Universidade apostou na ampliação das vias de ingresso para fomentar perfil mais inclusivo

Para superar o funil estreito do vestibular como único meio de acesso à graduação, a Unesp abriu portas para alunos oriundos das olimpíadas científicas, candidatos do Enem e estudantes do Provão Paulista. A democratização trouxe também desafios de gestão.

Em 2013, a Unesp aprovou a criação do Sistema de Reserva de Vagas para Educação Básica Pública. A implantação do Sistema foi um processo gradual, que se estendeu entre 2014 e 2018, quando se alcançou o patamar previsto de 50% do total das vagas. Teve início, então, um novo debate sobre possíveis alternativas para consolidar o caráter inclusivo da Universidade. A ideia central era avançar na democratização do acesso ao ensino superior e assumir o desafio de atrair tanto os alunos com trajetórias consolidadas de estudos quanto jovens em situação de vulnerabilidade e que nem sempre têm o ingresso no ensino superior como um horizonte de vida.

Neste contexto, surgiu a busca pela diversificação das modalidades de ingresso nos cursos de graduação da Unesp. A primeira iniciativa ocorreu em 2019, voltada para o ingresso em 2020. Foram oferecidas 195 vagas adicionais destinadas aos participantes de olimpíadas científicas. Também se abriu a possibilidade de preencher vagas remanescentes do Vestibular Unesp por meio da seleção de candidatos com base nas notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Hoje, quatro portas de entrada

Desde então, a política de diversificação das modalidades de ingresso na Universidade consolidou-se de forma a ocasionar um aumento importante no número de portas de entrada — hoje são quatro — e também uma ampliação no número total de vagas oferecidas. Esta expansão decorreu da abertura de vagas adicionais, por parte dos cursos, para a seleção por meio da participação nas olimpíadas científicas, uma via de acesso concebida para garimpar jovens vocacionados para determinadas carreiras.

“Sempre quisemos abrir a Universidade para formas de ingresso cada vez mais inclusivas. Esse foi o tom da gestão inteira: incluir pessoas que talvez nunca chegassem à Unesp porque não conhecem as possibilidades que a Universidade oferece”, afirma a pró-reitora de graduação Celia Giacheti, que ocupa o posto desde janeiro de 2021.

Sob a gestão da docente, a Unesp, em conjunto com as demais universidades estaduais paulistas, aderiu, em 2023, ao Provão Paulista Seriado. Trata-se de um processo seletivo voltado exclusivamente ao ingresso de alunos de escolas regulares e técnicas da rede estadual paulista no ensino superior público. As regras são fixadas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo em comum acordo com as universidades. Ao todo, a Unesp destinou 934 vagas ao exame, cuja característica seriada se deve à avaliação progressiva do desempenho do estudante ao longo dos três anos do ensino médio.

Para o ingresso no início de 2026, o Provão Paulista somou-se a outras três formas de ingresso: o vestibular, as olimpíadas científicas e a seleção baseada nas notas do Enem. Aliás, este ano o ingresso por meio do Enem passou a contemplar vagas diretas nos cursos de graduação – e não apenas as vagas remanescentes, como era inicialmente.

Se somarmos as oportunidades para ingressar no meio do ano na Unesp, época em que ocorrem tanto o Vestibular Meio de Ano quanto uma segunda seleção por meio do Enem, a Unesp vem abrindo anualmente em torno de 8 mil vagas, em 137 cursos de graduação.

As vagas disponíveis para 2027, segundo cada via

Para o ano de 2027, são 5.850 vagas destinadas ao Vestibular Unesp, 726 à seleção Unesp-Enem, 929 ao Provão Paulista Seriado, 180 ao Vestibular Unesp do meio de ano e 20 vagas à entrada Unesp-Enem também de meio de ano. Esse número não inclui as vagas adicionais destinadas aos participantes das olimpíadas científicas.

Neste cenário, o jovem estudante egresso de uma escola pública paulista, se tiver interesse e se adequar aos requisitos distintos de cada uma das vias de ingresso, pode se candidatar a todos os processos seletivos. “Nossa avaliação é que o processo de diversificação foi bem-sucedido, embora ainda necessite de alguns ajustes”, afirma Giacheti. “Tivemos um aumento de vagas pela entrada das olimpíadas e os dados de ingresso pelo Provão Paulista Seriado estão melhorando a cada ano”, diz a docente.

O início da Vunesp

Os cursos de graduação da Unesp estão distribuídos por 34 unidades universitárias, localizadas em 24 cidades paulistas. Isso dá à Unesp a maior abrangência territorial entre as universidades públicas paulistas. Quando foi criada em 1976, baseada em 14 municípios, esta característica multicâmpus já destacava a geografia peculiar da Universidade.

Nos primeiros anos, o acesso aos cursos de graduação ocorreu exclusivamente por meio de vestibulares. Os primeiros foram aplicados pela Fuvest e, a partir de 1981, pela recém-criada Fundação para o Vestibular da Unesp (Vunesp). No primeiro ano da Vunesp, o Vestibular Unesp ofereceu 2.283 vagas.

O Vestibular Unesp, que é a porta de entrada mais tradicional e, por muito tempo, foi a única para os cursos de graduação da Universidade Estadual Paulista, rompeu a barreira dos 100 mil inscritos em 2014 e permaneceu neste patamar até 2018.

À época, o estreito funil do vestibular deu ainda mais força à ideia de criar alternativas de acesso aos bancos universitários unespianos. Permanecer apenas com esta via de acesso à Universidade significava reforçar um mecanismo excludente, pois perpetuava desigualdades sociais na medida em que privilegiava os jovens que dispunham de condições educacionais e materiais melhores.

Deixar a lógica do vestibular, porém, exigia superar toda uma cultura que já está instalada no Brasil há décadas. E mudar uma cultura demanda tempo. “Neste ano, em que se completou o primeiro ciclo do Provão Paulista, já podemos constatar que aqueles que estão chegando à Unesp estão vindo porque realmente optaram por ela”, afirma o professor Mário Hissamitsu Tarumoto, assessor da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da Unesp.

Crescimento do Provão Paulista

Em comparação aos números registrados em 2025, o total de estudantes que ingressaram na Unesp por meio do Provão Paulista Seriado registrou um crescimento de um terço este ano: foram 688 matriculados, ante 516 no ano passado. “O fato de se tratar de um exame seriado, conduzido ao longo dos últimos três anos, mostra que os alunos que estão entrando agora, de fato, conhecem a Unesp. Um ponto positivo da atuação das escolas públicas é este: hoje os alunos das escolas públicas conhecem a Unesp por causa do Provão”, diz Tarumoto.

Embora a opção pelo Enem como porta de entrada para vagas diretas na graduação da Unesp também se norteasse pela busca da inclusão, ela se destinava também a equacionar outra questão: a disparidade entre a demanda por cursos altamente concorridos, tais como Medicina, Psicologia e Direito, e aqueles com menos procura, nas mais diversas áreas.

É importante pontuar que um curso com baixa procura, em alguns casos, cumpre uma função estratégica no âmbito do ensino superior público. É o caso, por exemplo, das licenciaturas. A Unesp é referência em formação de professores no país. Cerca de um terço de seus cursos de graduação está ligado às licenciaturas, cuja oferta é essencial à formação adequada de docentes do ensino básico e impacta a qualidade da educação. No último Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), 82% das licenciaturas unespianas avaliadas alcançaram os conceitos máximos.

Neste contexto, em geral, as vagas diretas oferecidas via Enem, que foram adotadas para todos os 137 cursos, ampliaram o público interessado nas graduações da Unesp e melhoraram o preenchimento de carreiras menos concorridas, tais como algumas licenciaturas. Por outro lado, como os candidatos inscritos na seleção via Enem normalmente estão mais dispersos geograficamente, alguns cursos mais tradicionais tiveram de lançar mão de listas adicionais em razão da desistência ou não confirmação de matrícula de candidatos chamados por esta modalidade.

Desafios de gestão

“O processo seletivo Unesp-Enem é uma forma de entrada importante e cumpriu com o que imaginávamos em alguns cursos, mas este resultado das vagas diretas via Enem foi complexo”, diz Giacheti. “Estamos analisando estes dados, juntamente com os coordenadores de curso e as unidades universitárias.”

Para a pró-reitora, a diversificação das formas de ingresso na graduação colocou a Universidade ao alcance de um número expressivamente maior de estudantes. Por outro lado, a administração de todas estas portas de entrada gera desafios adicionais no campo da gestão. Dentre eles, está a necessidade de avaliar anualmente eventuais alterações na quantidade de vagas oferecidas em cada modalidade de ingresso. O objetivo é encontrar o ponto ótimo de equilíbrio entre inclusão, procura por vagas e propostas político-pedagógicas oferecidas nos cursos.

“Hoje nossa preocupação é fazer o jovem entender a Unesp, em sua dimensão e peculiaridades, como uma universidade pública e gratuita”, diz Celia Giacheti. “Queremos colocar mais alunos na Universidade, sim, mas queremos também que eles entrem, aprendam, permaneçam conosco e alcancem uma formação de excelência.”

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Unesp: 50 anos, 50 histórias do Jornal Unesp. A trajetória da Unesp narrada por quem a viveu: 50 crônicas que resgatam personagens, conquistas e momentos marcantes de sua história.

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