O Banduo, duo de bandolins formado pelos músicos Maik Oliveira e Rafael Esteves, está lançando seu novo trabalho, o álbum Dobras. O álbum, que chegou às plataformas digitais no dia 27 de fevereiro de 2026, é parte do projeto “Banduo – O Bandolim e Suas Texturas”. Em suas 10 faixas inéditas, os músicos exploram a variedade de timbres do instrumento e buscam estabelecer um diálogo entre a música clássica e popular, fundindo gêneros como o choro e a música de câmara. A obra conta com o músico convidado Victor Guedes no violão tenor e foi lançada de forma independente, com distribuição digital da PiÔ (produção e projetos).
Sob a direção musical de Alisson Amador, os arranjos trazem assinaturas de quatro instrumentistas, referências na cena contemporânea: Edmilson Capelupi, Milton Mori, Marcílio Lopes e Alisson Amador, além do próprio Rafael Esteves.
Maik Oliveira é bandolinista com mais de 20 anos de trajetória. Tocou com nomes como Inezita Barroso, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nilze Carvalho, Eduardo Gudin, Sérgio Reis e Rolando Boldrin. Rafael Esteves é bandolinista, educador, compositor e arranjador. Venceu o Festival Jorge Assad com o Quarteto Pizindim e, como solista, já atuou com a OCAM-USP e com grandes nomes da música brasileira, como Dona Ivone Lara, Monarco, Almir Guineto e Péricles.
A obra transborda o virtuosismo de Maik e Rafael, e o flerte com a música camerística possui uma dimensão ainda mais especial em virtude da formação inusitada dos instrumentistas. Os dois despontaram como músicos de samba e pagode na Grande São Paulo, com Maik atuando em São Bernardo do Campo e Rafael em Guarulhos. O passo seguinte foi a incursão de ambos no universo do choro. O avanço em direção ao erudito teve início com o encontro com Alisson Amador. Natural de Heliópolis, Amador é músico de formação clássica e se aproximou inicialmente como professor de rítmica. Porém, graças à sua sintonia pessoal e musical com os dois artistas e com a proposta do Banduo, foi convidado para atuar como diretor musical.
Rafael Esteves explica que o novo álbum partiu de um trabalho que os dois já desenvolviam em estúdio. Os instrumentistas se encontravam embora vivessem em cidades diferentes: Maik em São Bernardo, Esteves em Guarulhos.
“A cada semana, um ia para a casa do outro, a fim de estudar o repertório relacionado ao bandolim”, conta. Com a convivência, começaram a pensar em funções diferentes para os dois bandolins em cada música, e o que era para ser um estudo semanal evoluiu para algo mais artístico. Com o tempo, começaram a selecionar um repertório que pudessem tocar em dupla.
“A gente passou a planejar um trabalho artístico mesmo. Daí veio a possibilidade de participar desse projeto do ProAC, que deu certo. Quando fomos aprovados, a gente fechou realmente o repertório de um disco. Conseguimos conceber esse álbum, que saiu agora em fevereiro”, diz Rafael.
Encontrar meios para explorar as possibilidades do bandolim não é uma tarefa simples, mas foi precisamente o desafio que eles se dispuseram a abraçar. “O esqueleto da nossa proposta, a estrutura principal, é mostrar algumas facetas do bandolim: a forma de acompanhamento, a forma de contracanto em relação à melodia e a distribuição das melodias”, explica Rafael.
A definição do repertório foi trabalhosa. Eles discutiram se deveriam se limitar a composições autorais ou se abririam espaço para peças de pessoas que os apoiaram, ou de artistas que admiram. “A gente pensava: será que não vai ter uma do Jacob, do Vivaldi, do Lupércio, da Chiquinha Gonzaga? Eu sou apaixonado pelas obras deles. A gente flertou bastante com essas possibilidades até chegar nesse repertório”, relata Maik.
O nome escolhido, Dobras, brinca com a dualidade proposta pelo projeto e evoca alguns trocadilhos. Tanto pelo fato de o bandolim ser um instrumento de cordas dobradas quanto por se tratar de um duo, o que permite apresentar duas vozes na execução das músicas. A produção envolve cinco compositores e cinco arranjadores, e os arranjos apresentam contrapontos e texturas. O álbum mostra outro lado do bandolim, retirando-o do contexto do conjunto regional de choro e promovendo uma conversa artística entre o clássico, o choro e as periferias.
Com o álbum em produção, veio a necessidade de escolher um nome para o projeto.”O Maik, a princípio, tinha sugerido ‘Duo Rafael Esteves e Maik Oliveira’. Achei que ficaria um nome talvez muito grande. Pensei em ‘Banduo’, talvez por ‘Bandolim Duo’. Acabou ficando esse nome. Deu certo”, diz Rafael.
O bandolim
O bandolim é um instrumento emblemático da música brasileira, e está ligado a nomes de craques como Jacob do Bandolim, Luperce Miranda, Isaías Bueno e Déo Rian. Segundo Rafael, nos últimos anos o instrumento vem recebendo uma atenção crescente na música brasileira e também no exterior.
“O bandolim é um instrumento que cresce cada vez mais. Ele começou muito timidamente lá no início do século 20. De repente, alcançou uma representatividade gigante dentro do choro. Isso não se limitou a nomes como Luperce Miranda e Jacob do Bandolim, que talvez tenham trazido esse crivo essencial. Na verdade, dentro do choro, ele é um dos principais instrumentos solistas. E, de repente, hoje existe gente tocando bandolim na MPB, no forró pé-de-serra, no pagode, na música pop e no samba pop, dentre outros estilos. E na música instrumental, além do choro. A gente pode citar alguns nomes. Por exemplo, Hamilton de Holanda, que talvez seja o grande representante. Ele toca blues, toca música brasileira usando um bandolim. Tem outros mestres também, como Milton Mori e Isaías, que estão mais dentro do choro. Acho que está ocorrendo um crescimento na quantidade de bandolinistas e nas demandas de trabalho também”, diz o músico.
As origens do álbum
O Banduo – O Bandolim e Suas Texturas é um projeto realizado com recursos do edital PNAB nº 24/2024 de Gravação e Lançamento de Álbum Musical Inédito, com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Programa de Ação Cultural – ProAC, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, e do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
Além da gravação do álbum, o Banduo tem agendadas sete apresentações, sendo dois concertos didáticos e cinco shows de pré-lançamento e lançamento. Os concertos didáticos, realizados em polos do Projeto Guri, têm o objetivo de compartilhar com os alunos o processo criativo, a preparação do disco, a criação dos arranjos e a construção do repertório, além de abordar o bandolim e sua história.
Agora, o duo está realizando uma série de concertos gratuitos e didáticos em cidades do interior de São Paulo, como Poá, Botucatu, Avaré e Morungaba, para compartilhar seu novo trabalho e falar sobre a história do bandolim.
Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.
