos e outras variedades de materiais.

“Muitos dos meus clientes hoje são colegas de pesquisa que se tornaram professores. Ou pesquisadores fazendo o seu doutorado, pós-doutorado, ou que atuam em alguma empresa onde fazem P&D. Também atendemos alguns nichos específicos, porque desenvolvemos alguns serviços específicos: para o agro, para indústrias, para veterinários e para a parte de saúde humana. Mas mantendo o foco no que nós chamamos de genômica, que é esse sequenciamento de DNA”, explica Stela.

Atuação em outras empresas

Hoje, além de estar à frente da ByMyCell, Stela expandiu sua atuação no mercado corporativo de biotecnologia como diretora administrativa da BlackGenn e sócia da Biotech Innovation. Essa inserção lhe permite participar ativamente do desenvolvimento de parcerias estratégicas no setor.

A trajetória de Stela Virgílio é o reflexo de uma nova geração de cientistas brasileiros. Eles não querem se limitar ao universo das publicações científicas e utilizam a bagagem que receberam nas maiores universidades do país para gerar empregos, renda e tecnologias disruptivas.

“Sou muito grata por todas as portas que foram abertas e às pessoas com quem me conectei. Tudo isso me trouxe para o caminho que trilhei e o sucesso que alcancei hoje”, diz. Suas conquistas vieram após anos de esforços e dedicação, ressalta ela. Mas isso em nada diminui a contribuição dos profissionais junto aos quais recebeu sua formação técnica.

“A gente sempre tem um olhar de muito carinho para os líderes, os mestres que passaram por toda essa jornada. Principalmente os professores e os pesquisadores. Isso é muito importante. Nunca parem de estudar, de buscar novos cursos e de buscar aprimoramento. As coisas evoluem, e nós devemos seguir com persistência”, diz Stela.

Confira abaixo a entrevista completa no podcast Universo Profissional.