Décadas de pesquisas de docente do IA sobre Stockhausen vão embasar livro mais abrangente já publicado sobre compositor

Flo Menezes estabeleceu vínculos pessoais com o músico de vanguarda e, atendendo a convites do próprio autor, deslocava-se regularmente à Alemanha para ministrar cursos sobre sua obra. Trabalho será publicado em três volumes pela prestigiada editora britânica Routledge.

O compositor Flo Menezes, professor titular do Instituto de Artes (IA) e diretor do Studio PANaroma de Música Eletroacústica da Unesp, em São Paulo, acaba de concluir o livro The Work of Karlheinz Stockhausen (“A Obra de Karlheinz Stockhausen”, em tradução livre). Publicada em inglês pela editora britânica Routledge, com apoio da FAPESP, a obra, com lançamento previsto para julho, divide-se em três volumes e soma mais de mil páginas — em que Menezes sintetiza décadas de aulas, leituras e análises sobre a obra Stockhausen (1928 – 2007), celebrado como um dos compositores mais influentes do século 20.

Dentre as várias contribuições inéditas do livro, Menezes destaca uma das mais curiosas: a identificação de um erro na famosa peça Studie II (1954), uma obra emblemática dos primórdios da música eletrônica. Ao recriar a peça por conta própria, seguindo as instruções da partitura, o docente descobriu que um dos sons previstos no papel acabou não entrando na gravação original. Ao apresentar essa descoberta ao próprio Stockhausen — os dois se conheceram e conviveram —, o compositor teria ficado abismado. “Ele percebeu que um pedaço de fita magnética provavelmente tinha caído no chão”, conta o pesquisador.

O livro faz uma leitura crítica e contextual da obra do compositor alemão, além de analisar em profundidade algumas peças centrais dentre os 376 trabalhos deixados por Stockhausen (“É um recorte de cerca de 40 obras. Para analisar tudo, eu precisaria de dezenas de volumes”, diz Menezes). Há descrições dos embates teóricos de Stockhausen com outros compositores de seu tempo, como John Cage e Pierre Boulez, e explicações sobre seu papel em várias frentes da música de vanguarda no pós-Segunda Guerra Mundial, como o uso de um método de composição chamado serialismo integral e a exploração pioneira da síntese eletrônica de sons, com controle rigoroso de parâmetros como altura, duração e intensidade.

Obras do compositor romperam com estruturas da música ocidental

Em que pese sua importância indiscutível, a música feita por nomes como Stockhausen, Boulez e Cage ao longo do século 20 ainda encontra dificuldades em ser assimilada pelo grande público, ou mesmo pelos músicos profissionais. Esses vanguardistas buscaram romper com as amarras do sistema tonal que vigora desde a Renascença no Ocidente — uma tradição musical que hierarquiza os sete graus da chamada escala diatônica (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) conforme relações de alívio e tensão percebidas entre esses sons.

O resultado dessa insurreição estética foi a criação de composições que lidam com expectativas enraizadas nos ouvidos do Ocidente ou as ignoram completamente em prol de novos princípios de criação e organização dos sons e silêncios. Esses novos princípios resultam em peças que diferem muito tanto da música popular contemporânea quanto das obras de Bach, Mozart ou Beethoven, pois todos esses exemplos são baseados majoritariamente na tradição tonal.

Hoje, há uma série de possibilidades de criação e manipulação de sons ao alcance de qualquer pessoa com um computador e os softwares corretos. Nos anos 1950, porém, Stockhausen dispunha apenas de equipamentos analógicos e rolos de fita magnética. Para montar suas obras, o compositor recortava a fita em fragmentos, que depois organiza cuidadosamente. Em muitos casos, sequer havia a participação de músicos: Stockhausen, sozinho, gerava, registrava e montava cada trecho de suas peças.

Interesse pela obra começou na adolescência

Principalmente por influência de seu pai, um poeta do movimento concretista que também se chamava Florivaldo, Menezes se interessou, desde a adolescência, pela música de vanguarda do pós-Segunda Guerra Mundial, e pela obra de Stockhausen em particular. Movido por essa admiração, transferiu-se para a Alemanha após a graduação, para estudar composição. Seus laços com a obra do alemão se estreitaram em 1998, quando organizou e lecionou um curso no estúdio PANaroma em homenagem ao aniversário de 70 anos do compositor.

Poucos meses após ministrar essas aulas, Menezes voltou à Alemanha para estudar na cidade de Kürten, onde Stockhausen, em pessoa, ministrava cursos. Chegando lá, em 1998, teve a oportunidade de mostrar ao mestre alemão o material usado para o curso ministrado na Unesp, que incluía slides impressos em acetato transparente, feitos para exibição nos retroprojetores da época. Stockhausen ficou impressionado: “Ele disse: ‘Você precisa dar esse curso aqui’”, recorda o docente.

A partir de então, Menezes passou a ensinar análise das obras de Stockhausen na Alemanha, a convite do próprio compositor. A aproximação evoluiu para uma relação de mútua admiração intelectual e amizade que durou até sua morte, em 2007.

As aulas ministradas em São Paulo e Kürten acabariam se tornando os primeiros passos da elaboração do livro — um processo longo e interrompido diversas vezes por compromissos artísticos e acadêmicos, mas que finalmente chegou ao fim. A publicação pela Routledge garante ampla circulação internacional. O livro deverá chegar às principais universidades da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina.

Paralelamente à edição em inglês, Menezes já planeja a versão em português, que deverá ser publicada futuramente no Brasil. Mas não sem, antes, tirar férias do projeto por algum tempo. “Agora preciso deixar o livro respirar no mundo. Depois, volto a ele em português.”

Imagem acima: Flo Menezes e Karlheinz Stockhausen. Crédito: acervo pessoal.