Unesp lança centro de pesquisa para dimensionar impactos da educação musical na saúde mental de estudantes e profissionais do segmento

Com sede no Instituto de Artes, em São Paulo, centro financiado pela Fapesp vai trabalhar no desenvolvimento de metodologias de avaliação e de indicadores a partir da experiência de participantes dos projetos Guri e Emesp Tom Jobim.

A Unesp lançou nesta segunda-feira (15) no auditório do Conselho Universitário do prédio da Reitoria, na região central da capital paulista, o Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música (CiDPMus), o sétimo Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) financiando pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) com sede na Universidade. 

Serão investidos pela Fapesp R$ 7,7 milhões em um período de cinco anos para pesquisas que têm como objetivo futuro trabalhar na criação de metodologias de avaliação e de indicadores que possam dimensionar impactos da educação musical na saúde mental das pessoas, a partir do levantamento e da análise de dados do universo de dois projetos culturais consolidados no estado, o Projeto Guri e a Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) Tom Jobim. 

Tais projetos estão vinculados à Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado de São Paulo, sob gestão da organização social Santa Marcelina Cultura, entidades parceiras no centro de pesquisa. Os CCDs financiados pela Fapesp são pensados para dialogar com órgãos públicos para solucionar problemas patentes da sociedade.

A coordenação do CiDPMus caberá à Graziela Bortz, docente do Instituto de Artes do câmpus de São Paulo. O centro foi estruturado com base em um olhar interdisciplinar para o problema e terá pesquisadores parceiros de outras instituições de ensino superior do Brasil e do exterior, tais como Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Estadual de Londrina, UFABC, UFSCar, USP, Universidade de Ostfold (Noruega), a University of Southern California e Indiana University (as duas últimas dos Estados Unidos).

Docente do Instituto de Artes da Unesp, Graziela Bortz será a coordenadora do CiDPMus (Crédito: Fábio Mazzitelli)

De acordo com Graziela Bortz, na fase inicial, o centro de pesquisa vai trabalhar na obtenção de dados de saúde mental de cerca de 2.000 adolescentes e jovens que estão nos projetos Guri e Emesp Tom Jobim, no interior (Bauru, Presidente Prudente e São Carlos) e na capital. Outras 2.000 pessoas serão selecionadas para compor o grupo de controle da pesquisa, totalizando cerca de 4.000 participantes. 

Serão coletados questionários relacionados à saúde mental para mapear fatores de proteção (promoção da saúde emocional, redução sistêmica de estresse e desenvolvimento cognitivo) e fatores de risco (alta pressão por performance, gatilhos para transtornos mentais existentes na rotina de estudantes e profissionais) que dizem respeito ao envolvimento com música e educação musical. 

“São questionários de saúde mental e uso de drogas, basicamente. O resultado vai apontar em que direção as instituições podem trabalhar”, diz a professora Graziela Bortz. “Podemos fazer um diagnóstico institucional e saber se as instituições podem atuar para minimizar os efeitos da ansiedade e como a música pode funcionar como antídoto para vícios da era moderna. Se isso se apresentar (nos resultados), será muito importante do ponto de vista de política pública. A tendência das pessoas é achar que arte é um adendo na educação, e acreditamos que a arte é uma parte fundamental na educação”, diz a pesquisadora.

Centro pioneiro na área das humanidades na Unesp

No lançamento do CiDPMus, Graziela Bortz fez um histórico da separação entre teoria e prática musical, que se deu no Século 19 a partir da influência da teoria positivista: as bases teóricas passaram a ser oferecidas na universidade e os estudos e aprimoramento práticos foram direcionados aos conservatórios. 

“Essa separação derivada do Século 19 teve um custo para o desenvolvimento da pesquisa em áreas não pertencentes ao universo da musicologia histórica ou sistemática. Talvez por isso as áreas das artes apresentem ainda uma produção (científica) muito incipiente quando comparadas a áreas consolidadas das ciências exatas e biológicas”, afirmou a docente do Instituto de Artes.

Reitora Maysa Furlan celebrou o primeiro CCD da Fapesp com sede na Unesp com foco na grande área das humanidades (Crédito: Fábio Mazzitelli)

Este é o primeiro Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Fapesp com sede na Unesp com foco na grande área das humanidades, o que foi lembrado pela reitora Maysa Furlan e pelo vice-reitor Cesar Martins, presentes na cerimônia de lançamento do centro de pesquisa. 

“Temos aqui hoje uma consolidação na área de humanidades que sempre nos esforçamos muito (para alcançar). Fizemos questão de colocar no PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) que a questão das humanidades, das artes é transversal em todas as atividades desta Universidade”, discursou a reitora Maysa Furlan. “Estamos avançando com esta transversalidade, porque temos certeza que é daí que se traz a inspiração, a transformação e o papel deste conhecimento gerado numa sociedade tão complexa e repleta de desafios”, complementou.

O vice-reitor Cesar Martins disse que o Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música “tem um grande valor” para a Universidade, em especial pela abordagem científica que fará uma ponte dos estudos e das práticas em música com a questão da saúde mental. 

“Muito se diz do papel da música e da arte na questão da saúde das pessoas e o CCD vai permitir que se experimente isso, que se use métodos de pesquisa científica para mostrar o quanto isso é importante e, a partir disso, tenho certeza que políticas públicas poderão ser implementadas para se colocar cada vez mais arte, cultura e música na formação dos nossos jovens, desde a primeira infância”, diz o vice-reitor.

Diretor artístico-pedagógico do Projeto Guri, Paulo Zuben também destacou a possibilidade de testar hipóteses relevantes sobre os efeitos da educação musical na vida das pessoas. “O percurso que vamos ter nos próximos anos para medir resultados vai mostrar o quanto a música afeta, qual é esse impacto na criança que está começando a estudar música, para aquele que já é profissional, enfim, isso tudo para nós é muito importante porque o financiamento das políticas públicas hoje não se faz sem evidências”, afirmou. 

Autoridades da Unesp, Fapesp e do Projeto Guri estiveram presentes no lançamento do CiDPMus (Crédito: Fábio Mazzitelli)

O lançamento do CiDPMus contou com a apresentação da Big Band de São Paulo do Projeto Guri, formada por jovens e regida por Daniel Filho. O maestro acredita nos efeitos benéficos da música para o desenvolvimento cognitivo e, por outro lado, é testemunha do adoecimento de colegas após anos de pressão por performance e competição exacerbada no universo das orquestras e músicos profissionais. 

“Chega uma hora que há músicos que precisam de apoio profissional. Tenho amigos músicos de orquestra que, infelizmente, têm que tomar remédio para ir a um ensaio. Isso não faz sentido algum: você ter que se medicar para ir a um ensaio”, relata.

Dois dos principais atuais dirigentes da Fapesp estiveram presentes no lançamento do centro de pesquisa que terá como sede o Instituto de Artes da Unesp. Ao todo, a fundação soma investimentos de R$ 571 milhões em 83 Centros de Ciência para o Desenvolvimento desde 2019. “Este é um exemplo de um projeto que ao mesmo tempo liga arte à neurociência, à psicologia, e que foca principalmente na questão daquilo que é aplicado, que traz resultados à população, porque este é o mais importante foco dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento. São projetos de política pública que têm aplicação direta na sociedade”, afirma o professor Marco Antonio Zago, presidente do Conselho Superior da Fapesp.

Carlos Frederico de Oliveira Graeff, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, ressaltou em seu discurso o caráter interdisciplinar do centro de pesquisa e o potencial dos estudos que se iniciam. “Quem está na sala de aula sabe que a questão da saúde mental está cada vez mais presente no nosso dia a dia e que a gente precisa encontrar soluções. Talvez a música seja um desses caminhos”, disse o docente.

Imagem acima: integrantes da Big Band de São Paulo do Projeto Guri se apresentam no auditório do Conselho Universitário da Unesp (Crédito: Fábio Mazzitelli)