Maria Ribeiro do Valle, Marcos do Amaral Jorge
A Universidade Estadual Paulista (Unesp) completou cinco décadas, mas algumas de suas unidades já ultrapassaram esta marca há muito. A Faculdade de Odontologia de Araraquara e a Faculdade de Ciências Farmacêuticas, por exemplo, surgiram ainda em 1923, sob o nome de Escola de Farmácia e Odontologia de Araraquara. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (hoje, Faculdade de Ciências e Letras de Assis) remonta a 1958, e a Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (da qual derivam os atuais Faculdade de Medicina de Botucatu, Instituto de Biociências de Botucatu e Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia), a 1963. Estas e outras unidades universitárias, situadas em diferentes pontos do interior paulista, eram denominadas Institutos Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo, e foi a sua incorporação que resultou na criação da Unesp em 1976.
A origem dos Institutos Isolados
A maior parte dos Institutos Isolados surgiu em fins dos anos 1950 e inícios dos anos 1960, para ofertar cursos em diversas áreas do conhecimento. Sua criação como escolas públicas estaduais atendia, por um lado, aos anseios dos moradores das cidades do interior que aspiravam proporcionar a seus filhos uma educação e uma formação profissional que só poderiam ser encontradas nos grandes centros, em locais cujo acesso nem sempre era fácil às populações interioranas.
O crescimento da população estudantil apta para ingressar em uma universidade passou a exigir do governo estadual uma atenção maior para a formação superior. Ainda que houvesse um número considerável de escolas superiores, muitas das quais confessionais, era evidente a ausência do poder público nesse setor.
Essas circunstâncias chamaram a atenção dos políticos locais que, em vários municípios do interior, passaram a colocar em seus programas de ação a tarefa de conseguir, com o governo estadual, a criação de escolas de nível superior. Essa demanda tornou-se uma verdadeira competição por parte dos políticos, que começaram a ver na criação de faculdades uma grande oportunidade de ganhos eleitorais. Dessa maneira foram criados os Institutos Isolados, na forma de faculdades públicas, ou por meio da estadualização de antigos estabelecimentos de ensino superior mantidos por particulares ou pelo poder municipal.
No plano da administração do sistema, a criação, em 1967, da Coordenação da Administração do Ensino Superior (Cases) havia integrado os Institutos Isolados, que passaram, no entanto, a partir de 1969, para a administração da Coordenadoria do Ensino Superior do Estado de São Paulo (Cesesp). Em 1976, por determinação do então governador Paulo Egydio Martins, e em comum acordo com a Secretaria Estadual da Educação, essas escolas deixaram a Cesesp para assumir uma direção própria, na forma de universidade: uma autarquia submetida ao governo do estado de São Paulo.
No início, muita heterogeneidade
Assim, a Unesp, desde o início de sua formação, marcada pela ditadura militar, é caracterizada por uma heterogeneidade que perpassa diferentes aspectos. do político ao educacional, e pela dispersão espacial. E o formato multicâmpus, uma de suas marcas mais evidentes, lhe conferiu certa originalidade.
Nesse sentido, a expansão da Unesp pelo interior paulista se organiza como um processo em etapas, no qual se articulam: a criação e consolidação de unidades isoladas no interior; a constituição de mecanismos de coordenação e padronização administrativa; a aglutinação dessas unidades em uma universidade multicâmpus; e, posteriormente, novas ondas de expansão territorial e acadêmica, impulsionadas por demandas regionais e por políticas públicas de fortalecimento do ensino superior público paulista.
Após sua criação, em 1976, em pleno regime militar, a passagem dos anos 1980 para os 1990 aparece como uma etapa em que uma parcela significante da universidade assume, simultaneamente, uma agenda de democratização e de ampliação institucional. No período em que se consolida o novo Estatuto de 1989, tal agenda é formulada de modo articulado, sob pressão social e com apelo por planejamento político, visando particularmente à representação da comunidade nos órgãos colegiados. Os anos 1990, em especial, foram marcados por essa ampliação do raio de atuação e pelo aumento na oferta de vagas; em paralelo, no debate institucional, a expansão é enunciada não apenas como deslocamento territorial, mas também como ampliação para novas áreas do conhecimento.
O programa de expansão da Unesp teve início em 2002, na gestão do reitor José Carlos Souza Trindade (2001‐2005). Sua implementação se estendeu pelas gestões Marcos Macari (2005–2009) e Herman Voorwald (2009–2013). A etapa de consolidação atravessou as gestões de Julio Cesar Durigan (2013–2017) e Sandro Roberto Valentini (2017–2021). Ao final de vinte anos, o processo de consolidação da ampliação é dado como concluído em 2022, já no primeiro ano da gestão de Pasqual Barretti (2021–2025). Nessa trajetória, em 2003, se deu a criação das Unidades Diferenciadas, em resposta a solicitações locais e em consonância com a política estadual de incremento do ensino superior público, posteriormente renomeadas em 2006 como Câmpus Experimentais.
Em 2012, foi adotado o Programa de Expansão da Graduação, com a criação de 11 novos cursos de engenharia em implantação escalonada, sustentado por arranjo de financiamento pactuado com o governo do estado. A partir de 2015, teve início uma revisão do status dos Câmpus Experimentais criados no início dos anos 2000. Com a mudança, conquistaram os mesmos direitos de uma unidade tradicional. A 1ª etapa ocorreu em 2015 (tal como se deu em Dracena, Sorocaba, São Vicente e Tupã) e a 2ª em 2021 (a exemplo de Registro, Itapeva, São João da Boa Vista, Rosana e Ourinhos).
A UNESP e a redemocratização
Esse processo de expansão e de redefinição institucional também se inscreve no contexto mais amplo de redemocratização, no qual sobressaem as reinvindicações de participação da comunidade nos destinos da Unesp, ganhando densidade política. Merece destaque a luta pela revisão estatutária. A movimentação em torno das Diretas Já foi o pano de fundo decisivo para a politização do cotidiano universitário: em novembro de 1983, a campanha foi capaz de articular tribunas parlamentares e ações de rua, fortalecendo o movimento.
Na Unesp, esse impulso é tratado como convergente com as aspirações por eleições democráticas na própria universidade, atravessando a disputa pela Reitoria. A Associação dos Docentes da Unesp organizou campanha pelas unidades, e os resultados da consulta seriam encaminhados ao Colégio Eleitoral, mas a eleição direta encontra barreiras na legislação vigente e no Estatuto. Isso reabriu o debate sobre reformulação estatutária, centralização do poder e fragmentação institucional.
Nesse contexto, a instalação da Reitoria na Praça da Sé (1978) ganha relevo: o comício de 25 de janeiro de 1984 é um episódio importante e a Praça adquire conotação simbólica de “espaço das diretas”, tornando-se ponto estratégico para caravanas do interior e para manifestações com faixas e cartazes em direção ao edifício da Reitoria. A campanha interna, afinada ao momento político, também projeta a Universidade na grande imprensa. Ainda que a campanha Diretas Já (1983–84) não tenha atingido de imediato seu objetivo, politizou o debate e contribuiu para o advento da “Nova República”.
No plano institucional interno, a consulta a toda a comunidade elegeu o professor William Saad Hossne como reitor, cujo nome sequer fez parte da tramitação do processo no Colégio Eleitoral. O governador Franco Montoro decidiu não nomear nenhum nome da lista sêxtupla e, em 31 de julho de 1984, nomeou Jorge Nagle reitor pro-tempore. Em seguida, em 16 de janeiro de 1985, um novo Colégio Eleitoral elaborou outra lista, com Jorge Nagle em primeiro; na sequência e de forma imediata, Montoro nomeou Nagle reitor, encerrando aquele ciclo imediato da disputa. Esse processo evidenciou a necessidade de reformular o Estatuto, de modo a ampliar a representação da comunidade nos órgãos colegiados, sobretudo no Conselho Universitário. Posteriormente, o novo Estatuto acabou sendo aprovado pela Resolução Unesp de 21 de fevereiro de 1989 e pelo Decreto n. 29.720, de 3 de março de 1989.
A instauração das ações afirmativas
A partir dos anos 1990, chega à sociedade brasileira o debate sobre a adoção das ações afirmativas, entre elas as políticas de cotas raciais e sociais, inspirado pelo exemplo das ações implementadas nas universidades norte-americanas. Na Unesp, o início deste debate remonta à criação do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão (NUPE). Estabelecido em 1999, o NUPE tinha, entre seus objetivos, o desenvolvimento de atividades de pesquisa e extensão sobre temas atinentes à questão do negro. Partiu do NUPE, ainda em 2005, a primeira demanda por cotas raciais na Unesp. O pleito, entretanto, acabou rejeitado pelo Conselho Universitário.
As primeiras experiências de adoção do sistema de cotas em universidades públicas se iniciaram nos anos 2000. Porém, foi a sanção da Lei das Cotas (Lei nº 12.711/2012) pelo governo federal, obrigando a reserva de vagas em instituições federais de ensino superior segundo critérios específicos (que incluíam renda, autodeclaração racial e origem no ensino público), que projetou nacionalmente este debate.
No âmbito estadual, a proposta enfrentou expressivas resistências. Os críticos argumentavam que o ingresso de estudantes cotistas poderia rebaixar o nível do aprendizado dos estudantes em geral. Por outro lado, os valores meritocráticos das universidades estaduais ficariam desassistidos pelas novas políticas.
A pressão dos movimentos negro e estudantil foi fundamental para que a Unesp adotasse,a partir do Vestibular de 2014, um sistema progressivo de cotas. No vestibular de 2018, esse percentual chegou a 50% da reserva para alunos de escola pública, sendo 35% para alunos pretos, pardos e indígenas. Esses percentuais se mantêm até hoje.
A chegada dos estudantes por meio do sistema de cotas demandou, por parte da universidade, adaptações e inovações. Foi preciso, por exemplo, elaborar critérios que orientassem a atuação das bancas de heteroidentificação racial para evitar fraudes. E a constatação de que, após o ingresso, muitos alunos se viam obrigados a abandonar a graduação pela falta de recursos para custear despesas como aluguel, alimentação e material didático, resultou em um sistema de permanência estudantil que vem sendo aprimorado.
Após mais de duas décadas de demandas, debates (tanto internos quanto junto à sociedade mais ampla) e aperfeiçoamento das políticas de inclusão e permanência, hoje temos uma Unesp que reflete de forma muito mais fiel a diversidade da sociedade paulista.
Consolidação como universidade de pesquisa
Em sua origem, a Unesp tinha no ensino superior sua principal via de atuação. Nas últimas duas décadas, no entanto, a instituição vem se consolidando como referência na produção científica brasileira. Este fortalecimento das suas atividades de pesquisa se reflete em vários aspectos, como a participação de seus docentes em redes de pesquisa globais, o aumento no número de programas de pós-graduação com notas máximas na avaliação da Capes, a publicação em revistas de alto impacto, e grandes projetos de pesquisa, financiados pelas principais agências do país, sediados em suas unidades. Ao todo são quatro Centros de Pesquisa, três Centros de Ciência para o Desenvolvimento, três Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT), além do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID).
Toda essa movimentação se reflete na colocação da Universidade em alguns dos principais rankings universitários. Em 2025, a Unesp alcançou sua melhor colocação em rankings internacionais, figurando na sexta posição da América Latina no QS World University Rankings e na terceira colocação entre as universidades brasileiras no THE World University Rankings. A produção individual também se destaca: a Unesp conta com 77 pesquisadores entre os mais influentes do mundo, segundo ranking elaborado pela editora Elsevier.
Ao completar meio século de existência, a comunidade da Unesp pode olhar para trás e constatar como a instituição surgida no difícil contexto do regime militar, e dotada de uma perspectiva regional, com foco no ensino de graduação, desabrochou como uma universidade de expressão nacional, cuja produção científica dialoga com os grandes centros internacionais, e que, ao mesmo tempo, se mantém associada ao estado de São Paulo, que continua sendo seu câmpus.
