O mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, tem sido atravessado por uma série de notícias que revelam um cenário preocupante no Brasil. Casos recentes de violência contra a mulher, amplamente divulgados pela imprensa, expõem a persistência de práticas misóginas e o avanço de discursos que reforçam a desigualdade de gênero e propagam outras formas de agressão. O tema ganha ainda mais relevância diante do aumento dos registros de feminicídio, que bateu recorde no ano passado com 1.568 casos. Nesse contexto, o novo episódio do Prato do Dia propõe uma reflexão sobre misoginia, masculinidades e os caminhos possíveis para enfrentar essa realidade.
O podcast recebe a doutora em Ciências Sociais Bruna Camilo, co-coordenadora do Núcleo Jurídico de Diversidade Sexual e de Gênero da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e integrante da Associação Visibilidade Feminina, e Pedro de Figueiredo, publicitário, pesquisador e idealizador do MEMOH, uma plataforma social voltada à promoção da equidade de gênero entre homens. A partir de diferentes trajetórias, os convidados analisam como a violência contra a mulher se estrutura socialmente e de que forma ela se relaciona com padrões culturais que ainda moldam o comportamento masculino.
Ao abordar o crescimento dos casos de violência noticiados recentemente pela imprensa, Bruna Camilo destaca que não se trata de episódios isolados, mas de um sistema persistente. “Vivemos numa sociedade extremamente estruturada no patriarcado em um país que foi totalmente colonizado, explorado e toda essa exploração baseou-se na exploração sexual e no racismo. É muito difícil quebrar essa estrutura que está secularmente enraizada em nosso país”, afirma. Para a pesquisadora, compreender essa continuidade é essencial para enfrentar o problema de forma efetiva, já que a violência está presente em práticas sociais e institucionais.
Esse cenário também se conecta com o avanço de comunidades digitais que amplificam visões distorcidas sobre relações de gênero, como os grupos autodenominados Red Pill, que difundem a ideia de que homens estariam em desvantagem nas relações sociais e afetivas a partir de uma visão hostil em relação às mulheres. Esses grupos têm ganhado visibilidade nos últimos anos, juntamente com episódios de violência que envolvem figuras públicas ligadas a esse movimento, como o caso do influenciador Thiago Schutz, preso em 2025 após agredir a namorada. Pedro de Figueiredo chama atenção para o impacto desses ambientes na formação de jovens. “Precisamos conseguir chegar nesses meninos e disputar com esses ideais. A criminalização do discurso misógino é importante, mas não é com uma visão punitivista das coisas que vamos resolver esse problema, é trazendo os homens para perto desse debate”, diz.
A discussão sobre masculinidades aparece como um ponto central para compreender esse fenômeno. O pesquisador argumenta que muitos homens ainda são socializados a partir de modelos que valorizam controle, domínio e negação das emoções. “O homem vive uma vida muito limitada. Quando a gente se permite ter outras relações, outros modos, expressar sentimentos, abre-se um campo que é muito prazeroso. Você vive coisas pela primeira vez, é entusiasmante”, conclui.
A discussão sobre misoginia e violência de gênero também passa pela forma como crianças e adolescentes são educados em um contexto cada vez mais mediado por tecnologias digitais. Nesse cenário, ganha destaque o recente lançamento do ECA Digital, uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente frente aos desafios do ambiente online. A proposta entrou em vigor em 17 de março e reforça a necessidade de orientar o uso responsável das redes, promover a proteção contra violências digitais e incentivar práticas que contribuam para a formação cidadã desde cedo.
Ainda na esfera legislativa, no dia 24 de março, o Senado aprovou um projeto de lei (PL 896/2023) que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação. De acordo com o texto, pessoas que praticarem a misoginia estarão sujeitas às mesmas punições atribuídas no contexto de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou nacionalidade, com o crime sendo definido como inafiançável. O projeto de lei, entretanto, ainda precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados antes de ser enviado à Presidência da República.
Para Bruna Camilo, pensar a educação no ambiente digital é essencial para enfrentar a reprodução de discursos de ódio e desigualdade de gênero. “É perceptível que a violência aumentou e é inevitável pensar que a internet se tornou uma grande ferramenta para isso. Se as big techs estão do lado da misoginia, como vamos enfrentar esses algoritmos e que exploram meninas e radicalizam meninos?”, questiona a pesquisadora.
Pedro de Figueiredo também aponta que o contato precoce com redes sociais exige uma mediação mais ativa por parte dos adultos. “Eu sinto que os pais estão muito perdidos também, sabe? Além disso, vivemos em um país onde muitos meninos nem têm pai registrado ou um pai minimamente presente. Essa ausência de pessoas próximas que consigam orientar esses meninos com bons exemplos de homens que não são violentos com mulheres também é importante”, ressalta.
Ao considerar esse cenário, os entrevistados reforçam que a construção de relações mais igualitárias depende de um processo contínuo de formação. Ensinar respeito, empatia e responsabilidade no uso das tecnologias não é uma tarefa pontual, mas parte de um projeto mais amplo de educação para a convivência. “Não temos como fugir dessa resposta, precisamos quebrar as questões culturais no cotidiano e, junto a isso, constituir uma consciência de classe e de gênero”, conclui Bruna Camilo
Ouça a entrevista completa com Bruna Camilo e Pedro de Figueiredo no podcast Prato do Dia, disponível nas principais plataformas de áudio e no player do Jornal da Unesp:
