“Há sólida evidência científica para as condições pós-covid, mas o tema enfrenta barreiras de aceitação e desconhecimento por parte de muitos profissionais e da população”

Pesquisadora da FMB, Karen Ingrid Tasca é líder de pesquisa nacional sobre Condições Pós-Covid e colaborou na elaboração do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid, recém-lançado pelo Ministério da Saúde. Em entrevista ao Jornal da Unesp, ela fala dos desafios de diagnosticar e cuidar dos pacientes com esta condição, e do esforço para torná-la conhecida junto à classe médica.

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Desde o início do surto de covid-19, em 2019, até setembro do ano passado, cerca de 40 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus Sars-Cov-2. Porém, segundo estimativas do Ministério da Saúde, cerca de 25% dos infectados continuam enfrentando sintomas meses ou anos após a fase mais aguda da infecção. Problemas de memória, fadiga, alterações de paladar, depressão ou dificuldades respiratórias são alguns dos relatos mais frequentes. Esse conjunto de manifestações passou a ser chamado oficialmente pelo Ministério da Saúde de condições pós-Covid — termo adotado para padronizar diferentes expressões, como covid longa ou síndrome pós-covid.

Em dezembro, o Ministério publicou um Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid, resultado do trabalho de uma equipe multiprofissional formada por especialistas de diferentes regiões do país. O documento busca orientar profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) no reconhecimento, diagnóstico e tratamento dessas manifestações, que podem atingir múltiplos sistemas do organismo.

Karen Ingrid Tasca é docente da Faculdade de Medicina da Unesp, câmpus de Botucatu, e foi uma das pesquisadoras que participou da elaboração do guia. Nessa entrevista ao Jornal da Unesp, a pesquisadora fala sobre os desafios para reconhecer a condição, a falta de marcadores diagnósticos e o impacto que os sintomas persistentes podem ter na qualidade de vida da população.

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Como foi sua participação na elaboração do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid?

Karen Ingrid Tasca: O Ministério da Saúde convidou uma equipe multiprofissional com especialistas de várias regiões do Brasil. Cada integrante foi indicado a partir da sua área de atuação e experiência. O processo foi bastante colaborativo: todos nós lemos o documento inteiro, que já havia sido pré-produzido, e fomos sugerindo alterações ou complementações de acordo com nossa expertise.

Depois dessa etapa inicial de contribuições individuais, o material foi reorganizado pela equipe de coordenação e houve um encontro presencial em Brasília, convocado pelo Ministro da Saúde Alexandre Padilha, para discutir coletivamente todas as sugestões. Nesse encontro avaliamos cada ponto do documento, debatendo as mudanças e buscando consenso entre os participantes. Então todas as contribuições foram debatidas em grupo até chegarmos à versão final.

Karen Ingrid Tasca durante evento do Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid, no Rio de Janeiro.

Agora existe a portaria GM/MS nº 10.715 do Ministério da Saúde que recomenda que os serviços de saúde utilizem esse guia como referência para o atendimento de pacientes com condições pós-Covid.

Por que o guia foi lançado apenas agora, após seis anos do início da pandemia de Covid-19?

Karen Ingrid Tasca: Os relatos de pessoas com condições pós-covid começaram a surgir só depois do auge da pandemia, com vários nomes diferentes: covid longa, síndrome pós-covid, entre outros… Em 2021 foi lançado o Manual para avaliação e manejo de condições pós-covid na Atenção Primária à Saúde, que trouxe uma definição dessa condição, mas, mesmo assim, identifica-la continuou sendo um desafio. É difícil tanto para o paciente ter a autopercepção da condição pós-covid, como para o próprio profissional de saúde diagnosticá-la.

O que acontece, por exemplo, é que o paciente pode identificar que está com algum problema de memória, mas não o associa à covid, frequentemente atribuindo este sintoma ao estresse. Estima-se que ao menos 25% das pessoas que tiveram covid têm alguma condição pós-covid hoje. Muitos casos não são notificados porque o paciente não percebe, e o médico também sente dificuldades para diagnosticar. Ainda não existe uma diretriz, na forma de exames e marcadores biológicos que de fato provem que o paciente está com condição pós-covid.

Estima-se que ao menos 25% das pessoas que tiveram covid têm alguma condição pós-covid hoje. Muitos casos não são notificados porque o paciente não percebe, e o médico também sente dificuldades para diagnosticar.

A demora na conclusão do guia está relacionada a diversos desafios, incluindo a falta de atualização dos profissionais de saúde, a compreensão do próprio paciente e a busca pelo serviço de saúde, a descrença e o desconhecimento da sociedade e também as questões relativas ao SUS e à gestão pública.

O novo guia oferece atualização e aprofundamento em relação ao que havia no manual de 2021. Ele compila o conhecimento acumulado nesses anos e apresenta as manifestações das condições pós-covid organizadas a partir dos diferentes sistemas do organismo, como o sistema cardiovascular, o respiratório e o neurológico. Além disso, o Ministério da Saúde pretende realizar um treinamento nacional para capacitar profissionais de saúde no uso deste guia, para assegurar que todos falem a mesma linguagem ao lidar com essas condições.

Existem tratamentos específicos para as condições pós-covid?

Karen Ingrid Tasca: O tratamento depende muito do tipo de sintoma apresentado pelo paciente. Como as manifestações são bastante variadas, não existe uma única abordagem terapêutica. Em alguns casos o tratamento pode ser medicamentoso; em outros, envolve reabilitação física, fisioterapia, acompanhamento psicológico ou mudanças no estilo de vida. Tudo depende do sistema afetado e da gravidade dos sintomas.

É pensando nessa complexidade de fatores que o guia foi elaborado: para orientar os profissionais de saúde sobre como reconhecer essas manifestações e quais caminhos seguir no manejo clínico. Ele oferece recomendações sobre investigação, acompanhamento e possíveis estratégias de tratamento.

Uma questão é que nem sempre o tratamento da condição é diferente do que se a pessoa tivesse o problema a partir de outra origem. Por exemplo, uma depressão associada à condição pós-Covid pode receber um manejo semelhante ao de uma depressão sem essa relação. Mesmo assim, identificar a origem do problema ainda é importante. Para o paciente, por exemplo, saber que os sintomas podem estar relacionados à covid pode ajudar a compreender o que está acontecendo e facilitar o processo de aceitação e tratamento.

Nestes casos de depressão é muito comum existir uma autoculpabilização, o que costuma agravar o quadro. Então, se o paciente souber a origem da depressão, esse conhecimento pode agir como uma ferramenta que auxilia o paciente neste processo.

A comunidade médica já reconhece amplamente a existência das condições pós-covid?

Karen Ingrid Tasca: Ainda existe uma grande lacuna nesse aspecto. Muitos profissionais de saúde ainda não têm familiaridade com o tema, não associam determinados sintomas à infecção anterior pelo coronavírus ou mesmo não acreditam que esse tipo de condição existe. Isso significa que algumas queixas podem não ser interpretadas como parte de um quadro pós-Covid. O guia também tem o objetivo de alertar os profissionais de que essa condição existe e precisa ser considerada na prática clínica. Ela não é fictícia, e não pode se negligenciada. Mas a maior parte dos profissionais de saúde não dispõem do conhecimento para fazer este diagnóstico.

Existe uma lacuna enorme quanto a esse conhecimento, tanto globalmente quanto no Brasil. Acreditamos que, mesmo após a divulgação deste guia, ainda encontraremos desafios para diagnosticar e tratar essa condição no SUS.

Por que ainda há profissionais que duvidam da existência dessas condições?

Karen Ingrid Tasca: Essa é uma questão complexa. Hoje existe uma grande quantidade de estudos científicos sobre o tema, incluindo revisões sistemáticas e meta-análises, que são os níveis mais elevados de confiabilidade científica porque são pesquisas com metodologias muito robustas. A literatura científica que mostra que as condições pós-Covid existem é bastante consistente. O desafio é fazer com que essa informação chegue a todos os profissionais e seja incorporada na prática clínica. Alguns médicos não conhecem, ou mesmo não acreditam.

Mas não conhecer é diferente de não acreditar.

Karen Ingrid Tasca: Assim como há divergências quanto à imunização, observa-se ainda certa resistência no reconhecimento das condições pós-Covid por parte de alguns profissionais. Contudo, a prática clínica deve ser pautada estritamente em evidências, e hoje já dispomos de uma literatura robusta sobre o tema.

Se o médico identificar que um determinado sintoma é uma condição pós-covid, ele pode fazer mais rapidamente um direcionamento para outro especialista para que o paciente seja tratado de forma oportuna e adequada. É frequente, por exemplo, que queixas de fadiga em mulheres sejam subestimadas ou atribuídas precocemente à menopausa ou perimenopausa, dificultando o diagnóstico correto de uma sequela viral. A atenção às atualizações científicas é, portanto, fundamental para evitar essas inconsistências diagnósticas.

Com esse grupo, pude aprender o quanto esta condição é complexa. É preciso dialogar com a comunidade científica e não científica. A condição existe: há uma discussão mundial sobre ela, há muitas evidências científicas. Toda a população precisa acreditar na ciência.

Como explicar uma doença que provoca sintomas tão diferentes, que vão de problemas intestinais a AVC?

Karen Ingrid Tasca: Isso está relacionado à forma como o vírus SARS-CoV-2 interage com o organismo. Ele tem a capacidade de gerar uma resposta inflamatória muito intensa nas pessoas acometidas. É justamente isso que vai desencadear as diversas condições que afetam os vários sistemas do corpo. Além disso, fatores individuais também influenciam. A predisposição genética, a presença de comorbidades e até características como idade ou sexo podem aumentar a vulnerabilidade a determinadas manifestações.

O SARS-CoV-2 tem a capacidade de gerar uma resposta inflamatória muito intensa nas pessoas acometidas. É justamente isso que vai desencadear as diversas condições que afetam os vários sistemas do corpo.

Por exemplo, pessoas com obesidade ou outras condições inflamatórias prévias podem encontrar maior risco de desenvolver complicações após a infecção porque a inflamação provocada pelo vírus pode intensificar processos que já existiam no organismo. Então vamos supor que uma pessoa já tenha pré-disposição para uma doença autoimune. Se ela já possui essa genética, talvez a inflamação inicial causada pela covid possa agir como um gatilho para o desenvolvimento de alguma doença autoimune como condição pós-covid.

Existem precedentes de infecções virais que causam efeitos prolongados semelhantes?

Karen Ingrid Tasca: Sim. Algumas arboviroses, como dengue, também podem provocar sintomas que persistem por mais tempo após a fase aguda da doença. Um exemplo comum é a queda de cabelo, que pode ocorrer tanto após dengue quanto após covid. Então outros tipos de vírus e doenças também podem levar a um quadro mais arrastado.

Aqui no Brasil, portanto, o desafio pode ser maior, pois existem tanto as condições pós-covid como também as arboviroses. Isso dificulta identificar se alguns sintomas, como a fadiga extrema ou a falta de memória, estariam associados ao quadro de condição pós-covid ou ao quadro de alguma arbovirose. E em alguns casos ele pode ter sido acometido pelos dois males.

Você é a pesquisadora principal de um estudo multicêntrico sobre condições pós-covid no Brasil. Em que estágio está o estudo? Já há resultados?

Karen Ingrid Tasca: Esse estudo envolve pesquisadores das cinco regiões do país. Nós vamos entrar em contato com 1000 pessoas que tiveram covid e aplicar um questionário bastante detalhado por telefone. O objetivo é caracterizar essas manifestações em nível nacional e verificar se existem diferenças regionais.

Para isso, trabalhamos com três eixos principais. O primeiro é sobre a inter-regionalização. Queremos saber se existem diferenças nas condições pós-covid nas diferentes regiões do Brasil. Aqui, o acesso à saúde, os hábitos alimentares, os costumes e o estilo de vida são muito diferentes. Relacionado a essas diferenças está o segundo eixo que é avaliar o papel nutricional no desenvolvimento das condições pós-covid. Não temos acesso aos mesmos alimentos, e nossos hábitos são diferentes também. Esses diversos perfis alimentares podem impactar nas condições pós-covid? O terceiro e último eixo é avaliar a qualidade de vida e a avaliação funcional das pessoas acometidas.

Estamos mais ou menos na metade desse estudo, que conta com financiamento do CNPq. Já temos alguns resultados preliminares que estamos apresentando em congressos e eventos. Um dos achados é um maior comprometimento das mulheres, que ainda não foi explicado. Também foi observada associação entre alteração no paladar e sobrepeso, e um impacto maior na qualidade de vida.

Para isso, nós desenvolvemos um score, uma classificação, para comparar os casos de pessoas que tiveram condições pós-covid com pessoas que foram acometidas por covid, mas se recuperaram completamente. Estamos observando que, de fato, houve um comprometimento maior na qualidade de vida de quem relatou condições pós-covid.