Fórum Unesp 50 anos discute os desafios da transição energética e apresenta uma nova geração de escritores chineses

Especialistas europeus discutiram o atual cenário e soluções para a geração sustentável, enquanto jovens autores chineses mostraram ao público presente no Memorial da América Latina um panorama da emergente literatura do país asiático.

O segundo dia de atividades do Fórum Unesp 50 anos, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo, começou com a discussão de dois temas que, embora aparentemente distantes entre si, representam tendências globais em suas respectivas áreas: energia e literatura. Na primeira mesa-redonda, o debate abordou os cenários e desafios para uma urgente e necessária transição energética, em seguida, o público pode ter uma perspectiva da emergente literatura chinesa a partir de relatos de dois escritores que representam essa nova geração de autores.

O evento, que celebra o jubileu da Unesp, acontece até sexta-feira, dia 13, e apresenta em sua programação uma seleção de temas e convidados do Brasil e do exterior que dialogam com algumas das principais questões contemporâneas. Juntamente com o Fórum, ocorre a oitava edição da Feira do Livro da Unesp, em espaço montado no próprio Memorial da América Latina.

Desafios para a necessária transição energética

Para debater os cenários e desafios do futuro energético foram convidados os pesquisadores Veronika Grimm, vinculada à Technical University of Nuremberg, da Alemanha, e Jean-Marie Tarascon, professor do Collége de France especialista na pesquisa de materiais e tecnologias voltadas para o armazenamento de energia. A mediação foi feira pelo economista Ademar Ribeiro Romeiro, referência nacional na área de economia ambiental e desenvolvimento sustentável.

Veronika Grimm, Ademar Ribeiro Romeiro e Jean-Marie Tarascon.

As falas dos convidados refletiram algumas das principais preocupações da comunidade europeia no atual cenário energético: a falta de recursos naturais que viabilizem a transição energética no continente, a grande quantidade de normas e regulações que buscam limitar a pegada de carbono, mas que elevam o custo para o setor produtivo, e o predomínio chinês sobre os recursos e as tecnologias que sustentam essa transformação.

Em sua apresentação, Tarascon enfatizou a inclusão da geração nuclear no mix de fontes de energia para substituir o petróleo, gás e carvão. “Eu queria passar uma mensagem clara. Embora existam muitas controvérsias em torno da energia nuclear, ela está voltando a ser adotada pelos países por um bom motivo”, disse o professor, que destacou especialmente a produção de energia de forma contínua, em alta quantidade e gerando cada vez menos resíduos. Segundo o especialista francês, em 2024 sete novos reatores foram conectados a grids de energia no mundo (três na China, dois na Índia e Emirados Árabes Unidos, EUA e França com um reator em atividade). Especificamente na China, destacou o Tarascon, mais de 60 reatores estão em construção.

O país asiático, aliás, foi mencionado como uma fonte de preocupação por ambos os convidados em razão de seu domínio tecnológico sobre alguns dos principais recursos minerais e tecnológicos sobre os quais se apoia a transição energética.

Tarascon usou como exemplo o fato de 75% das baterias do mundo serem produzidas na China. Essa parcela é ainda maior quando se observa o refino de minerais críticos, que são usados em veículos elétricos, painéis solares, baterias, etc. “Isso desperta a preocupação de que o domínio da China em tecnologias relacionadas à energia possa ser algo tão problemático quanto a dependência de muitos países pelo petróleo”, afirmou o pesquisador francês.

Sobre essa questão, Veronika Grimm mostrou como a produção chinesa dessas tecnologias verdes é destinada estrategicamente à exportação. “Precisamos desenvolver uma capacidade produtiva e competir nesses mercados para termos essa cadeia produtiva sob nosso controle”, afirma a pesquisadora alemã.

Grimm mencionou ainda outro ponto diferencial da Alemanha em comparação com a China: a grande quantidade de regulações e normas estabelecidas pela sociedade alemã hoje encarece as atividades industriais do país, uma das principais bases de sua economia. Tais restrições já começaram a limitar o seu crescimento econômico. “Gerenciar a democracia não é algo simples”, disse.

Para a especialista, um caminho para superar essa adversidade é estabelecer parcerias internacionais para o fornecimento de energia. Nesse ponto, afirma, o Brasil desponta como um parceiro estratégico em potencial, especialmente na exportação de hidrogênio verde ou da amônia verde, ambas moléculas que, no Brasil, podem ser produzidas a partir de energias renováveis, e exportadas. “A expansão das cooperações internacionais permite tirar melhor proveito de mecanismos que precificam o CO2 e favorecem a energia limpa, além de incluir mais países nesse jogo, barateando o custo da energia”, afirmou.

A nova literatura chinesa

A segunda mesa da manhã do dia 14 de maio recebeu dois jovens escritores chineses para discutir a nova literatura produzida no país. Sob a mediação do sinólogo brasileiro Giorgio Sinedino, Suonan Kairang e Yang Zhihan falaram sobre suas trajetórias profissionais, as principais influências literárias dentro do país e no exterior e as temáticas tratadas em suas obras.

Suonan Kairang, Giorgio Sinedino e Yang Zhihan

Embora sejam provenientes do mesmo país, as diferenças de perfil entre os dois escritores deixam clara a diversidade que existe dentro do território chinês.

Suonan é de etnia mongol e natural do planalto tibetano, uma das regiões habitadas mais altas do planeta. Extrovertido, o autor explicou que cresceu em uma família com longa tradição de pastoreio e frequentou a escola formalmente apenas dos 7 aos 12 anos e até alguns anos atrás ainda dedicava boa parte do seu tempo ao pastoreio de cavalos e carneiros.

“Não acho que um escritor precise ter uma formação acadêmica. A minha literatura vem da forma como eu vejo o mundo”, afirmou o autor, que diz refletir, em boa parte da sua obra, a vivência no ambiente rural e marcada pelo convívio com os animais.

A escritora Yang Zhihan pertence a uma geração ainda mais jovem de autores, nascidos na década de 1990. Mais tímida que o colega Suonan, recebeu uma educação formal, frequentou a universidade, e sempre teve a escrita como um hábito, recebendo incentivos de pais e professores. Nascida em uma região fria no nordeste da China, Zhihan diz que seu perfil introvertido a fez desenvolver a escuta e a observação, características que estão expressas em suas obras, marcadas por um tom intimista e introspectivo.

“Sempre fui uma criança calada, que recorreu à escrita para conhecer o mundo. Esse perfil se traduz na minha literatura por meio de personagens que são cidadãos comuns e que nem sempre costumam ter sua voz ouvida”, explica.

O diálogo com os dois jovens escritores, além de apresentar um perfil de suas obras e referências literárias, permitiu conhecer algumas estruturas do setor cultural chinês. Ambos mencionaram a importância, para o desenvolvimento de suas carreiras, da Associação de Escritores Chineses. A organização reúne milhares de autores do país e realiza diferentes ações de fomento em nível local, regional e nacional, atuando como instituição cultural e braço estatal da gestão artística do país. Entre as suas ações estão a promoção de prêmios literários, edição de revistas onde jovens escritores podem submeter trabalhos e ajudas financeiras.

O estímulo chinês à literatura não fica restrito aos escritores, mas contempla também leitores. Mediador da conversa, o brasileiro Giorgio Sinedino explicou que, a partir dos anos 1980, a China investiu pesadamente na tradução de obras de autores internacionais, que ganharam reconhecimento local a ponto de os jovens escritores se referirem à Ernest Hemingway, Joseph Conrad ou Gabriel Garcia Marquez como referências importantes na sua formação. “Eles conhecem muito a literatura internacional devido a um dos maiores movimentos de tradução do mundo. Ao longo desses últimos vinte ou trinta anos eles traduziram praticamente tudo que havia dos principais autores e correntes literárias mundiais”, explica o sinólogo brasileiro.

O Fórum Unesp 50 Anos continua na sexta-feira, 15, com mesas de debates que discutirão o papel do estado para um crescimento econômico sólido, as atuais crises geopolíticas contemporâneas e apresentarão um olhar sobre cultura, arte e guerras culturais. A entrada é gratuita e a programação completa pode ser vista no site do evento.

Veja abaixo a íntegra das mesas do dia.

Imagens: Rafael Romero Lopes

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Fórum Unesp 50 anos do Jornal Unesp. Série registra as apresentações durante o Fórum Unesp 50 anos

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