Hamilton de Holanda: a alma do bandolim que conquistou o Brasil e o mundo

Criança prodígio que se tornou atração de alguns dos principais festivais de jazz do planeta, o compositor e arranjador inventou o bandolim de dez cordas e ampliou as possibilidades do instrumento, combinando os três elementos essenciais da música: melodia, harmonia e ritmo.

A carreira do bandolinista, compositor e arranjador brasileiro Hamilton de Holanda alcançou projeção internacional, devido à sua reinvenção das possibilidades técnicas de seu principal instrumento. Ao longo de mais de quatro décadas de atividade, Hamilton uniu a tradição do choro ao jazz e a ritmos globais, consolidando-se como um dos maiores embaixadores da cultura brasileira em diferentes partes do mundo.

Nascido no Rio de Janeiro em 1976, Hamilton mudou-se com a família para Brasília antes de completar um ano. Criado em um ambiente altamente musical, começou a tocar aos quatro anos e ganhou seu primeiro bandolim aos cinco.

Ao lado do irmão, o violonista Fernando César, formou o duo Dois de Ouro. O talento precoce da dupla chamou a atenção do país em 1983, quando se apresentaram no programa Fantástico, da TV Globo. A infância na capital federal foi marcada pelo aprendizado na Escola de Música de Brasília e pelas vivências precoces nas rodas de choro locais.

“A minha relação com a música vem antes de mim. Meu avô era músico, meu pai era músico, meu tio, irmão do meu pai, também músico” relata Hamilton. Ele conta que, em sua casa, “a música era a nossa comida, a nossa educação, o nosso motivo de encontros com a família, era a nossa diversão, nossa brincadeira”, diz. O resultado era um ambiente repleto de instrumentos. O pai possuía violão, cavaquinho, violão de 7 cordas, pandeiro e até um órgão. “Ganhei um bandolim quando tinha cinco anos de idade, no Natal de 1981. Isso foi definitivo, porque foi um presente especial do meu avô, que também se chamava Hamilton. Aliás, meu nome é uma homenagem a ele”, relembra.

Ele se lembra também de chegar em casa e encontrar instrumentos espalhados fora das caixas, em cima do sofá. Era uma estratégia de seu pai para criar um cenário propício para que os filhos pudessem se interessar cada vez mais por música. Nesse sentido, a vivência cultural em sua casa foi fundamental na sua formação artística.

Igualmente importante foram as referências legadas pelos pais. “Eu ouvia o que meu pai e minha mãe ouviam em casa. Bossa nova, samba, música popular brasileira de maneira geral. E  música nordestina, mais especificamente o frevo. Meu pai gostava também de orquestras, de música sinfônica. E  também choro, é claro. Os compositores brasileiros como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Chiquinha Gonzaga, Radamés Gnattali, João Gilberto e Tom Jobim. Então cresci mergulhado nessas músicas tão ricas e que fazem parte da nossa história” diz.

O pai percebeu as afinidades musicais dos filhos e os incentivou. “Ele colocou a gente em escolas de música, aulas particulares e também tocava junto com a gente. Tanto ele quanto a minha mãe foram fundamentais para que meu irmão e eu nos tornássemos músicos “, destaca Hamilton.

O vestibular para… Contabilidade?

Na juventude, Hamilton aprofundou seus conhecimentos teóricos ao cursar Composição na Universidade de Brasília (UnB). Sua transição para o mercado profissional consolidou-se na efervescente cena instrumental de Brasília e do Rio de Janeiro na década de 1990. Ele tornou-se um dos fundadores do moderno Clube do Choro de Brasília, ajudando a revitalizar o gênero entre as novas gerações e estabelecendo-se como uma das mentes mais brilhantes da nova música instrumental brasileira.

Talento precoce, sua descoberta aconteceu em paralelo com os primeiros passos na carreira. “Fiz meu primeiro show aos seis anos. Lembro de ganhar meu primeiro cachê e comprar uma bijuteria de presente para minha mãe. É a primeira relação que eu tenho registrada de cachê”, diz.

Na sequência, vieram mais shows e as primeiras apresentações em programas de TV em Brasília. Quando se apresentou em 1983 no programa Fantástico, sua visibilidade explodiu. Ele tinha sete anos. “Comigo sempre foi assim: era diversão, um momento lúdico, mas ao mesmo tempo já era profissão porque já estava envolvido com o mercado. Não era algo obrigatório e nem era o fundamental e principal, mas já era uma realidade”, conta.

Aos 17 anos chegou o momento de prestar o vestibular. Conversava com a minha mãe, que lhe dizia: ” a profissão de músico é muito difícil. Você pode fazer outra coisa e continuar tocando”. Ele se convenceu, e prestou o vestibular para duas carreiras: Engenharia Civil e Contabilidade. Cursou dois semestres de Contabilidade, e no terceiro percebeu que seguira a rota errada.

“Larguei a contabilidade e fui estudar para fazer o vestibular para Composição na UnB (Universidade de Brasília). Passei, e depois me formei em Composição. Foi uma relação de profissional-diversão, exatamente como é hoje em dia”, diz.

O Bandolim de 10 cordas


No ano 2000, Hamilton elaborou um modelo novo do instrumento, adicionando um par de cordas graves afinadas em Dó. O recurso visava e introduzir novas sonoridades e possibilidades, além de ampliar os campos harmônicos do modelo tradicional de bandolim de 8 cordas.

A inovação lhe permitiu executar simultaneamente a melodia e uma base harmônica encorpada. Isso libertou o bandolim do papel puramente solista, e aproximou-o de outros instrumentos que fazem melodia e harmonia, como o violão e o piano. Por tabela, abriram-se as portas para o jazz e a improvisação livre.

Hamilton relata que chegou a esse formato do instrumento depois de conduzir, por anos, pesquisas e estudos sonoros que envolveram tanto o bandolim como o violão e outros instrumentos.

“Foram anos até chegar o dia de eu ligar para o Virgílio Lima, que é um luthier maravilhoso lá de Sabará, e pedir para fazer meu primeiro bandolim de 10 cordas. Mas é inegável que o violão foi um instrumento que me despertou a vontade de conseguir fazer a polifonia, isto é, tocar os três elementos da música ao mesmo tempo: o ritmo, a harmonia e a melodia”, diz.

Ele diz que antes de tocar violão era mais ligado ao aspecto melódico das canções, devido ao aspecto solista do bandolim. “Foi algo que cresceu aos poucos na minha musicalidade. Eu estudava na UNB e estava em contato com uma gama diferente de outros excelentes músicos, outros bandolinistas, e ouvindo também muitas sonoridades com a essência da música brasileira”, conta.

Ele conta que o novo instrumento mudou sua forma de tocar. “Criei uma maneira de tocar o bandolim de 10 cordas. Foi desafiador e é até hoje, porque a gente não consegue descobrir tudo. Isso que é legal, é que você tem sempre alguma coisa diferente e eu me encanto a cada dia que eu descubro uma novidade na maneira de tocar o bandolim de 10”, diz.

Isso abriu as portas para uma série de colaborações internacionais. O mais recente é um projeto com o cubano Gonzalo Rubalcaba, um dos maiores pianista de jazz do mundo. “Tem momentos em que ele faz um improviso e eu fico fazendo a base no bandolim. Ele dá um corpo, como ele tem uma nota um pouco mais grave, ele dá aquele corpinho ali e cumpre uma outra função também dentro de um duo. Então, eu acho que isso que que enriqueceu essa parte instrumental do bandolim”.

Discografia e parcerias

Hamilton gravou uma longa discografia, na qual registrou tanto composições suas quanto homenagens a alguns de seus ídolos. As gravações saíram por sua própria gravadora independente, a Brasilianos, ou por parceiros mundiais como Universal, ECM, MPS e Adventure Music. “Durante a minha carreira gravei 50 álbuns. NOVA é o mais recente, lançado no mês de maio. Eu tinha a meta de, ao completar 50 anos (30 de março de 2026), ter o mesmo número de obras gravadas. Consegui! Daqui para a frente, vou pensar como proceder às próximas gravações e lançamentos”, diz.

O virtuosismo de Hamilton de Holanda levou a música brasileira a alguns dos palcos mais prestigiados do mundo. O instrumentista realiza turnês anuais consistentes pela Europa, Américas e Ásia. Ele é presença constante em grandes festivais internacionais como o Montreux Jazz Festival, o Festival de Jazz de Montreal e o prestigiado Jazz at Lincoln Center, em Nova York, onde costuma colaborar com grandes big bands americanas.

Dentre os grandes nomes com que colaborou estão astros como Wynton Marsalis, Chick Corea, The Dave Mathews Band, Paulinho da Costa, Chucho Valdes, Egberto Gismonti, Ivan Lins, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Richard Galliano e John Paul Jones, Bela Fleck e Stefano Bollani, entre muitos outros.

Para Hamilton, a inspiração transcende os rótulos. Ela cresce livremente e transcende a necessidade de definições. Ele se define como um explorador musical, que busca beleza e espontaneidade.

“A música é um lugar onde a gente pode, por alguns instantes, refletir, se divertir e até buscar soluções psicológicas dentro da gente. Eu fico conectado com isso, e quando eu estou com o bandolim nas mãos, nada me abala. Se estou triste ou chateado, pego o bandolim, toco 10 minutos e o mundo muda, tudo fica mais leve. Isso passa para as pessoas. Digo que é um bom contágio, no bom sentido. As pessoas também se emocionam com essa energia. Isso é algo de muito valor no que eu faço, e vem da minha infância: conectar minha música ao sentimento das pessoas”.

Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.

Imagem acima: Nando Chagas.