Rumos da democracia na América Latina são tema de nova edição do Prato do Dia

Podcast recebe Marília Carolina Pimenta, especialista em segurança internacional do continente, para debater resultados de eleições recentes, enfraquecimento das instituições, desinformação e influência renovada dos EUA sobre regimes da região.

A América Latina vive um novo ciclo eleitoral marcado pela polarização política, pela ascensão de discursos conservadores e por disputas em torno da democracia e das instituições. Em diferentes países da região, as eleições têm refletido debates sobre segurança pública, desigualdade social, influência de atores externos e o fortalecimento de lideranças que prometem soluções rápidas para problemas históricos. O novo episódio do Prato do Dia discute o rumo dos regimes democráticos na América Latina e possíveis consequências da interferência de países estrangeiros no processo eleitoral.

Para essa conversa, a edição recebe Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta, especialista em segurança internacional da América Latina, estudos de governança e atores armados não estatais. Docente do Departamento de Relações Internacionais da Unesp, câmpus de Franca, Marília Pimenta é vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, Unicamp e PUC-SP), pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). A pesquisadora também coordena a Área Temática de Segurança Internacional e Defesa da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Neste episódio, a docente analisa os desafios enfrentados pelas democracias latino-americanas diante das transformações políticas em curso na região.

Ao comentar sobre os recentes processos eleitorais na América Latina, a professora destaca que a região vive um momento de transformações significativas em suas democracias, acompanhando tendências observadas em diferentes partes do mundo. Segundo a pesquisadora, cresce o espaço para discursos polarizados, para o questionamento das instituições democráticas e para lideranças que se apresentam como alternativas capazes de resolver crises políticas e sociais complexas. Para Marília Pimenta, esse cenário não se restringe ao contexto latino-americano, mas faz parte de uma transformação mais ampla da política internacional. “Embora ainda tenhamos um quadro de eleições periódicas, de multipartidarismo, a experiência democrática na América Latina tem sofrido uma série de reversos”, afirma a especialista.

Os casos do Peru e da Colômbia ilustram diferentes respostas do eleitorado latino diante de cenários de crise política, insatisfação social e desconfiança nas instituições. No Peru, com a vitória de Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, a pesquisadora observa a permanência de grupos políticos tradicionais como atores centrais das disputas eleitorais. Para ela, esse fenômeno revela como parte do eleitorado tem priorizado a defesa de determinados valores políticos e ideológicos em detrimento da renovação de lideranças. “Temos gerações e gerações da mesma família no poder e mesmo o Alberto Fujimori tendo sido alvo de várias condenações, a população apostou nesse mesmo clã, nessa mesma família, em nome do conservadorismo, para afastar qualquer possibilidade que seja uma ameaça da extrema esquerda no país”, afirma.

Na Colômbia, com a vitória do advogado e empresário Abelardo de la Espriella,  o resultado aponta para a ascensão de candidaturas que se apresentam como alternativas ao sistema político tradicional, explorando o sentimento de desgaste das forças partidárias estabelecidas e a percepção de que os grupos que historicamente ocuparam o poder não foram capazes de resolver problemas recorrentes do país. “Foi feita essa aposta de sair desse círculo já conhecido do conservadorismo colombiano e o Abelardo vem ser esse nome de extrema direita, um outsider, para romper com os caminhos mais tradicionais da esquerda ou da direita colombianas”, explica.

A pesquisadora também comenta sobre a influência dos Estados Unidos nos processos políticos da região. Para a professora, o retorno de Donald Trump ao centro da política internacional recoloca a América Latina em uma posição estratégica dentro dos interesses norte-americanos. Nesse contexto, decisões diplomáticas, econômicas e de segurança adotadas por Washington, como a classificação de grupos como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, podem produzir impactos diretos sobre os processos eleitorais dos países latino-americanos.

Ao discutir o cenário brasileiro, Marília Pimenta avalia que as eleições de 2026 deverão ocorrer em um ambiente fortemente influenciado por disputas internacionais e por tentativas de interferência no debate público. “Nós estamos vivendo um momento de forte pressão diplomática dos Estados Unidos sobre o Brasil. Há, desde o início, uma tendência de tipificação política de grupos latino-americanos como terroristas, o que amplia a capacidade de ingerência norte-americana na região”, comenta.

O fenômeno da desinformação também aparece como um dos principais desafios para a democracia contemporânea. A disseminação de informações falsas tem desempenhado um papel relevante em processos eleitorais recentes na América Latina, contribuindo para a polarização e para o enfraquecimento do debate público. “As fake news estão inseridas no contexto das grandes big techs, que têm um alcance global. Trata-se de um ecossistema informacional que pode influenciar a circulação de conteúdos e, potencialmente, impactar resultados eleitorais. Espero que a sociedade esteja hoje mais amadurecida do que em um passado recente para lidar com essas questões, especialmente diante de evidências de ingerências externas”, afirma a docente. Diante desse cenário, fortalecimento da produção científica, da educação midiática e da divulgação do conhecimento se mostram como ferramentas fundamentais para enfrentar a desinformação.  

Ouça a entrevista completa com Marília Carolina Barbosa de Souza Pimenta para o Prato do Dia.