Análise genética feita por pesquisadores da Unesp revela comércio ilegal de pepinos-do-mar no Brasil

Animais contrabandeados a partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos são valorizados na culinária e medicina tradicional chinesa. Demanda pode provocar queda populacional de espécies e gerar desequilíbrio ecológico na costa brasileira.

Todos os dias, malas repletas de materiais ilegais entram e saem dos aeroportos brasileiros. Substâncias ilícitas estão entre os principais produtos que correm pelas esteiras, mas não são as únicas bagagens transportadas. Eletrônicos, medicamentos e até mesmo indivíduos da flora e fauna enchem as mochilas dos criminosos que passeiam pelos terminais enquanto aguardam a partida dos aviões. 

Dentre os materiais biológicos exportados estão os pepinos-do-mar, animais marinhos invertebrados que ocupam toda a costa brasileira. Esses seres, que cabem na palma da mão, são considerados uma iguaria milenar na culinária asiática e na medicina tradicional chinesa, sendo levados com frequência ilegalmente para o outro lado do globo. 

Uma análise conduzida por pesquisadores do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe) da Unesp, câmpus de Bauru, e publicada na revista Scientific Reports revelou a origem desses indivíduos provenientes da costa brasileira e o tráfico ilegal realizado a partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), em São Paulo, considerado o maior da América Latina. Após investigações genéticas, a equipe demonstrou que os animais encontrados em malas pertencem às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, sendo comprovadamente oriundos do sudeste brasileiro, o que, além de configurar um crime ambiental, pode indicar uma futura crise para a biodiversidade costeira do país.

Existem, aproximadamente, 1.250 espécies de pepinos-do-mar espalhadas pelo globo, com 40 delas em território brasileiro. Os animais indicados no estudo estão atualmente listados como de “Menor Preocupação” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), mas isso não significa que sua exploração não apresente riscos ao meio ambiente. O biólogo Fabio Porto-Foresti, professor no Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp, no câmpus de Bauru, e coordenador do Lagenpe, explica que um dos temores envolvendo o comercio ilegal dessa espécie é que aconteça no Brasil o que pode ter acontecido na China, em que a exploração intensa reduziu drasticamente populações e espécies de pepino-do-mar na região. “O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma que é transportado, permite que seja levada uma grande quantidade nas bagagens”, comenta o pesquisador. “Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie”.

Pesquisadores analisaram os indivíduos de pepinos-do-mar secos e concluíram que pertenciam às espécies  Holothuria grisea e Isostichopus badionotus. (Crédito: Fabio Porto-Foresti)

Nesse sentido, o aumento da demanda por pepinos-do-mar reproduz um padrão semelhante ao observado no comércio de barbatanas de tubarão. Ambos são amplamente comercializados em mercados asiáticos e, por serem produtos não perecíveis, podem ser facilmente armazenados e transportados, dificultando a fiscalização. Sem monitoramento adequado, a exploração excessiva dos pepinos-do-mar poderá seguir trajetória semelhante àquela observada para diversas populações de tubarões, que sofreram declínios acentuados em decorrência do comércio de barbatanas.

Ricardo Utsunomia, também docente da FC-Bauru e coordenador do Lagenpe ao lado de Porto-Foresti, reforça o impacto biológico da retirada desses animais das áreas costeiras, “O pepino-do-mar fica no fundo do oceano extraindo e ingerindo matéria orgânica. A retirada deles de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um desequilíbrio ecológico muito grande”, afirma

Espécimes identificados pelo “código de barras” do DNA 

O estudo envolvendo os pepinos-do-mar é resultado de uma longa parceria entre o Lagenpe e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O projeto começou em 2015, quando um mestrando do laboratório decidiu pesquisar as redes de comércio ilegal no Aeroporto Internacional de Guarulhos envolvendo os peixes-de-bico. O Ibama fazia a apreensão do material, restando aos pesquisadores da Unesp realizar a análise molecular para identificar a espécie. “O marcador molecular nos permite saber o que está sendo comercializado, principalmente na forma descaracterizada, que impede uma análise morfológica. Porém, o que não vemos morfologicamente, vemos do ponto de vista genético”, explica Porto-Foresti. 

Esse foi apenas o pontapé inicial. Desde então, a equipe também realizou análises em nadadeiras de tubarão, bexigas natatórias (órgão interno de peixes), dentre outros materiais até chegar aos pepinos-do-mar. O recente estudo, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), baseou-se em espécimes secos de pepino-do-mar apreendidos no aeroporto em 2023. Os materiais estavam acondicionados em caixas e malas, cada uma contendo aproximadamente 500 indivíduos secos. A partir dessas apreensões, os pesquisadores selecionaram aleatoriamente 40 espécimes para as análises moleculares. Entre os indivíduos analisados, 18 pertenciam à espécie Holothuria grisea e 22 à Isostichopus badionotus.

Pepinos-do-mar sendo vendidos em uma feira popular na cidade de Chongqing, no sudoeste da China. (Crédito: Ricardo Utsunomia)

Conforme explicado por Porto-Foresti, os animais nas sacolas estão, geralmente, descaracterizados, cortados e secos, o que dificulta a identificação com base na aparência. Por isso, as amostras são levadas ao laboratório, onde é feita a extração do DNA e uma amplificação por PCR. “A gente busca um marcador, que nada mais é do que um ‘código de barras’ do DNA. Então, comparamos o sequenciamento com um banco de dados disponivel”, explica. 

O banco de dados utilizado no estudo foi o Barcode of Life Data System (BOLDSystems), plataforma de dados global desenvolvida em 2005 para apoiar estudantes e pesquisadores na identificação e no monitoramento de espécies com base em DNA. Ao colocar o código na plataforma, os cientistas confirmavam a espécie. 

De acordo com Utsunomia, existe um problema: nem todas as espécies têm seus marcadores disponíveis em bancos de dados, daí a importância em mapeá-las e realizar o cadastramento. No caso dos pepinos-do-mar, os pesquisadores não encontraram o sequenciamento de DNA do H. grisea em banco, tendo que recorrer a ajuda de Rogério Caetano da Costa, professor em zoologia de invertebrados da FC-Bauru, que conduz trabalhos na região de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, há décadas. Caetano da Costa assina o novo artigo como coautor. 

“Ele trabalha com ecologia de camarões e, na região, existe uma abundância de pepinos-do-mar. Isso nos ajudou a fazer a contraprova”, conta Utsunomia. Com o auxílio do colega, os pesquisadores conseguiram acesso aos animais frescos da praia e, consequentemente, reuniram exemplares para realizar a análise genética e comparar com aqueles interceptados nos aeroportos. “Percebemos que eles eram iguais. Esse trabalho comprova que aqui não é uma zona intermediária de tráfico, realmente os animais estão sendo coletados na costa”, completa. A ocorrência reforça ainda a importância de abastecer os bancos de dados públicos, pois sem eles os estudos de identificação molecular se tornam inviáveis.

Os cientistas relataram ainda uma percepção dividida por Caetano da Costa, embora esse não seja um dado consolidado cientificamente. O biólogo crê que, nos últimos tempos, houve uma diminuição na quantidade de pepinos-do-mar no costão rochoso de Ubatuba, o que pode estar atrelado ao aumento da pesca ilegal. Se em São Paulo essa queda ainda é uma impressão dos pesquisadores da Unesp, no Ceará este é um fato já documentado em estudo publicado na revista Ocean and Coastal Management, em 2019, que estimou a captura de quase 400 mil espécimes de H. grisea por ano nos municípios de Camocim e Xavier. 

O pesquisador Ricardo Utsunomia segura na palma da mão um exemplar de pepino-do-mar vivo, encontrado na costa de Ubatuba, no litoral de São Paulo. (Crédito: Ricardo Utsunomia)

Um merado ilegal e lucrativo

É difícil estimar a quantidade de pepinos-do-mar traficada todos os anos. Os pesquisadores explicam que, muitas vezes, os animais são transportados junto a carcaças de celulares, eletrônicos, entre outros produtos de informática, o que dificulta a contagem do material. Esses equinodermos, quando frescos, pesam cerca de 500 gramas, mas perdem até 90% do peso após o processo de secagem. Carregar uma mala de pepinos do mar torna-se uma tarefa fácil e lucrativa, já que no mercado internacional esses animais podem custar até 400 euros por quilo, com espécies raras atingindo o valor de cinco mil dólares.

A pesca e a comercialização de pepinos-do-mar no Brasil são regulamentadas pela Portaria Ibama nº 93/1998. No entanto, é necessário apresentar comprovação de origem ambiental e documentação legal para sustentar esse comércio. O trabalho do Lagenpe junto ao Ibama busca, sobretudo, escancarar essa ameaça invisível do tráfico dentro dos aeroportos para todos os animais exóticos.

“De repente, poderia ser um ouriço-do-mar, uma estrela-do-mar ou uma bexiga natatória. O objetivo maior desse projeto é pensar nesse comércio que vem acontecendo e que não conseguimos identificar a espécie do ponto de vista morfológico”, diz Porto-Foresti. “Com o marcador genético, vai ser possível ver exatamente qual espécie está sendo comercializada, seja para pepino-do-mar, peixe, camarão ou outros grupos. Essa é a grande questão”, finaliza.

Imagem acima: Pepinos-do-mar secos apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU). (Crédito: Fabio Porto-Foresti)