Políticas anti-imigração aprofundam crise de direitos humanos nos Estados Unidos, avalia pesquisadora da Unesp

Para a docente Lívia Peres Milani, ações da gestão Trump e de sua polícia de imigração usam narrativa fictícia de inimigo interno – os imigrantes ilegais – para promover a militarização do cotidiano e a degradação das liberdades civis. “É uma crise criada pelo próprio governo”, afirma.

Neste início de 2026, as ações do governo dos Estados Unidos voltadas ao endurecimento das políticas migratórias têm provocado uma crise política e humanitária em diferentes regiões do país, com destaque para o estado de Minnesota. A intensificação de operações da polícia de imigração, acompanhada por prisões, deportações e episódios de violência durante as abordagens, reacendeu o debate sobre os impactos sociais, políticos e humanitários das medidas anti-imigrantes adotadas pela administração de Donald Trump.

Esse cenário é analisado pela professora Lívia Peres Milani, especialista em relações internacionais pelo programa de pós-graduação San Tiago Dantas e pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp. Segundo a docente, o que se observa atualmente não é uma crise migratória espontânea, mas um processo construído politicamente. “A criação narrativa e prática de um inimigo interno funciona como um bode expiatório para atribuir à migração vários dos problemas sociais que os Estados Unidos enfrentam nos últimos anos. É uma crise criada pelo próprio governo”, avalia.

Para a pesquisadora, o endurecimento das políticas migratórias representa uma ruptura com a forma como os Estados Unidos historicamente se projetaram no mundo. Ao longo do século XX, a migração esteve associada à construção da identidade nacional norte-americana e ao discurso de integração. “Os Estados Unidos tinham como narrativa nacional a ideia de um país aberto, tolerante, que conseguia aculturar essas pessoas”, afirma. 

Do ponto de vista dos direitos humanos, a pesquisadora observa um processo de retrocessos relacionados a garantias fundamentais. As ações da polícia migratória não apenas afetam os migrantes, mas colocam em xeque princípios constitucionais. “O governo Trump tem promovido uma militarização da vida cotidiana nos Estados Unidos remetendo a um culto à violência e, junto a isso, vincula-se uma ideia de que os diversos problemas que os Estados Unidos enfrentam, seja no âmbito interno, seja no âmbito internacional, poderiam ser resolvidos por meio do uso da força”, ressalta.

Outro aspecto central destacado por Milani é a associação recorrente entre imigração e criminalidade no discurso do governo. Segundo ela, essa vinculação não se sustenta em dados, mas cumpre um papel político específico ao reforçar a ideia do imigrante como ameaça à ordem social. “Na narrativa do governo Donald Trump, especialmente no caso de imigrantes não documentados, o simples fato de terem emigrado já os coloca sob a compreensão de que seriam criminosos”, afirma. 

A intensificação das operações do serviço de imigração, identificado pela sigla ICE, argumenta a docente, não redefine apenas a política migratória, mas também transforma o cotidiano das comunidades diretamente afetadas. O medo e a insegurança passaram a modificar a rotina de muitos imigrantes que, por receio de abordagens e prisões, evitam sair de casa para trabalhar, estudar ou acessar serviços essenciais, causando prejuízos ao bem-estar dessas populações. “A dinâmica de militarização tem consequências fortes tanto da perspectiva da saúde física, quanto da saúde mental dessas pessoas que estão cada vez mais aterrorizadas em razão desta política de segurança pública acionada pelo governo Trump”, alerta. 

Os efeitos das operações da polícia de imigração também passaram a atingir diretamente cidadãos norte-americanos, ampliando o alcance da crise provocada pela atuação do ICE. Em Minnesota, mortes ocorridas durante ações de agentes federais desencadearam forte reação pública e intensificaram os protestos contra a presença da agência no estado. Em um dos episódios, o enfermeiro Alex Pretti, 37, foi morto durante um protesto contra operações federais de imigração; em outro, a poeta premiada e mãe de três filhos, Renee Good, foi morta por agentes do ICE enquanto estava em seu carro.

Diante do avanço das políticas anti-imigração e do endurecimento das ações federais, a pesquisadora ressalta que as respostas institucionais e sociais se tornam centrais para conter o processo de deterioração dos direitos humanos. “A resistência a tudo isso com toda certeza passa pelos governos estaduais, mas passa também por toda a mobilização social, pelos protestos sociais que têm crescido muito nos Estados Unidos”, afirma Lívia Peres Milani. Segundo a especialista da Unesp, esse movimento é fundamental para o enfrentamento de um cenário de degradação das liberdades individuais, reforçando o papel da mobilização social como instrumento de pressão política e defesa de direitos.

Ouça abaixo a análise da professora Lívia Peres Milani:

Na imagem acima: Manifestantes protestam contra política migratória do governo Trump, nos Estados Unidos (Crédito: bettorodrigues/DepositPhotos)