“A vinda de Mo Yan pode marcar esse ponto de inflexão para que a  literatura chinesa  deixe de ser vista como exótica em nosso país”, reflete o sinólogo Giorgio Sinedino em podcast

“Conexão China” recebe palestrante do Fórum Unesp 50 Anos para analisar a visita do Prêmio Nobel de Literatura ao Brasil e debater o intercâmbio cultural entre os países.

No mês de maio, o Memorial da América Latina recebeu o Fórum Unesp 50 Anos. Foram três dias de palestras sobre cultura, política, ciência e literatura, cuja cobertura completa você confere aqui. A primeira parte deste episódio do Conexão China traz uma reportagem especial sobre as mesas dedicadas a debater a literatura chinesa.

Dentre os conferencistas que se apresentaram no evento estava o sinólogo e tradutor brasileiro Giorgio Sinedino, diretor do Centro Bilíngue Chinês-Português da Universidade de Macau. Na entrevista especial deste episódio, Sinedino debate o significado da participação de diversos escritores chineses no Fórum, dentre eles o prêmio Nobel Mo Yan, e analisa o interesse crescente do mercado editorial brasileiro pela literatura chinesa.

A reportagem sobre o Fórum repercute a participação de Mo Yan, laureado em 2012 com o prêmio Nobel de Literatura. Em suas intervenções, o autor ponderou que, embora a população chinesa seja imensa, e o país gere uma expressiva produção literária, ainda há poucas obras traduzidas para o português, assim como a China recebe poucos títulos brasileiros traduzidos para o mandarim. O escritor considera o incentivo dos dois governos fundamental para aumentar esse intercâmbio e mudar o cenário.

Ao Conexão China, Sinedino abordou a vinda de Mo Yan ao Fórum. O sinólogo considera o encontro bastante favorável, adensando os laços culturais entre esses dois países cuja relação costuma ser reduzida aos carros elétricos e investimentos econômicos. “A vinda dele pode marcar esse ponto de inflexão de que, a partir de hoje, nós tentemos entender a literatura chinesa não como exótica, mas como a literatura russa no Brasil”, exemplifica.

O Nobel Mo Yan se destaca por agregar em seus livros elementos da literatura mundial. As obras do autor são fortemente influenciadas pelo realismo mágico latino-americano, tendo Gabriel García Márquez como uma de suas referências. Para Sinedino, o chinês coloca em seus livros um senso de humor que parece o brasileiro, assim como uma permeabilidade das classes camponesas que ressoa em nosso país e causa identificação com a forte literatura regional do Brasil, tornando suas obras atrativas aos diferentes públicos.

O sinólogo, que vive na China desde 2005, refuta a ideia brasileira de que a China se resuma a um país moderno e tecnologicamente avançado. Essa é também uma visão possível do país asiático, mas que exclui o caráter tradicional da China, que busca conservar suas tradições mais profundas. “Na China, há uma ideia de continuidade, de perenidade da cultura chinesa, que é uma coisa que me agrada muito”, diz o tradutor. “Eu gosto de livros antigos, de filologia. E quando você liga a televisão [na China], você vê as pessoas falando de poesia clássica e coisas do século VIII”.

Sinedino atribui o atual fluxo migratório de chineses ao Brasil à política de boas-vindas adotada pelo presidente Lula, que flexibilizou vistos e mantém boa relação com o líder chinês Xi Jinping.

O Conexão China está disponível nas principais plataformas de áudio. Também é possível escutar o novo programa clicando no player abaixo.