Em outubro de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) anunciou o lançamento da Rede UNITWIN sobre a História Geral da África, um consórcio internacional que envolve instituições de ensino superior de três continentes. A Unesp, ao lado da UFABC e da UFBA, é uma das universidades brasileiras admitidas na rede, que compreende também instituições da África do Sul, Gana, Senegal, Quênia, Serra Leoa, Botsuana e Estados Unidos.
O sociólogo Valter Silvério, docente colaborador do Departamento de Letras do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE) da Unesp e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos, foi o responsável pela articulação, mediação e adesão das universidades brasileiras à UNITWIN. A inserção da Unesp nesta rede é o resultado de uma movimentação institucional ativa, iniciada ainda em 2024, e que contou com o envolvimento direto da reitora Maysa Furlan e do vice-reitor Cesar Martins. O contato institucional da UNITWIN na Unesp é a professora Monica Galindo, vice-diretora do IBILCE.
A história da África contada por uma perspectiva africana
O projeto História Geral da África (HGA) remonta à década de 1960, quando a África vivia o seu processo de descolonização e novos países surgiam a cada ano. A proposta da Unesco envolvia contar, pela primeira vez, a história da África a partir de uma perspectiva africana. Ao longo das três décadas seguintes, a Unesco reuniu algumas das melhores mentes da África e de todo o mundo – incluindo Djibril Tamsir Niane, Cheikh Anta Diop, Théophile Obenga, Ali Mazrui e Gamal Mokhtar – para produzir um conjunto de obras único.
Sob a direção de um Comitê Científico predominantemente africano, 350 especialistas escreveram os oito primeiros volumes da História Geral da África, que abrangem as civilizações antigas do continente, bem como seu passado mais recente.
Desafiando as abordagens convencionais, este corpus integrou conhecimentos de tradições orais, juntamente com arquivos escritos e descobertas científicas e arqueológicas. Foi publicado em 13 línguas, incluindo fula, hausa e kiswahili. Mais recentemente, foram produzidos os volumes IX, X e XI, e Valter Silvério ocupa a posição de vice-presidente do Comitê Científico Internacional encarregado da tarefa.
Hoje, a Unesco trabalha para garantir que este trabalho pioneiro transforme a forma como o continente africano é compreendido em todo o mundo. Isso começa por dar à História Geral da África o lugar que lhe cabe nas salas de aula – especialmente na própria África, que tem a população mais jovem do mundo.
As Redes UNITWIN
As Redes UNITWIN (a sigla significa University Twinning and Networking Programme) e o programa das Cátedras Unesco foram instituídas em 1992. O objetivo de ambas as iniciativas é promover a cooperação internacional entre instituições de ensino superior, com ênfase em parcerias Norte–Sul–Sul. Os programas congregam mais de 1.000 instituições em mais de 125 países, contribuindo para o fortalecimento das prioridades estratégicas da Unesco nas áreas de educação, ciências, cultura e comunicação.
Os programas visam fortalecer a articulação entre universidades, sociedade civil e instâncias decisórias, fomentando a produção de conhecimento, a pesquisa colaborativa e o desenvolvimento institucional, com especial atenção à capacitação em países em desenvolvimento. Por meio das Cátedras Unesco e das Redes UNITWIN, as instituições participantes colaboram de forma estruturada para a implementação da agenda da Unesco e para o enfrentamento de desafios globais contemporâneos.
Em termos práticos, o que distingue uma Cátedra de uma das Redes UNITWIN é que a primeira é geralmente centrada em uma única instituição de ensino superior ou centro de pesquisa, com o objetivo de desenvolver conhecimento e atividades em um campo específico. A segunda é um consórcio ou rede que conecta várias universidades e instituições de diferentes países para promover a pesquisa, treinamento e intercâmbio de saberes, muitas vezes em escala global ou regional.
O desafio de ampliar o conhecimento sobre o programa História Geral da África
A Unesco atualmente busca ampliar, em escala global, o uso acadêmico, pedagógico e social dos conteúdos do programa HGA. Estes conteúdos estão relacionados a todas as áreas e disciplinas científicas. A Rede UNITWIN foi oficialmente anunciada e lançada no âmbito das ações de disseminação dos novos volumes (IX, X e XI) da HGA, incluindo eventos institucionais realizados pela Unesco a partir de 2025.
Dentre os objetivos que vão nortear a ação da nova rede internacional estão a consolidação da pesquisa acadêmica sobre a história da África e de suas diásporas, a promoção da incorporação da História Geral da África nos currículos do ensino superior, o estímulo à cooperação acadêmica Sul–Sul e Sul–Norte e o estímulo à descolonização das narrativas históricas e à produção de conhecimento liderada por instituições africanas.
Uma nova visão sobre a África
“O rosto da África esteve por muito tempo oculto do mundo por mitos e preconceitos de todos os tipos”, escreveu Amadou Mahtar M’Bow, Diretor-Geral da Unesco, em 1979. “A História Geral da África lança uma nova e original luz sobre o passado do continente, considerado em sua totalidade.”
A promoção e a incorporação da HGA nos currículos do ensino superior devem alterar toda a nossa base histórica de conhecimento, uma vez que, em geral, nos foiensinado, a partir de uma sequência consolidada de transmissão de conhecimento, que tudo aquilo que não se originou na Europa remonta à pré-história da humanidade. Não é assim?
Não. Está errado. A história da África e dos africanos é muito anterior à escravidão negra no Novo Mundo. E isso faz toda a diferença porque o correto é considerar a África como o lugar/espaço geográfico onde se inicia a história de toda a humanidade.
A importância da correção deste erro, que desde tempos imemoriais está incrustado em nossa formação, é uma das dívidas que temos com as populações de origem africana (negras) e um compromisso que devemos assumir com as novas gerações como forma de prevenir preconceitos, discriminações, racismo, entre outros.
Das estantes de livros às salas de aula
Hoje, a Unesco trabalha para garantir que este trabalho pioneiro transforme a forma como o continente africano é compreendido em todo o mundo. Isso começa por assegurar à HGA o lugar que lhe cabe nas salas de aula – especialmente na própria África, que tem a população mais jovem do mundo.
A Unesco também está testando novas formas de divulgação educacional ao entrar no mundo dos jogos. African Heroes é um videogame gratuito para download que dá vida a dez figuras africanas icônicas – como Zumbi dos Palmares, a Rainha Nzinga e Toussaint Louverture. Abrangendo cinco sub-regiões africanas e múltiplas eras históricas, o jogo oferece uma maneira envolvente e interativa de se conectar com a rica e diversificada herança da África.
A HGA no Brasil: celebração do patrimônio comum
O Programa Brasil-África: Histórias Cruzadas, liderado pelo Ministério da Educação do Brasil, teve início em 2003, após a promulgação de uma lei nacional que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira em todos os níveis de ensino. Seu primeiro passo foi a tradução para o português da HGA, que então contava com oito volumes.
Lançada em abril de 2011, a tradução, que foi coordenada pelo professor Valter Silvério, trouxe a oportunidade de suprir a carência de referências à África na educação brasileira. Desde então, o programa tem inspirado a criação de inúmeros materiais didáticos em português, fortalecendo a compreensão e a valorização do legado africano no Brasil. A tradução para o português da HGA revelou-se um dos projetos educacionais mais bem-sucedidos e influentes da Unesco.
Três novos volumes em 2025
Em 2009, a União Africana solicitou uma nova fase para a HGA, a fim de dar continuidade à narrativa e conectá-la ao mundo moderno. Três novos volumes foram planejados – para registrar a história das diásporas africanas ao redor do mundo e explorar os desafios e oportunidades que a África enfrenta hoje.
Sob a direção-geral de Audrey Azoulay, este projeto foi renovado e revitalizado, em consonância com a priorização do continente africano pela Unesco e com os objetivos da Década Internacional dos Afrodescendentes (2015-2024).
Lançados em 2025, os novos livros contam a história da África moderna – do tráfico de escravos ao Renascimento do Harlem e à negritude. Eles celebram as ideias e a criatividade do povo africano, que continuam a moldar o mundo. Este conjunto pioneiro, repleto de mapas ricamente ilustrados, tabelas explicativas e fotografias reveladoras, substituiu as distorções coloniais por uma perspectiva africana, corrigindo a ignorância generalizada e os preconceitos discriminatórios por meio de uma abordagem pluralista e interdisciplinar da historiografia.
O papel da Unesp na rede UNITWIN
A Unesp cumpre, a meu ver, um papel estratégico, tanto pela qualidade de sua atividade de pesquisa, ensino e extensão quanto por sua localização estratégica em todas as regiões do Estado economicamente mais avançado do país. A instituição também tem se destacado em sua consciência de internacionalização no eixo Sul–Sul, embora a Unitwin não se restrinja a ele.
Uma questão central é que nossa universidade deve exercer uma posição central na reformulação do ensino, da pesquisa e da extensão a partir da História Geral da África. A reformulação de currículos eurocêntricos em direção a uma abordagem humanizada, plural e global da história certamente deve contribuir para a formação de cidadãos em uma sociedade multicultural e multiétnica.
Por exemplo, a inegável presença global dos africanos tem nos levado a refletir sobre a importância da revisão da presença africana no processo histórico e sobre suas relações com os países centrais da diáspora africana, como o Brasil. Daí o conceito de África Global. A União Africana, ao rever seu estatuto, destacou a importância da contribuição das diásporas africanas para a reconstrução do continente africano, que continua sendo explorado pelas ex-metrópoles coloniais. Na percepção da União Africana, a relação com o Brasil e com países como a China se desloca da simples e utilitarista ideia de negociação e competição para outra orientação, mais necessária e mais justa, calcada em cooperação e colaboração entre nações, superando as dicotomias entre a África e a diáspora.
Valter Silvério é professor colaborador do Departamento de Letras do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (IBILCE) da Unesp e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos.
Os artigos de opinião assinados não refletem necessariamente o ponto de vista da instituição.
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