O ano de 2026 é especial para a TV Unesp e a Rádio Unesp. Em maio, a rádio comemorou seus 35 anos no ar, e em novembro próximo será a vez de a emissora de televisão festejar 15 anos de atividades.
Celebrar essas datas é também reconhecer o trabalho dos homens e mulheres que ajudaram a construir a história dos dois veículos. Para alguns deles, essa trajetória teve início antes mesmo que o primeiro programa de rádio ou de televisão fosse ao ar. Entre esses profissionais estão os operadores de áudio Sylvestre de Oliveira e Paulo José Prestes.
Desde os anos 1970, Sylvestre de Oliveira circulava pelas emissoras de Bauru e convivia com nomes que se tornariam conhecidos posteriormente, como o apresentador Gilberto Barros. As histórias e anedotas que ele testemunhou, ao longo de quase cinco décadas de carreira, deliciam aqueles que podem visitá-lo no estúdio de gravação da Rádio Unesp FM, seu local de trabalho.
A primeira experiência no rádio foi na função de cobrador de anúncios, na antiga Rádio 710 AM. Mas o interesse e a vontade de aprender logo o levaram à operação de áudio, atividade que desempenhou também na Bauru Rádio Clube e na Rádio Auriverde, na década de 1980.
Oliveira relata que tinha planos de ir para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades, quando viu a divulgação do concurso para a Rádio Unesp FM. “Quando eu vi o edital, pensei: é para mim! É uma possibilidade única de adquirir cultura, conviver com intelectuais e alcançar tudo o que eu desejo como profissional na área de rádio”, conta.
Passar na seleção era um desafio. A primeira dificuldade envolvia o deslocamento para a cidade de São Paulo, onde ocorreria o processo seletivo. “Financeiramente, era difícil. Eu ganhava pouco mais de um salário mínimo. E eram quatro provas, ou seja, quatro viagens”, relembra.
Antes de viajar para participar da segunda avaliação, a prova prática, Oliveira estava com um amigo em um salão de cabeleireiro. Lá, desabafou que não poderia viajar para fazer a prova por falta de dinheiro. “Ele pegou tudo o que recebeu dos cortes daquele dia, me passou e disse: ‘Vai lá fazer a sua prova’. Eu nunca me esqueci. Até hoje corto o cabelo com ele, somos amigos. Sempre que ele precisa, retribuo por gratidão”, diz.
Graças à experiência que acumulava, Oliveira encontrou facilidade para fazer a prova prática, que ocorreu na Rádio USP. “Quando entrei no estúdio e vi equipamentos que já tinha usado, fiquei confiante. Mas tremia e não era só de nervoso”, diz. Por trás dos tremores estava a fome: é que a avaliação, agendada para as 10h, só ocorreu às 16h. “Estava com muita fome. Como o dinheiro era curto, tinha almoçado só um cachorro-quente.”
O concurso ofertava cinco vagas para a função de operador de áudio. Oliveira ficou na quarta colocação.

O trabalho na Rádio Unesp FM
Oliveira chegou à Unesp FM em 5 de julho de 1990. Surpreendeu-se com a infraestrutura, muito superior à das emissoras pelas quais tinha passado, e também com o nível dos profissionais. “Vieram trabalhar aqui somente pessoas experientes, que já atuavam no mercado de rádio aqui da cidade”, diz.
Ele já estava na técnica em 13 de maio de 1991, há 35 anos, quando a Unesp FM foi ao ar pela primeira vez. O projeto foi idealizado pelo professor Antonio Carlos de Jesus, da então Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (atualmente Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design). A emissora integrava o Centro de Rádio e Televisão Cultural e Educativo (CRTVE) da Universidade, que foi criado em 1988. Naquele mesmo ano, a Universidade de Bauru foi encampada pela Unesp. Anos mais tarde, Jesus também fundaria a TV Unesp.

Oliveira acompanhou todo o processo de consolidação da emissora. Em paralelo à sua atuação como operador de áudio, também aproveitou para se desenvolver nos estudos. “A rádio me deu condição de voltar a estudar, porque só tinha o ensino médio. Tive a oportunidade de fazer um curso tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas”, relata.
Também aventurou-se em outras funções. Foi coordenador de programação por nove anos. Comandou o programa semanal de samba Batuque na Cozinha. E, por um período de dois meses, assumiu até a direção do CRTVE e da própria Rádio Unesp, durante uma troca de diretores.
“Sou o mais velho de oito irmãos e sempre cuidei deles. Quando cheguei aqui, só queria trabalhar para cuidar da minha família”, diz. “Mas, desde então, aconteceram coisas inesperadas. Fui coordenador de programação. Comecei a apresentar um programa, que é uma coisa linda. E minha vida mudou, cultural e profissionalmente. Até a minha família teve conquistas ligadas a essa minha trajetória na Universidade. A Unesp é tudo para mim, tenho muita gratidão a ela”, diz.
Desde o princípio, a rádio se destacava por oferecer uma programação musical variada e conteúdo jornalístico de qualidade para a cidade de Bauru e região. Depois, com a chegada da internet e do streaming, o potencial de ouvintes superou as limitações geográficas do sinal das antenas. Mas o nascimento da comunicação digital suscitou também muitas preocupações.
“A gente achava, lá atrás, que o rádio iria acabar”, diz ele. “Mas não foi o que aconteceu. As pessoas ainda ouvem o rádio. No carro, pela internet, o rádio se mantém.”
O próximo objetivo, considera o operador, deve ser a conquista de novos públicos. “A nossa programação é muito rica, com uma variedade de gêneros que não se encontra com facilidade. E, por ser universitária, ainda conseguimos manter essa grade. O nosso desafio é chamar a atenção dos jovens”, diz.
Da Rádio para a TV Unesp
O operador de áudio Paulo José Prestes, mais conhecido como PJ, também esteve entre os integrantes da primeira turma de funcionários contratados para colocar a Rádio Unesp FM no ar. Mas foi na TV Unesp que ele se consolidou como uma referência profissional no audiovisual da região.
Ele se lembra do dia em que a rádio Unesp FM “nasceu”, por ocasião dos primeiros testes para a transmissão do sinal. “Era um domingo. Estava em casa e o diretor técnico da rádio ligou. Disse que queria fazer um teste, e veio me buscar. Quando chegamos à rádio, escolhi um disco, preparei o toca-discos e um microfone. Assim que foi autorizado, abri o áudio e passei o microfone para que o locutor falasse o prefixo da emissora. Em seguida, começamos a tocar as músicas daquele vinil. A partir daquele momento, a Rádio Unesp FM estava no ar, em caráter experimental”, conta.

PJ também era uma figura conhecida entre as emissoras de rádio bauruenses. Começou a trabalhar aos 15 anos, também na antiga Rádio 710 AM. Em 1983, integrou a equipe que colocou a Rádio Cidade (hoje, 96 FM) no ar. Em 1985, fez parte da primeira turma do curso de Locução do Senac local.
“Já tinha a experiência de colocar uma emissora comercial no ar. Mas a Rádio Unesp era algo diferente. Era uma emissora ligada à Universidade, voltada à divulgação de pesquisas. Isso era muito novo para o cenário bauruense, acostumado apenas às rádios comerciais”, recorda.
Após cinco anos trabalhando na Rádio Unesp FM, PJ decidiu se dedicar a um projeto pessoal. Deixou a emissora para montar um estúdio de gravação próprio. Não imaginava que voltaria a trabalhar na Universidade alguns anos depois, novamente como operador de áudio, mas, desta vez, para a TV Unesp.
“Tinha feito alguns trabalhos de áudio para televisão no meu estúdio e queria ter uma experiência maior em TV. Quando vi o edital, decidi prestar e fui aprovado”, conta PJ.

O processo seletivo foi realizado em 2008 e a contratação ocorreu em 24 de abril de 2009. Nesse período, o atual prédio da TV Unesp, localizado fora do câmpus, ainda estava em fase de finalização. Para receber os cerca de 10 profissionais da área técnica que foram inicialmente contratados, foi disponibilizada uma sala na Rádio Unesp FM. E PJ voltou a conviver com os antigos colegas de trabalho. “Como eu conhecia todo mundo, circulava pelos diferentes espaços e convivia com os outros operadores de áudio. Levou aproximadamente três meses até irmos para o prédio da TV Unesp”, diz.
Quando chegou à emissora de televisão, PJ entendeu o tamanho do desafio que assumia. “Fiquei assustado. Entrei no estúdio e tinha uma pilha enorme de equipamentos, todos ainda encaixotados. A gente ia ter que abrir, montar e tentar entender para que cada um deles servia”, recorda. A partir daquele momento, envolveu-se na montagem de toda a infraestrutura técnica da emissora.
A primeira transmissão, no entanto, só ocorreria dois anos depois, em 4 de novembro de 2011. Ao longo desse período, a apreensão inicial foi dando espaço à motivação.
“Eram todos equipamentos de ponta. Enquanto, naquela época, entre 2008 e 2009, as emissoras locais operavam com equipamentos analógicos, nós tínhamos equipamentos para transmissão digital em alta definição. Já entramos no ar em sinal digital”, diz.
Até então, PJ nunca tinha operado uma mesa de som digital. Foi preciso investir tempo e dedicação para aprender. “Não foi nada fácil. Fazendo uma comparação simples, era como estar dirigindo um carro manual e, de uma hora para outra, ter que assumir a direção de um automático. Mas foi uma experiência maravilhosa, de muito crescimento”, diz.
Ao longo dos seus 16 anos de atividades na TV Unesp, PJ experimentou outras situações que lhe proporcionaram novos aprendizados. Foi chamado a desempenhar outras funções, como operar a central técnica, onde são controlados os sinais das câmeras durante os momentos de gravação e transmissão ao vivo, e o controle mestre, responsável por colocar a programação no ar.
Em todos este papéis, pode acompanhar de perto empenho da equipe para desenvolver programas jornalísticos e informativos. O objetivo da programação era tanto levar à comunidade externa as ações e pesquisas realizadas na Unesp como informar o público interno sobre as ações institucionais da Universidade.
Ele diz que a sensação de ver a TV Unesp no ar naquele 4 de novembro foi semelhante à de testemunhar o nascimento da Rádio Unesp FM. “Eu me lembro que, quando abri o áudio da primeira transmissão da TV Unesp, me senti parte de mais uma ação pioneira da Universidade. Lembro de ter pensado: ‘Nossa, estou fazendo história mais uma vez!’”.
