Mestre e doutora pelo Instituto de Biociências de Botucatu, onde desenvolveu trabalhos na área de aplicação de enzimas, Clarissa Hamaio Okino Delgado é fundadora e coordenadora da startup Ikove Agro, empresa que desenvolve biofungicidas a partir de microrganismos benéficos.
Graduada em engenharia agronômica pela Universidade de São Paulo, Clarissa chegou à Unesp em busca de uma formação mais especializada para atuar no setor do agro. Na pós-graduação, interessou-se pela área de aplicação de enzimas, sob orientação da professora Luciana Fleury. O contato com o ambiente universitário transformou sua perspectiva de carreira.
“Posso dizer que foi a Unesp que despertou em mim a vontade de fazer pesquisa. Até então, eu tinha um perfil mais corporativo”, relata.
A experiência nas bancadas dos laboratórios ajudou-a a perceber que os caminhos não são mutuamente excludentes. “Vi que, na verdade, não precisava optar entre o perfil de pesquisa ou o perfil corporativo. É possível encontrar um meio do caminho. Muitas vezes achamos que ambos estão distantes, mas na verdade há muitas conexões”, analisa.
Esse “meio do caminho” concretizou-se, anos mais tarde, na criação da Ikove Agro, uma startup “filha da Unesp”. A empresa, fundada em parceria com uma colega de laboratório, Débora Prado e com a orientadora, desenvolve biofungicidas a partir de microrganismos benéficos para a agricultura.
O empreendimento hoje está abrigado na incubadora ParqueTec de São Carlos. A empresa nasceu graças ao apoio do projeto PIPE-FAPESP e manteve vínculos estreitos com a universidade, inclusive contando com a colaboração de outros egressos.
“O termo Ikove significa fazer crescer em tupi-guarani. Essa expressão reflete não apenas nossa origem brasileira, mas também nossa missão, nossa visão e nossos valores. Nosso objetivo é transformar a ciência em inovação para tornar os sistemas agrícolas e florestais mais produtivos, rentáveis e sustentáveis. Além disso, nossas raízes estão na ética, sustentabilidade e inovação. Semeamos a ciência como ferramenta de transformação”, diz Clarissa.

A transição do laboratório para o mercado, contudo, trouxe desafios. Uma tentativa inicial de apresentar a tecnologia para uma grande empresa do setor de suco de laranja funcionou como um choque de realidade.
“Foi um baque perceber que não basta oferecer uma tecnologia interessante. É preciso entender o ambiente corporativo e o campo do empreendedorismo, para conseguir fazer a tradução”, explica Clarissa.
Ela enfatiza a necessidade de estabelecer uma comunicação clara sobre o valor do que está sendo desenvolvido. “É preciso fazer uma tradução e assim conseguir explicar, para os executivos, que sua tecnologia pode gerar valor, e que ele pode ganhar dinheiro com ela”, diz ela.
Recuo e volta por cima
Ao constatar a necessidade de aprimorar suas habilidades de comunicação, Clarissa fez um recuo estratégico. Lecionou por cinco anos em uma universidade. Lá, pode constatar a contribuição real que sua tecnologia poderia aportar ao mercado do agro. Decidiu retomar o trabalho para transformar sua pesquisa em produto. Desta vez, porém, começou por estudar e aprender sobre empreendedorismo. Engajou-se em programas especializados do Sebrae, e passou a frequentar hubs de inovação. “O primeiro ano da Ikove envolveu, basicamente, viver essa imersão no mundo do empreendedorismo”, explica.
Ao refletir sobre sua trajetória até aqui, Clarissa destaca a importância, para quem sonha em se desenvolver tanto na pesquisa quanto no empreendedorismo, de ter muito cuidado para selecionar seu orientador, e de adotar uma postura de aprendizado contínuo. “É um conselho que dou para quem quer fazer mestrado ou doutorado: escolha bem o seu orientador. Se você escolher bem, escolher certo, é um parceiro para o resto da vida”, afirma.
Ouça abaixo a íntegra da entrevista ao podcast Universo Profissional
