Apesar das chuvas e do aumento da temperatura, El Niño, por si só, não promove o aumento dos casos de dengue

Pesquisador da Unesp discute as condições necessárias para ocorrência de novos surtos no estado de São Paulo. Thiago Salomão de Azevedo estudou a relação entre o fenômeno climático e a proliferação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da doença.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), bem como outras agências e órgãos de pesquisas meteorológicas de todo o mundo, tem alertado ao longo das últimas semanas para a ocorrência de um El Niño especialmente intenso a partir do segundo semestre de 2026. O fenômeno climático, que tem origem no aumento das temperaturas da água do mar no Oceano Pacífico, desperta a atenção por sua capacidade de alterar os padrões climáticos em escala global. 

No Brasil, por exemplo, especialistas alertam para a ocorrência de grandes volumes de chuva na região Sul e para aumento das temperaturas na região Sudeste, ambas acima de suas médias históricas. Em 2024, o pesquisador da Unesp Thiago Salomão de Azevedo, juntamente com colegas de outras instituições brasileiras, publicou um artigo na revista Plos One em que investigou a relação entre o El Niño e o aumento da infestação do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da dengue, no estado de São Paulo. 

“Neste trabalho, nós verificamos que quando existe o El Niño, há uma tendência de proliferação do mosquito Aedes aegypti. E se temos mais mosquitos, a lógica é que podemos ter mais casos”, afirma Azevedo, que em 2025 realizou um estágio de pós-doutorado no Departamento de Biodiversidade do Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro, e hoje atua como pesquisador na Faculdade de Saúde Pública da USP. O aumento no número de mosquitos, explica o pesquisador, está relacionado com as condições climáticas que costumam se estabelecer no território paulista durante a ocorrência do fenômeno climático, especialmente, o aumento da temperatura e das chuvas sazonais. 

Azevedo explica que, na ocorrência de chuvas, muitos imóveis com potes, vasos ou reservatório mal acomodados, acabam enchendo de água. A presença desses reservatórios, aliado a maiores temperaturas, compõe o ambiente perfeito para a formação de criadouros de larvas do mosquito e para a replicação viral. 

O autor, entretanto, pondera que essa dinâmica depende de outros fatores além do calor e das chuvas. “Eu posso ter a ocorrência do El Niño e não ter muitos casos porque, além da condição climática, eu tenho que ter pessoas suscetíveis à infecção”, explica. O menor número de indivíduos suscetíveis, afirma, é um dos motivos para a queda no número de casos de dengue neste ano. 

Segundo o pesquisador, que estuda climatologia aplicada e epidemiologia, o ano de 2024 e de 2025 foram os piores anos de transmissão da dengue no estado de São Paulo, mas 2026 está sendo um ano com menos casos, comparativamente. Um dos motivos é que boa parte da população está imune aos sorotipos circulantes. O pós-doc da Unesp explica que existem quatro sorotipos diferentes da dengue, cuja circulação costuma variar periodicamente. “Os que estão circulando esse ano são os sorotipos 2 e 3, os mesmos do ano passado. Então eu tenho uma condição de imunidade de rebanho”, afirma. 

Além desses fatores, explica Azevedo, colaboram para a ocorrência de surtos de dengue a condição do ambiente urbano, tendo em vista que o Aedes aegypti é um inseto altamente adaptado às cidades e cujo nicho ecológico impede a proliferação de outras espécies de mosquito. “Isso é extremamente importante porque se houver outros mosquitos hematófagos, que se alimentam de sangue, cria-se uma competição maior entre eles, fazendo com que a proliferação do Aedes aegypti não seja tão eficiente”, diz.

Diante do cenário promovido pelo El Niño, o pesquisador reforça a necessidade de se combater o mosquito, já que reduzir os efeitos do fenômeno climático é praticamente impossível. Isso inclui atuação das diferentes esferas do poder público e o engajamento do cidadão na vigilância a possíveis reservatórios de água que possam viabilizar a proliferação de larvas.

A entrevista completa com o pesquisador Thiago Salomão de Azevedo está disponível no podcast Unesp e no player abaixo:

Imagem acima: agente de controle de doenças visita residências para verificar a presença de possíveis criadouros do mosquito Aedes aegypti (Crédito: Depositphotos)