A Faculdade de Medicina Veterinária e Agronomia de Jaboticabal foi fundada em 1966 e em uma década construiu uma reputação bastante positiva, na cidade e na região, como centro de formação de profissionais e espaço de ensino de graduação. No entanto, os estudantes que no ano de 1975 comemoraram a aprovação no exame de vestibular não podiam imaginar que se matriculariam numa instituição diferente: a Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp. Um destes estudantes era Mario Hiroshi Saito, que tinha 23 anos quando ingressou na FCAV em 1976.
Antes de se tornar aluno da FCAV, Saito cursava a graduação na física da USP. O jovem tinha facilidade para as ciências exatas, e a família dispunha de recursos para apoiá-lo financeiramente enquanto ele residia na capital paulista e se dedicava integramente aos estudos. Mas foi justamente a herança familiar, ligada à terra e à produção agrícola, que o empurrou para uma trajetória diferente, e que o tornaria um dos primeiríssimos alunos não só da FCAV, como da própria Unesp.
Agronomia veio pela herança familiar
Os avós de ambos os lados de Saito viviam na cidade de Fukushima, no Japão. Seu avô paterno serviu como militar durante a 2ª Guerra Mundial. Concluído o conflito, escolheu viver no Brasil em busca de um lugar sossegado para trabalhar e criar os filhos. Como muitos japoneses, os familiares de Saito vieram ao país para trabalhar em plantações de café em 1913. Com o tempo, seus avós de ambos os lados conseguiram juntar dinheiro e adquirir suas próprias terras. A família de sua mãe residia em Lins, e a de seu pai na cidade de Promissão, distante cerca de 30 km. No passado, Promissão abrigou uma ampla colônia de japoneses, com sua agroindústria fortalecida pelos imigrantes. Lá Saito nasceu e passou seus primeiros anos de vida.
Aos 11 anos, quando Saito concluiu o curso primário, a família se mudou para Ribeirão Preto porque o pai queria que os oito filhos pudessem dar continuidade aos seus estudos. “Meu irmão fazia cursinho em Ribeirão Preto para medicina, e nos mudamos todos para lá. Meu pai disse que até as nossas três irmãs deveriam ter a oportunidade de estudar, para não depender de ninguém”, relata Saito.
Seu primeiro ingresso na faculdade se deu através do sistema MAPOFEI, acrônimo para Mauá, Poli (USP) e FEI. Esse vestibular unificado para a área de exatas e engenharias funcionou entre 1969 e 1975. Depois, o sistema de ingresso foi substituído pela Fuvest.
Saito viveu em São Paulo, durante três anos. “Eu era bom em Física, Química e Matemática. Mas me lembrava da minha infância, quando ajudávamos a cuidar da roça. Além de produtor de café, meu pai era dono de uma granja e praticava a agricultura de subsistência com arroz, feijão e milho”, conta o engenheiro agrônomo.

A escolha pela faculdade de Jaboticabal se deu pela proximidade com Ribeirão Preto e pela boa reputação de que a instituição desfrutava. Saito estudou em um cursinho durante um ano antes de ser aprovado no vestibular. No dia 3 de fevereiro de 1976, ele se dirigiu à faculdade para proceder à matrícula e dar o primeiro passo em sua formação como agrônomo. Porém, desde quatro dias antes, em 30 de janeiro de 1976, a Assembleia Legislativa de São Paulo havia promulgado a Lei nº 952, que unificou diversos institutos isolados de ensino superior do estado e deu origem à Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
Saito diz lembrar vagamente de, à época, ter lido sobre a criação da nova universidade estadual em algum jornal ou revista. Porém, não deu muita importância, e acredita que muitos dos seus colegas calouros também chegaram desavisados ao dia da matrícula e não sabiam das mudanças na instituição. Com o tempo, foram se acostumando à ideia de que eram estudantes da Unesp.
Vivências universitárias
Aliás, no mesmo dia em que realizaram a matrícula, Saito e seus colegas de turma passaram pelo trote. Os veteranos sujaram os calouros com ovos e café, além de oferecer bebidas. “Eles davam cachaça para a gente beber, mas não sabiam que eu já gostava de tomar uma. Devem ter pensado: ‘vamos deixar esse japonês bêbado’, mas, ao contrário, foram eles que ficaram bêbados”, conta rindo.
Após o trote, Saito estava sujo demais para voltar de ônibus até sua casa, em Ribeirão Preto. Prontamente, alguns veteranos o convidaram a ir para a república na qual viviam, em Jaboticabal, e lhe ofereceram o uso do banheiro, sem se importar com a bagunça que ficaria. “Tenho muito carinho por eles. Foi um trote sem violência, todo mundo se divertiu. Só quem não deve ter gostado foi a senhora que limpava a casa, pois, no dia seguinte, aquele lugar devia estar uma lástima. Eles sempre falam: ‘você foi o calouro que deu prejuízo para a gente’.”
Posteriormente, Saito se mudou para uma república na cidade, onde conviveu com amigos cujos nomes faz questão de evocar: David de Lima Isaac, Tersio Colucci de Andrade, Sérgio Feijó Figueiredo, João Doracy de Castro Júnior e José Humberto Padula. O grupo fazia rodas de viola com churrasco e cerveja e não dispensava uma ida ao Bar do Agostinho, famoso por ficar aberto 24 horas e servir um sanduíche de carne com queijo, tradicional na cidade.

Mas nem só de festa vivia o jovem Unespiano. Se a Unesp era recém-nascida, o curso de Agronomia já tinha uma década de vida, e o corpo docente havia consolidado um currículo recheado de oportunidades para a transmissão de conhecimentos práticos. As idas dos estudantes a campo incluíam até contatos com fabricantes de materiais agrícolas, que, em parceria com a universidade, conduziam testes de validação de seus produtos. “Todos os professores estavam envolvidos nesse trabalho de divulgação da pesquisa, pois acreditavam que isso resultaria em uma formação melhor para os alunos. Eles pensavam muito em como aprender e transmitir da melhor forma as informações”, lembra.
Um desses professores foi Paulo Donato Castellane, que viria a ser seu orientador no trabalho de conclusão de curso de Saito sobre micronutrientes em tomateiros. “Era um mentor, um homem extraordinário e um humanista”, relata o agrônomo. Donato foi referência nas ciências agrárias, tendo publicado mais de 50 artigos e recebido prêmios da Associação Brasileira de Horticultura (ABH). Em 1998, o professor recebeu uma homenagem póstuma por meio do Projeto de Lei nº 530, com seu nome sendo colocado na via principal de acesso ao câmpus da Unesp de Jaboticabal.
Saito diz que os laboratórios da FCAV em nada ficavam a dever aos do Instituto de Física da USP, e que as demais estruturas da faculdade também eram de boa qualidade. “Havia um refeitório com alimentos de qualidade fornecidos a baixo custo. Inclusive, o restaurante era movido a biogás. Havia uma estrutura que transformava matéria orgânica em gás aplicado na cozinha”, conta Saito, reforçando o caráter inovador que o instituto procurava oferecer. “Tudo o que havia de novo, eles procuravam trazer para a Faculdade.”
Além da FCAV, o prédio central abrigava também o Colégio Técnico Agrícola José Bonifácio, fundado em 1921, o que parece explicar a estrutura já estabelecida e a organização do corpo docente. Segundo Saito, “era um prédio imponente, com laboratórios, salas de aula, anfiteatro, refeitório amplo e uma fazenda muito grande para realizar experimentos”. Os alunos do colégio técnico, que funciona até hoje no local, dividiam as aulas práticas e visitas a campo com os estudantes da universidade.
As visitas a campo, inclusive, são lembradas por Saito com carinho. O agrônomo relembra uma viagem feita à região tomateira de Monte Alto, cujo transporte era fornecido pela própria faculdade. O ônibus parava em pontos específicos à beira da estrada para que os estudantes pudessem fazer estudos de pedologia – análise do solo em seu ambiente natural. Ele relembra ainda a ida a uma pedreira em que pôde observar o intemperismo do solo, além de diversas visitas a pomares da região. “Era um laboratório a céu aberto. Visitamos fazendas e outras áreas, tudo com o olhar da faculdade.”
Vários colegas de Saito se destacaram na vida profissional ou acadêmica. Ele cita como exemplos José Mário Jorge, hoje consultor especializado em cafeicultura; Jairo Antônio Mazza, professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da USP, em Piracicaba; e Antônio Cesar Bolonhezi, professor do Departamento de Fitotecnia, Tecnologia de Alimentos e Socioeconomia da Faculdade de Engenharia da Unesp, câmpus de Ilha Solteira.

Trajetória profissional
Grande parte da trajetória profissional de Saito foi construída dentro da Cooperativa Agrícola de Cotia, fundada em 1927 por imigrantes japoneses no Brasil. O agrônomo atuava no setor de vendas e foi designado para trabalhar no município de Assis Chateaubriand, no Paraná. Entre suas atribuições, Saito deveria realizar reuniões com órgãos como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e depois repassar as informações apresentadas aos produtores, guiando-os sobre os melhores produtos para uso nas plantações.
Segundo ele, as decisões deveriam levar em conta a sustentabilidade e o custo-benefício dos produtos. “Muitos pediam por um veneno mais forte, mas eu explicava que nem sempre o mais forte seria o mais eficiente. Apresentava alternativas que poderiam causar menos danos à saúde humana, ao meio ambiente e que eram até mais baratas”, relata Saito. “Foi um trabalho de formiguinha, mas eles foram se conscientizando.”
Mais tarde em sua carreira Saito foi transferido para Londrina. Lá trabalhou como supervisor de vendas e auxiliou, junto à ADAPAR (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná), na implantação do receituário agronômico no estado. Esse é um documento obrigatório para a venda e aplicação de agrotóxicos, que visa ao uso seguro de defensivos agrícolas. Ainda em Londrina, cursou uma segunda graduação em Administração de Empresas, que o ajudaria, mais ao fim de sua carreira, na direção de seus próprios negócios.
Em 1987, Saito foi transferido para Juazeiro da Bahia, no norte do estado. Na região do Vale do São Francisco, ele destaca sua atuação na popularização dos EPIs (equipamentos de proteção individual), que, até então, não eram amplamente utilizados.
Hoje, aos 73 anos, Saito segue no estado nordestino, aposentado e vivendo com sua filha e seu neto. Além disso, mantém suas raízes ao integrar a ACENIBRA (Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira do Vale do São Francisco). O profissional gerenciou duas empresas após sua saída da Cooperativa Agrícola de Cotia, mas teve que fechar os negócios devido a problemas de saúde e por não ter sucessores familiares que pudessem atuar no setor.

A FCAV-Unesp possui uma associação de ex-alunos que realiza encontros anuais das turmas antigas. Em 2024, foi realizado um evento para celebrar os 45 anos de formação da turma de Saito, mas o aposentado não pôde comparecer por motivos de agenda. Mas ele não perdeu o contato com os colegas da graduação. Eventualmente, a turma se encontra em Ribeirão Preto para relembrar histórias e dar risada. “Jaboticabal, para mim, foi a melhor faculdade que existiu”, celebra Saito.
