Trajetória de egresso foi marcada pela incorporação de novas tecnologias em pesquisas de impacto em ecologia

Da graduação ao estágio de pós-doutorado na Unesp, Thiago Salomão recorda três décadas na carreira de ecólogo, sempre aberto ao diálogo com outras disciplinas e à aplicação de novas ferramentas para aprimoramento da pesquisa.

A trajetória acadêmica de Thiago Salomão de Azevedo dialoga diretamente com o próprio desenvolvimento da áreas de formação – a ecologia –  e do câmpus da Unesp, na cidade de Rio Claro. O ouvinte que acompanhar a história do egresso provavelmente vai se identificar com algumas das novidades tecnológicas, com o desenvolvimento de pesquisas de interesse direto da população e com as dificuldades profissionais, superadas com estudo e dedicação. 

A escolha pelo curso de graduação, iniciado em 1994, feita ainda jovem, fruto de um ambiente familiar que sempre respirou a vida acadêmica. Thiago explica que a escolha teve influência de uma tia formada em Rio Claro, em 1972, antes da incorporação pela Unesp, de um primo biólogo docente na USP, e da convivência direta com o pai matemático e da mãe geógrafa. Com esse pano de fundo familiar, ele encontrou na ecologia o ponto perfeito de equilíbrio entre tantas disciplinas. “A ecologia representava para mim a síntese ideal entre a vivência da geografia e da biologia. Foi um caminho que se alinhou naturalmente aos meus interesses e às facilidades que eu já trazia de casa”, revela o pesquisador.

Primeiros passos e o despertar para a cartografia

O interesse pela representação espacial surgiu logo no primeiro ano da graduação, durante as aulas de cartografia. A disciplina resgatou memórias da infância, quando em meio às viagens de carro com a família ele se divertia buscando cidades em mapas. Anos depois, o jovem perceberia que aquela paixão de criança poderia virar objeto de estudo e um caminho para a carreira profissional.

Na universidade, os professores rapidamente identificaram em Thiago uma vocação para a investigação científica e o aluno respondeu engatando um projeto de Iniciação Científica com bolsa Fapesp e o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre o monitoramento da vegetação no município de Ipeúna. O projeto de mestrado seguiu o mesmo tema, mas já incorporando novos recursos, ao aplicar modelagem matemática para identificar o grau de degradação da vegetação ciliar e a pressão do avanço agrícola sobre as áreas planas.

Pioneirismo no campo e a revolução tecnológica

No doutorado, a pesquisa ganhou aplicação prática e social no município de Extrema (MG), onde Thiago teve contato direto com programas de pagamentos por serviços ambientais e identificou na política pública uma oportunidade de aplicação de ferramentas que poderiam contribuir para sua melhor aplicação. Percebendo que o sensoriamento remoto poderia ser aprimorado para ajudar proprietários rurais no replantio, ele propôs um mapeamento inédito das Áreas de Preservação Permanente (APPs) sob a legislação vigente. O trabalho usou dados locais pioneiros e serviu de base para novos projetos da prefeitura.

Testemunha ocular de três décadas de transformações na Unesp, o pesquisador destaca o abismo tecnológico entre o final do século passado e os dias atuais, especialmente no processamento de dados e acesso à informação. “Naquela época, o processamento de um único mapa levava dias para ser concluído, e a busca por referências bibliográficas internacionais podia demorar meses para chegar pelo correio. Hoje, o contraste é enorme. A agilidade das ferramentas atuais e da inteligência artificial permite que a gente foque no que realmente importa: produzir ciência em maior volume e com mais precisão”, destaca.

Transversalidade: saúde, escorpiões e gestão pública

A excelência do ensino recebido na Unesp foi essencial durante seu primeiro estágio de pós-doutorado, realizado na Faculdade de Saúde Pública da USP. Em um ambiente academicamente exigente, a transição de Thiago entre uma instituição e outra foi natural. “Não senti qualquer dificuldade de adaptação ou defasagem técnica em relação aos colegas. Consegui conversar de igual para igual com professores e pesquisadores de ponta desde o primeiro dia”, relata.

Ao final do pós-doutorado, o ensino superior paulista viveu um hiato na oferta de concursos públicos que suspendeu temporariamente os planos profissionais de Thiago. O egresso passou, então, a lecionar em instituições particulares e como professor substituto na Unesp. O momento, apesar de difícil, abriu uma nova e importante perspectiva na carreira do professor: a interface entre saúde e meio ambiente. Nessa vertente, ele colaborou em análises cartográficas sobre criadouros do mosquito Aedes aegypti e, mais tarde, aplicou modelagem espacial no estudo de escorpiões — trabalho que rendeu parcerias estratégicas com o Instituto Butantan, em São Paulo, e com o Ministério da Saúde.

Muita dedicação e alguma ajuda para alcançar os objetivos

Hoje, Thiago está de volta à Unesp de Rio Claro como pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Biodiversidade, sob orientação da professora Thaís Guedes. Sua pesquisa atual investiga como as mudanças climáticas afetam a distribuição geográfica de serpentes no Brasil, analisando o impacto direto desses fenômenos no aumento de acidentes com animais peçonhentos e na saúde pública. O trabalho tem gerado publicações de alto impacto e convites para conferências internacionais. 

Ao olhar para trás e avaliar sua trajetória, o cientista mantém os pés no chão sobre o que é necessário para construir uma carreira sólida na ciência brasileira. “Embora a sorte de encontrar as pessoas certas ao longo do caminho seja um fator real, nada disso se concretiza se você não tiver a segurança proporcionada pela capacitação e pelo estudo constante. A dedicação é o único caminho possível para quem deseja construir uma carreira na ciência. É preciso realizar o trabalho com extremo empenho para atingir os objetivos pretendidos”.

Confira a entrevista de Thiago Salomão de Azevedo no podcast Universo Profissional ou clicando no player abaixo: