Prática musical pode melhorar atenção e maturidade social de crianças, aponta pesquisa da Unesp

Estudos sobre os efeitos cognitivos e comportamentais do envolvimento com a arte estão na raiz do Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música, sediado no IA. Novo trabalho vai adotar uma perspectiva interdisciplinar para investigar benefícios à saúde mental de jovens de comunidades carentes.

Quem tem olhos e ouvidos abertos consegue perceber a ubiquidade da música ao nosso redor. Ela marca presença tanto em eventos especiais, como festas e cerimônias, quanto em nossos deslocamentos do dia a dia, que nos dão a oportunidade de relaxar ouvindo melodias nos fones do celular ou no rádio do carro. Mas tocar um instrumento impacta o nosso cérebro de forma diferente de apenas ouvir música. E pesquisas estão mostrando que esses impactos podem se transformar em uma influência duradoura e positiva sobre o comportamento de jovens. É o que mostra o trabalho da musicista, pesquisadora e docente do Instituto de Artes da Unesp Graziela Bortz.

Como um desdobramento de suas pesquisas, Graziela tornou-se coordenadora do Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música (CiDPMus), que foi criado em 2025. Trata-se do sétimo Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), programa financiado pela Fapesp, com sede na Unesp.

Muitos estudos já demonstraram que a prática de um instrumento está associada a um aumento dos níveis de dopamina no cérebro. Esse é o neurotransmissor que atua na regulação do prazer, da motivação, do movimento e do sistema de recompensa, promovendo um estado de relaxamento após a prática.

Esse relaxamento pode beneficiar adultos e crianças. No caso dos pequenos, porém, a atividade musical parece resultar em uma melhora na adaptação ao ambiente escolar e auxiliar no bom desempenho em disciplinas como português e matemática. Tal relação de causa e efeito já havia sido apontada em estudos anteriores, com a aprendizagem de instrumentos se mostrando uma ferramenta auxiliar para o desenvolvimento das funções executivas das crianças. Tais funções nada mais são do que processos mentais do córtex pré-frontal relacionados ao raciocínio, à capacidade de resolução de problemas, à fluência verbal, à atenção e às habilidades sociais.

Cortes dificultam acesso à música, sempre

Em 2017, Bortz observou um aumento dos cortes orçamentários no setor artístico, o que dificultava o acesso da população à música e, consequentemente, a todos os seus benefícios. À época, essa constatação incomodou a docente. “A prática musical é vista como um ornamento na vida humana, quando na verdade ela é uma necessidade. Não à toa, todas as culturas praticam a música”, pontua.

Aquele cenário motivou-a a arquitetar um estudo na área que demonstrasse a importância da prática musical, sobretudo para o público infantil. A ideia era medir as habilidades cognitivas dos alunos e compará-las com as de jovens não envolvidos com a música. O estudo foi viabilizado em 2019, após a aprovação de financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e contou com o auxílio de outras instituições nacionais e internacionais.

Interessada em atrair voluntários para a investigação, Bortz iniciou conversas com os gestores do Projeto GURI, um programa sociocultural de educação musical do Brasil mantido pelo Governo do Estado de São Paulo e gerido pela Santa Marcelina Cultura.

A escolha pelo GURI tem relação com o trabalho realizado por assistentes sociais dentro do projeto. Esse contato favoreceria a aproximação com as famílias e, consequentemente, um maior engajamento dos responsáveis, facilitando as trocas recorrentes e o retorno da pesquisa à sociedade.

“Naquele momento, conduzimos as medições usando questionários ou testes psicométricos. Aplicamos questionários que avaliavam habilidades sociais e desabilidades e alguns testes de atenção, principalmente”, conta a pesquisadora. “Conseguimos observar que o grupo que estudava música se saía melhor em alguns tipos de atenção, principalmente a atenção alternada”, conta ela. Atenção alternada é a capacidade de mudar o foco da atenção entre diferentes tarefas ou estímulos. “Os jovens músicos também apresentavam um nível um pouco maior de maturidade social”, relata.

Participaram do estudo 37 crianças de 5 a 8 anos do Programa GURI que frequentaram aulas de música em comunidades carentes de São Paulo uma vez por semana durante sete meses. Os resultados foram comparados com os dados de 61 crianças da mesma localidade, com idades de 6 a 7 anos. O estudo foi chamado pela pesquisadora de “quase-experimental”, pois a separação dos voluntários não foi feita às cegas.

“Por não podermos sortear, precisamos adotar algumas escalas complementares, que são as chamadas escalas de controle”, diz. Entram nesta seara um questionário para determinar as características socioeconômicas de cada participante e também comparações em termos de idade e gênero. Outra escala media a exposição à música. “Queríamos entender se a criança foi realmente influenciada pelo treinamento que recebeu ou se já possuía propensões”, explica Bortz. Além de questionários e entrevistas, foram feitos exames de ressonância magnética com as crianças. Os resultados do estudo foram publicados na revista PLOS One.

Processo de dessensibilização infantil para fazer o exame de ressonância magnética. Créditos: Graziela Bortz/Arquivo pessoal

A pandemia de covid-19, declarada em 2020, atrapalhou parte do estudo. “Iniciamos os testes, mas com a chegada da covid tivemos que parar. Quando retomamos, em 2022, muitos pais ainda estavam com medo de que as crianças voltassem plenamente às aulas, e a adesão foi muito menor”, relata Bortz. Essa quebra impediu que o número amostral de participantes fosse estatisticamente significativo para sustentar os resultados, embora tenha sido observada uma melhora nos estudantes de música.

Nova fase do projeto é interdisciplinar

Enquanto alguns faziam pães durante a pandemia, outros se aventuravam na aprendizagem de novos instrumentos. Aqueles já envolvidos no meio musical destinavam parte de seu tempo à mixagem de áudios, à organização de concertos online e às trocas via chamada de vídeo com outros profissionais, buscando, assim, preencher um vazio que o momento deixava.

Bortz acredita que a música atuou nesse período como “um remédio para a solidão”. Essa hipótese motivou uma nova fase da pesquisa, agora mais ampla e também com foco na saúde mental. O estudo está sendo conduzido no CiDPMus, sediado no Instituto de Artes.

Além do Projeto Guri, a nova etapa inclui também a Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp Tom Jobim), também ligada ao Governo do Estado de São Paulo e gerida em parceria com a Santa Marcelina Cultura. Agora, devem ser envolvidos 4 mil adolescentes e jovens que frequentam aulas dos programas no interior (Bauru, Presidente Prudente e São Carlos) e na capital, sendo consideradas idades diversas, de 13 a 28 anos.

“Esse estudo adota uma perspectiva interdisciplinar. O trabalho anterior adotava uma metodologia da psicologia experimental. Agora, temos psicólogos, estatísticos, médicos neurologistas e psiquiatras. Parte dos voluntários também deve realizar exames de ressonância magnética, o que também foi feito na fase anterior”, relata Bortz.

O estudo é feito em parceria com diversas instituições, como a Universidade Federal de Santa Maria, a Universidade Estadual de Londrina, a UFABC, a UFSCar, a USP, a Universidade de Ostfold (Noruega), a University of Southern California e a Indiana University (as duas últimas dos Estados Unidos).

Além do número expressivo de voluntários, a pesquisa também pode ser definida como longitudinal, pois os jovens envolvidos serão acompanhados ao longo de três anos, com resultados sendo publicados no decorrer do tempo. No segundo semestre de 2026, o CiDPMus deve começar a testar a escala de exposição musical dos voluntários, buscando alinhar expectativas para o andamento do estudo. No próximo ano, será dado início ao experimento.

“Dentro da universidade, as ciências exatas, biológicas e mesmo as ciências humanas já têm uma metodologia muito consolidada de pesquisa científica. As artes são muito conhecidas por si mesmas, pela expressão artística, mas há pouco conhecimento de pesquisas feitas sobre a produção artística”, reflete Bortz.

“Em geral, em tempos de falta de dinheiro, as aulas de educação artística e educação esportiva são as primeiras que os gestores pensam em cortar. Mas é importante considerarmos que essas atividades vêm sendo praticadas ao longo de toda a história da humanidade. Isso é um sinal de que precisamos delas”, diz ela.

Imagem acima: Banda de jazz do Projeto GURI faz apresentação durante evento de lançamento do CiDPMus na Reitoria da Unesp. Créditos: Fabio Mazzitelli/ACI.