Da Unesp para o espaço: conheça os docentes cujos nomes foram eternizados por asteroides

Desde 2017, nove professores da Universidade batizaram pequenos corpos do Cinturão de Asteroides. A cada três anos, a União Astronômica Internacional oficializa a homenagem, que destaca cientistas por seus estudos do Sistema Solar.

Quem estuda os planetas do Sistema Solar aprende, indiretamente, um pouco de mitologia. Ou melhor, de mitologias. Embora as designações de quase todos os grandes corpos celestes próximos a nós remetam ao panteão romano, de Mercúrio a Plutão, basta ampliar o horizonte para encontrar também referências a divindades havaianas e da Ilha da Páscoa. Um olhar mais atento para nossa vizinhança cósmica, porém, revela um universo de nomes muito mais amplo, povoado por personagens de ficção, lugares, vultos históricos e cientistas — entre eles, nove professores da Unesp.

A imensa maioria dos nomes não mitológicos está associada a uma região, o cinturão de asteroides. Estima-se que o total de objetos situados lá com tamanhos um pouco superiores a 1 km de diâmetro possa beirar os dois milhões. As descobertas de novos asteroides ocorrem continuamente desde o século 19 e atribuir um nome próprio a cada um tornou-se uma tarefa que demanda tanto organização quanto criatividade.

O primeiro asteroide cujo nome escapa do universo da mitologia latina é o 20 Massalia, descoberto em 1852. A escolha homenageou a cidade de Marselha, na França. O 45 Eugenia foi o primeiro asteroide a receber o nome de uma pessoa, a imperatriz Eugénie de Montijo. A primeira homenagem a um cientista veio em 1923, com a nomeação do 1000 Piazzia, uma referência a Giuseppe Piazzi (1746–1826), que foi diretor dos observatórios de Palermo e Nápoles.

Desde 1983, pesquisadores de todo o mundo se reúnem trienalmente na conferência internacional Asteroides, Cometas e Meteoros (ACM, na sigla em inglês). Ao longo de uma semana, discutem-se observações, avanços de pesquisas e questões ainda em aberto. Além de reunir a comunidade do campo, o evento tem como costume um jantar de encerramento, momento marcado pelo anúncio de uma lista de cientistas que serão homenageados ao dar seus nomes a asteroides, como forma de reconhecimento à trajetória e às contribuições desses pesquisadores.

Em 2026, dois pesquisadores recém-contratados da Faculdade de Engenharia e Ciências, câmpus de Guaratinguetá, passaram a integrar essa lista. A homenagem foi uma surpresa tanto para Thamiris de Santana quanto para Rafael Ribeiro de Sousa. Ambos acreditavam que, por integrarem o corpo docente há pouco tempo e estarem relativamente no início da carreira científica, ainda teriam muita estrada para caminhar antes de verem um reconhecimento desse tipo. Porém, foi com alegria que Thamiris foi surpreendida ao ver seu nome projetado no telão, em meio a um jantar pomposo em Poznan, na Polônia.

“Eu estava gravando, porque eu sabia que eventualmente ia aparecer alguém conhecido, e essa é a brincadeira, encontrar os nomes que você reconhece”, relata Thamiris. “Eu estava muito contente acompanhando os nomes que eu reconhecia e aí apareceu o meu nome, sem eu estar esperando. Alguns colegas já sabiam e esconderam. Foi muito emocionante”, diz.

O asteroide de Thamiris é o 2000 AP186, descoberto em 8 de agosto de 2000 pelo projeto LINEAR no Novo México, Estados Unidos. Esse é um objeto considerado grande, com 7,7 km de diâmetro, localizado no cinturão principal de asteroides, entre as órbitas de Marte e Júpiter. Agora, esse corpo rochoso é oficialmente nomeado (20748) Thamirissantana, em homenagem às suas contribuições científicas ao estudo de pequenos corpos do Sistema Solar, em particular no campo das ressonâncias orbitais entre satélites naturais e da evolução dinâmica de longo prazo de pequenos corpos.

Certificado com a nomeação do asteroide. 2026 foi o primeiro ano que os homenageados ganharam um certificado com as informações e detalhes do reconhecimento.
Crédito: Thamiris de Santana

Rafael não pôde estar presente no jantar, mas foi prontamente comunicado por colegas quando seu nome apareceu no telão. “Foi algo completamente inesperado, mas eu fiquei muito feliz e motivado para continuar trabalhando na área”, diz. “Esse prêmio mostra que estamos fazendo um trabalho que vai deixar um legado. Imagina, o asteroide com o meu nome provavelmente vai ficar por aí até o fim do Sistema Solar. Essa é a mágica dessa homenagem”, completa.

O asteroide 1999 RT199, agora conhecido como (20603) Rafaelribeiro, compartilha algumas similaridades com o (20748) Thamirissantana. Descoberto em 1999, também pelo projeto LINEAR, o objeto conta com 7,5 km de diâmetro e está localizado no cinturão principal de asteroides. Rafael destaca que sua órbita tem uma excentricidade baixa, ou seja, ela é pouco alongada, ficando próxima de uma órbita circular. “Isso significa que, provavelmente, ele deve ficar nessa região por um bom tempo. Ele não vai ser um desses asteroides que podem escapar, passar próximo da Terra ou mesmo colidir com nosso planeta”, brinca.

A homenagem veio em reconhecimento às suas contribuições para a astronomia dinâmica e para o estudo de pequenos corpos do Sistema Solar. O destaque foi para suas pesquisas sobre a instabilidade inicial dos planetas gigantes, a origem dinâmica do planeta anão Ceres e a evolução dos asteroides.

O processo de escolha dos nomes

A nomeação de um asteroide é a etapa final de um longo processo que pode levar décadas para ser concluído. Tudo começa quando o asteroide é observado pela primeira vez em duas noites consecutivas por um mesmo observador. Esses dados são então enviados ao Minor Planet Center (MPC), da União Astronômica Internacional (IAU), que atribui uma designação provisória ao objeto. Normalmente, trata-se de uma combinação de números e letras, como 2000 AP186, que indica o ano da descoberta e informações como o mês e os dias do achado. O número permanente, porém, só é designado depois que a órbita do objeto é calculada com precisão um processo que, dependendo do asteroide, pode levar anos para ser realizado.

Com o número permanente definido, o asteroide está pronto para receber um nome. Isso pode ocorrer de diferentes formas: como uma homenagem, como ocorre no congresso ACM, ou como sugestão do astrônomo responsável por identificar as informações que permitem o cálculo da órbita. Independentemente do processo, a palavra final é do Comitê de Nomeação de Corpos Pequenos, da União Astronômica Internacional. É esse órgão que irá analisar as propostas, aprová-las e oficializar a nova nomenclatura.

Os primeiros asteroides descobertos, ainda no século 19, também receberam títulos em referência a personagens da mitologia clássica, como Ceres, a deusa romana da agricultura, e Juno, rainha dos deuses, na mitologia romana.

Muitos planetas menores remetem a cientistas ou instituições renomadas, como 2000 Herschel, em homenagem a William Herschel, descobridor de Urano; 3000 Leonardo, em homenagem a Leonardo da Vinci; e 4000 Hipparchus, em homenagem ao antigo astrônomo grego Hiparco. A sequência continuou com 5000 IAU, dedicado à União Astronômica Internacional; 6000 United Nations, às Nações Unidas; 7000 Curie, a Marie e Pierre Curie; e 8000 Isaac Newton, a Isaac Newton.

Também existem exemplos de nomes mais incomuns ou bem-humorados, como o (7758) Poulanderson (em homenagem a um autor de ficção científica), o (8749) Beatles (em referência ao grupo musical britânico dos anos 1960) e o (5460) Tsenaat’a’i (que significa “rocha voadora” na língua navajo).

Uma tradição de homenagens

A primeira vez que professores da Unesp deram seus nomes a asteroides foi em 2017, na edição da ACM realizada em Montevidéu, no Uruguai. Na noite do dia 14 de abril, os pesquisadores Silvia Giuliatti Winter, Othon Winter e Valerio Carruba, todos da Faculdade de Engenharia da Unesp, câmpus de Guaratinguetá, foram homenageados com os asteroides (10741) Valeriocarruba, (10696) Giuliattiwinter e (10697) Othonwinter.

O reconhecimento de Carruba veio por conta dos seus estudos sobre famílias de asteroides. Atualmente, o docente coordena o grupo de pesquisa MASB (Machine Learning applied to Small Bodies), que tem como foco a utilização de inteligência artificial para a classificação de asteroides. Em pesquisas mais recentes, Carruba participou de desenvolvimentos que permitiram reduzir de meses para segundos a análise e classificação de pequenos corpos. Esse avanço coincide com um momento de expansão da pesquisa em astronomia, marcado por grandes experimentos em funcionamento, como o telescópio Vera Rubin, que, estima-se, irá descobrir cerca de 38 bilhões de novos objetos ao longo dos seus dez anos de operação.

Othon lembra com carinho da noite da homenagem: “Era um clima de festa. Até então, nenhum professor da Unesp tinha recebido essa homenagem, então, quando vi o nome do Carruba, fiquei super feliz; ali eu já ganhei a noite”, lembra. Os nomes costumam ser anunciados em ordem alfabética pelo sobrenome, então Othon não imaginava que, perto do fim, ele veria projetados seu nome e o da pesquisadora Silvia Giuliatti Winter, sua esposa. “Quando falaram os nomes, anunciaram nossos dois nomes juntos”, diz Othon.

Embora não estivesse presente naquela noite, Silvia lembra ainda hoje uma frase dita após o anúncio: “Eles vão estar juntos para sempre”. “Naquele momento foi algo muito inesperado”, conta Othon. O pesquisador tinha a expectativa de fazer uma surpresa para Silvia. Mas as notícias viajaram mais rápido e, pouco tempo depois do anúncio, ela já recebia mensagens de felicitações em grupos de WhatsApp.

“Fui pega completamente de surpresa. Acho a homenagem muito importante porque é um reconhecimento que perdura para além do nosso tempo”, diz a docente. Silvia tem envolvimento com a Unesp desde a graduação em Física, quando iniciou sua carreira de pesquisa com uma bolsa de iniciação científica. Lá conheceu Othon, também estudante de graduação, bolsista de iniciação científica e seu veterano no curso.

Além do anúncio personalizado para o casal, a escolha dos asteroides também foi cuidadosa: seus nomes estão em asteroides que foram descobertos em sequência, um atrás do outro. Por isso, os números que antecedem os objetos são 10696 e 10697. O (10697) Othonwinter tem uma órbita inclinada em 15 graus e razoavelmente excêntrica. Para dar uma volta ao redor do Sol, esse asteroide leva cerca de 4,3 anos. Já o (10696) Giuliattiwinter está a 2,32 unidades astronômicas do Sol e leva aproximadamente 3,5 anos para completar uma volta ao redor dele.

Representação das órbitas dos asteroides (10967) Othonwinter e (10966) Giuliattiwinter.
Crédito: ACM

Após essa primeira nomeação, outros professores também passaram a compor a lista de pesquisadores com asteroides para chamar de seus. Em 2021, o homenageado foi o docente Rafael Sfair de Oliveira, da Faculdade de Engenharia e Ciências, com o asteroide (43414) Sfair. O reconhecimento veio por mais de uma década de trabalhos na área de dinâmica orbital, simulação numérica e estabilidade de anéis planetários.

Já em 2023, outro trio foi prestigiado: Nelson Callegari Jr., do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), recebeu o asteroide (30452) Callegari; Ernesto Vieira Neto, da Faculdade de Engenharia e Ciências, ficou com o (34587) Vieiraneto; e Rosana Aparecida Nogueira de Araújo, também da Faculdade de Engenharia e Ciências, nomeou o (33924) Rosanaaraujo.

Até o momento, Nelson é o único docente de fora da FEG a receber a homenagem. As pesquisas do docente têm foco na dinâmica orbital de satélites naturais dos chamados planetas gigantes do Sistema Solar (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e, mais especificamente, na dinâmica ressonante de pequenos satélites e partículas no sistema interior de Saturno.

Já Ernesto é membro da Sociedade Astronômica Brasileira e da União Astronômica Internacional e estuda a dinâmica de asteroides e a formação de satélites planetários, enquanto Rosana pesquisa dinâmica orbital, mecânica celeste e engenharia espacial. No momento da homenagem, a IAU destacou seu trabalho sobre o anel em torno de Chariklo, um objeto transnetuniano que guarda valiosas informações sobre o processo de formação do Sistema Solar.

A nomeação de novos asteroides ocorre de forma contínua, mesmo fora do evento. Apenas no mês de julho deste ano, 208 novos asteroides foram nomeados. Atualmente, cerca de 900 mil asteroides aguardam nomes oficiais pela IAU e, estima-se, que existam entre 1,1 e 1,9 milhões de objetos no cinturão principal de asteroides. Isso significa que, a cada novo ciclo de homenagens, a chance de mais professores unespianos inscreverem seus nomes nas órbitas no Sistema Solar continua bastante alta.

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Este artigo faz parte da série Unesp: 50 anos, 50 histórias do Jornal Unesp. A trajetória da Unesp narrada por quem a viveu: 50 crônicas que resgatam personagens, conquistas e momentos marcantes de sua história.

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