As primeiras mudas de cafeeiro chegaram ao Brasil em 1727, vindas da Guiana Francesa. Inicialmente, o cultivo não foi bem-sucedido, já que as primeiras tentativas de plantio ocorreram em Belém, no Pará, região reconhecida pela alta quantidade de chuvas e calor intenso. Somente quando a planta chegou ao Sudeste do país, onde o clima é mais ameno, a produção em larga escala prosperou. As províncias de Minas Gerais, Rio de Janeiro e, principalmente, São Paulo logo despontaram como os principais polos cafeeiros, e na década de 1850, o Brasil consolidou-se como potência mundial na produção e exportação do grão. Ainda hoje nosso país se mantém no topo do cenário cafeeiro mundial, mas hoje 68% da produção nacional vêm de Minas Gerais. São Paulo responde apenas por 9%
As memórias desse pujante passado cafeeiro paulista estão preservadas em diversas construções históricas espalhadas pelo Estado. Uma das mais expressivas é uma instituição ligada à Unesp: o Museu do Café da Fazenda Lageado. O museu é administrado pela Unesp desde os anos 1980, e permanece como a instalação mais antiga da Instituição.

Preservação da memória e valorização cultural
Acredita-se que as edificações remanescentes que compõem a Fazenda Lageado, que são a Casa Grande, os terreiros e a tulha, tenham sido construídas na segunda metade do século 19, mas há quem as date da década de 1840. Ao longo de sua história, a propriedade passou por diferentes administradores, e teve usos diversos. Sua trajetória costuma ser dividida em três fases: a fazenda produtora de café, a Estação Experimental Agrícola e o Museu do Café.
Há poucos registros sobre os primeiros anos da Fazenda Lageado, mas as evidências apontam que toda a construção foi erguida com o uso de mão de obra escravizada. Por décadas, pessoas escravizadas foram as principais responsáveis pela atividade produtiva, e as dimensões do terreno eram bem inferiores ao que vemos hoje. Embora a Fazenda Lageado tenha passado a pertencer à Unesp desde a criação da Universidade, em 1976, o espaço começou a ser efetivamente ocupado apenas em 1982. Naquele ano, a Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), que foi fundada em 1965 e incorporada à Unesp em 1976, transferiu suas atividades do câmpus de Rubião Júnior para a fazenda. A direção da unidade iniciou a organização dos objetos históricos que a propriedade abrigava, e dessa movimentação surgiria futuramente o Museu do Café.

“Já existia a percepção de que se tratava de um patrimônio histórico que precisava ser preservado e apresentado ao público”, comenta Paula Ferreira Vermeersch, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp em Presidente Prudente e que atualmente coordena um projeto de digitalização do acervo do Museu.
Ainda na década de 1980, pequenas exposições começaram a ser realizadas, culminando na inauguração do museu em 1988. Nas duas décadas seguintes, o espaço permaneceu restrito a exposições pontuais com um horário de funcionamento irregular. Foi somente em 2006 que teve início um amplo projeto de revitalização da área histórica, permitindo sua abertura permanente à visitação pública.
O primeiro passo dessa nova fase foi a criação do programa de parcerias chamado Empresas Amigas da Fazenda Lageado, que envolveu desenvolvido com empreendimentos da região. “Elas investiram recursos através da Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais, presente na unidade, o que permitiu revitalizar o museu e a área histórica, além de ampliar as ações de divulgação do espaço”, comenta explica José Eduardo Candeias, servidor técnico-administrativo que coordenou o Museu do Café entre 2006 e 2019.
Com a revitalização, o museu deixou de ocupar apenas uma sala e passou a utilizar todos os ambientes da Casa Grande. Foram criadas salas temáticas dedicadas às diferentes etapas da produção cafeeira, além da reconstrução de ambientes históricos, como os escritórios dos administradores.
A reorganização do espaço e a abertura em todos os dias da semana ampliaram o público visitante. Escolas de Botucatu e região passaram a realizar visitas guiadas regularmente. “O museu vivia cheio e tornou-se um dos equipamentos culturais mais visitados do estado de São Paulo”, conta Vermeersch.
Essa trajetória culminou no tombamento do conjunto histórico pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), em julho de 2013.
Ponto de encontro cultural em Botucatu
Além da revitalização do museu, o programa Empresas Amigas da Fazenda Lageado também permitiu ampliar as atividades culturais promovidas no espaço, incluindo exposições de arte e apresentações musicais. “O museu ganhou dois focos: a preservação de um patrimônio com uma estrutura riquíssima e o contato da população com artes plásticas, esculturas e pinturas”, explica Candeias.
Segundo o servidor, o espaço já recebeu quase 70 exposições, incluindo artistas de destaque como Aldemir Martins, Osmar Santos e Christina Oiticica. Uma das mostras de maior público foi a de Romero Britto, que recebeu cerca de 12 mil visitantes em apenas um mês.
Na mesma época, a Fazenda Lageado também ficou conhecida pela realização de festas populares e shows, especialmente ligados à cultura caipira. As festas juninas realizadas no terreiro da fazenda tornaram-se tradicionais entre os moradores da região.
O diretor da FCA, Caio Antonio Carbonari, recorda de algumas atividades que ocorreram durante o período em que foi estudante de graduação. “Lembro de grandes shows naquele espaço. A Inezita Barroso foi um deles”, comenta. A cantora, inclusive, gravou um episódio do programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura, dentro da fazenda.
“Essas festividades eram um espaço importante de confraternização e integração da comunidade unespiana de Botucatu”, recorda Carbonari. “Havia eventos técnicos, culturais e sociais. No Natal, por exemplo, toda a área histórica recebia grandes decorações.”
As grandes festividades acabaram sendo descontinuadas em razão da proibição do consumo de bebidas alcoólicas nos câmpus e também devido à necessidade de preservar as estruturas históricas, que poderiam sofrer alguma deterioração.
Mesmo assim, a programação cultural continua ativa por meio do projeto Lageado Cultural, criado na década de 2010 em comemoração ao cinquentenário da FCA e retomado em 2025, durante as celebrações dos 60 anos da unidade. Essa iniciativa promove apresentações musicais, dentro do câmpus, de artistas renomados no cenário nacional.
A união de ensino e história
Desde os anos 1980, a Faculdade de Ciências Agronômicas ocupa o espaço da Fazenda Lageado. Sendo assim, é comum que os estudantes convivam diariamente com o patrimônio histórico da propriedade. “Eu tive aulas da disciplina de Introdução à Agronomia no auditório da tulha, um espaço que antigamente recebia festividades”, relembra o diretor.

Hoje, a fazenda abriga não apenas a FCA e parte da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, mas também importantes centros de pesquisa da Unesp. “Temos duas unidades complementares: o Centro de Raízes e Amidos Tropicais e o Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos”, destaca Carbonari.
“Temos uma estrutura que reúne patrimônio histórico, atividades acadêmicas, preservação ambiental e produção agrícola”, complementa.
A tragédia de 2020 e o renascimento do museu
Na madrugada de 10 de fevereiro de 2020, Botucatu foi atingida por fortes chuvas, com cerca de 250 milímetros de precipitação em apenas 12 horas. Dezenas de pontes e casas foram destruídas e famílias inteiras ficaram ilhadas. Essa tragédia também afetou significativamente a área histórica da Fazenda Lageado.
As chuvas, somadas à pandemia de Covid-19, obrigaram o fechamento temporário do museu, fato lamentado pela comunidade acadêmica e pela população de Botucatu. Nesse contexto, a professora Paula Vermeersch, que é historiadora da Arte e especialista em patrimônio arquitetônico, foi designada pelo então reitor Pasqual Barretti para atuar junto ao Condephaat e à Universidade na recuperação das instalações.
Desde então, a coordenadora conseguiu aprovar, em 2024, um projeto junto à Financiadora de Estudos e Projetos destinado à catalogação e digitalização do acervo documental da Casa Grande e da biblioteca da unidade. O projeto segue em vigência até 2028, e o conhecimento sobre o acervo já rendeu apresentações em congressos científicos, artigos e projetos nacionais e internacionais de cooperação técnica.

“Queremos disponibilizar aos pesquisadores toda a história da Fazenda Lageado”, afirma Vermeersch. Paralelamente, a Universidade trabalha na elaboração de um projeto completo de restauração das estruturas históricas.
“A expectativa é estruturar um projeto sólido para avançarmos para a etapa mais complexa, que é a restauração integral das estruturas. Isso exigirá investimentos significativos, mas não vamos medir esforços para captar os recursos necessários”, afirma o diretor da FCA. “O local é um símbolo, tanto para a Unesp quanto para a cidade de Botucatu.”
Depois de anos fechado, o Museu do Café está retomando gradualmente suas atividades e já oferece visitas guiadas. “A ideia é que o museu não seja um espaço estático. Ele precisa estar vivo, recebendo pessoas e promovendo exposições”, afirma Candeias. “O museu não pertence apenas à fazenda, mas às pessoas, porque são elas que fazem o museu.”
